A Av Dan




A Av Dan
Traduo de EUGENIA ANTUNES
Crailo*Leitores

Titulo original: GRANNY DAN
Fotografia da capa:
" IMAGE BANK
Terje Rakke
Copyright e 1999 by Damelle Steel Impresso e encadernado para Crculo de Leitores
por Printer Portuguesa
Casais de Mem Martins, Rio de Mouro
em Dezembro de 2001
Nmero de edio: 5535
Depsito legal nmero 170 354/01
ISBN 972-42-2600-X

Aos grandes amores, e s pequenas bailarinas, cada qual acarinhado por si s e jamais esquecido.
E, em especial,
 minha to amada Vanessa,
uma extraordinria
bailarina.
Que a vida te trate
com bondade, gentileza
e compaixo.
Com todo o meu amor d.s.



PRLOGO
A caixa chegou numa tarde nevosa duas semanas antes do Natal. Muito bem embrulhada e atada com cordel, estava  minha espera na soleira da porta quando cheguei a 
casa com as crianas. Tnhamos parado no parque no caminho para casa e eu ficara sentada num banco a olhar pelas crianas e a pensar de novo nela. Desde o servio 
religioso, h uma semana atrs, que povoava todos os meus pensamentos. Havia tanta coisa sobre ela que eu desconhecia, que apenas podia imaginar, tantos mistrios 
que s ela podia desvendar. O meu maior desgosto era no lhe ter perguntado nada sobre a sua vida enquanto tivera oportunidade, partindo simplesmente do pressuposto 
de que no era importante. Afinal de contas, j era velha, que importncia poderia a sua vida ter? Pensava que sabia tudo sobre ela.
Era a av de olhos brilhantes que adorava andar de patins comigo, mesmo aos oitenta anos, que fazia deliciosos biscoitos e conversava com as crianas da cidade onde 
vivia como se fossem adultos e a entendessem perfeitamente. Era muito sensata e divertida, as crianas adoravam-na e ficavam fascinadas com os truques com cartas 
que executava, quando a conseguiam convencer a isso.
Tinha uma voz meiga, tocava balalaica e cantava baladas antigas em russo. Parecia estar sempre a cantar ou a trautear. Permaneceu elegante e gil at ao fim, amada 
e admirada por todos os que a conheceram. A igreja estivera surpreendentemente cheia para uma mulher de noventa anos. No entanto, nenhum de ns a conhecia na realidade, 
ningum sabia quem fora ou sequer imaginava o extraordinrio mundo de onde viera. Sabamos que nascera na Rssia, que chegara a Ver-mont em 1917 e que casara com 
o meu av pouco tempo depois. De resto, achvamos que sempre ali estivera e fizera parte das nossas vidas. Como sempre fazemos com os mais velhos, partramos do 
princpio de que sempre fora velha.
Nenhum de ns a conhecia verdadeiramente e o que no me saa da cabea eram as perguntas por responder. Interro-
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gava-me por que razo nunca antes me ocorrera colocar-lhe essas questes, porque jamais procurara as respostas para essas perguntas?
A minha me falecera dez anos antes e talvez nem mesmo ela conhecesse as respostas, ou quisesse sequer conhec-las. Fora sempre mais parecida com o seu pai, uma 
pessoa circunspecta, urna mulher sensata, uma verdadeira natural de Nova Inglaterra, embora o seu pai o no fosse. Tal como ele, era uma mulher de poucas palavras 
e de sentimentos imperscrutveis. Acreditava que quanto menos se revelasse melhor e, da mesma forma, pouco interesse demonstrava na vida de outras pessoas. Ia ao 
supermercado quando os tomates ou os morangos estavam em promoo, era uma pessoa prtica que vivia no mundo material e que pouco tinha em comum com a sua me. A 
palavra que melhor a descrevia era "pragmtica", um termo que ningum utilizaria para descrever a sua me, a av Dan, como eu lhe chamava.
A av Dan era uma pessoa mgica. Parecia composta de ar, ps de perlimpimpim e asas de anjo. Me e filha pareciam no ter nada em comum e, na realidade, sempre me 
identifiquei mais com a minha av, cuja ternura e carinho me tocaram de forma indelvel. A av Dan era a pessoa que eu mais amava e de quem sentia tanta falta naquela 
tarde nevosa no parque. Falecera dez dias antes, com noventa anos de idade.
Quando a minha me morreu, com cinquenta e quatro, fiquei obviamente triste. Sabia que sentiria saudades dela, que sentiria falta da estabilidade e segurana que 
representava para mim. O meu pai casou com a melhor amiga da minha me um ano aps a sua morte e nem isso me chocou muito. Tinha sessenta e cinco anos e um problema 
cardaco, por isso, precisava de algum que lhe cozinhasse as refeies. Connie era uma velha amiga e fazia bem as vezes da minha me. A situao nunca me incomodou, 
compreendia-a at muito bem. Nunca sofri muito com a perda da minha me, mas j com a morte da av Dan o mundo perdera para mim alguma da sua magia. Sabia que nunca 
mais a escutaria a cantar as suas melodias russas ou tocar a balalaica e que os meus filhos nunca se aperceberiam do que haviam perdido. Para eles, ela era apenas 
uma senhora muito velhinha com um olhar muito meigo
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e uma pronncia divertida, mas eu sabia exactamente o que perdera e nunca mais recuperaria. A av Dan era um ser humano admirvel, uma alma gentil, difcil de esquecer.
A caixa ficou em cima da mesa da cozinha durante bastante tempo, enquanto as crianas viam televiso, clamavam pelo jantar e eu acabava de prepar-lo. Tinha ido 
ao supermercado naquela tarde e comprara os ingredientes necessrios para confeccionar bolinhos de Natal. Planeramos faz-los naquela noite para que os pudessem 
levar para a escola no dia seguinte. Katie preferia fazer queques, mas Jeff e Mathew concordaram em fazer bolinhos em forma de sino, com decoraes encarnadas e 
verdes. Era a noite ideal para os fazer, pois Jack, o meu marido, ausentara-se por trs dias para uma srie de reunies em Chicago. Acompanhara-me ao funeral na 
semana anterior e mostrara-se carinhoso e compreensivo. Sabia o quanto ela significava para mim, porm, tal como a maioria das pessoas, tentara convencer-me de que 
a av Dan tivera uma vida longa e cheia de alegrias, pelo que era aceitvel que tivesse chegado ao fim. Aceitvel para ele, no para mim. Sentia-me defraudada com 
a sua perda.
Mesmo aos noventa anos, a av era ainda bela. Usava os seus longos cabelos brancos entranados e, em ocasies especiais, formava um coque com a trana. Toda a vida 
usara o cabelo daquela maneira. Para mim, tivera sempre o mesmo aspecto. As costas muito direitas, o corpo esguio, os olhos azuis que brilhavam quando olhava para 
ns. Tambm fazia os mesmos biscoitos que eu planeara fazer naquela noite e ensinara-me a confeccion-los, mas quando os fazamos punha os seus patins e danava 
graciosamente por toda a cozinha. A av fazia-me rir e, por vezes, chorar com as suas maravilhosas histrias sobre bailarinas e prncipes.
Foi ela que me levou ao bailado pela primeira vez e, se tivesse tido oportunidade, teria adorado danar com ela. Porm, no havia nenhuma escola de bailado em Vermont 
e a minha me no queria que ela me ensinasse. Bem tentou uma vez ou duas, mas a minha me achava que era mais importante fazer os trabalhos de casa e ajudar o meu 
pai com as duas vacas que tnhamos no celeiro. A dana no fez parte da minha vida enquanto criana, nem a msica. A magia e o mist-

rio, o encanto e a arte, a curiosidade por mundos de horizontes mais alargados que o meu foram-me despertadas pela av Dan ao longo de todas as horas que passava 
sentada na cozinha a ouvi-la.
Andava sempre de preto e parecia ser dona de um sem--nmero de vestidos negros j gastos e de chapus bastante curiosos. Arranjava-se sempre bem e dela emanava uma 
espcie de elegncia natural, embora o seu guarda-roupa nunca tivesse sido muito espectacular.
O seu marido, o meu av, morrera de pneumonia quando eu era criana. Certa vez, quando tinha doze anos, perguntei-lhe se o amara, se o amara de verdade. Fez um ar 
sobressaltado quando a surpreendi com a pergunta, mas aos poucos comeou a sorrir, hesitando um pouco antes de me responder.
- Claro que sim - asseverou no seu sotaque russo. - Ele era muito bom para mini, um homem encantador.
No era bem a resposta que esperava. Queria era saber se se apaixonara loucamente, como uma das princesas das histrias que costumava contar-me.
O meu av nunca me parecera muito garboso e era bastante mais velho do que ela. Das fotografias que vira conclu que se parecia bastante com a minha me, com um 
ar srio e at um pouco severo. Naquela poca no era costume as pessoas sorrirem para as fotografias. Era difcil imaginar o meu av com a minha av. Quando se 
conheceram em 1917, o ano em que ela desembarcou na Amrica vinda da Rssia, o av tinha mais vinte e cinco anos que ela e perdera a mulher alguns anos antes. No 
tinha filhos e no voltara a casar. A av dizia que, quando se conheceram, estava muito sozinho e fora muito bom para ela, embora nunca revelasse mais pormenores. 
A av devia ser linda nessa altura e ele deve ter ficado deslumbrado. Casaram dezasseis meses depois de se conhecerem. A minha me nasceu um ano depois e no tiveram 
mais filhos. O meu av adorava a filha, provavelmente por esta se parecer tanto com ele. Era tudo o que eu sabia e sempre soubera. O que eu desconhecia era o que 
acontecera antes disso, quem era a av Dan enquanto jovem, de onde viera exactamente e porqu. Os pormenores histricos pareciam-me insignificantes quando era criana.
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Sabia que frequentara uma escola de bailado em Sampe-tersburgo e que conhecera o czar, mas a minha me no gostava que me contasse essas coisas. Dizia que isso s 
me encheria a cabea de ideias sobre pessoas e lugares que nunca conheceria e a minha av respeitava os desejos da filha. Falvamos das pessoas que conhecamos em 
Vermont, dos lugares onde tinha estado, do que fazia na escola. Quando amos patinar no lago gelado, ficava sempre com um ar sonhador durante algum tempo e eu percebia 
que estava a pensar na Rssia e nas pessoas que l conhecera. Independentemente do que dissesse, tudo isso fazia ainda parte dela e eu via que essas pessoas lhe 
eram ainda caras, mesmo passados cinquenta anos. Sabia que toda a sua famlia, o pai e os quatro irmos, haviam morrido durante a guerra, combatendo pelo czar. Viera 
para a Amrica, nunca mais vira nenhum deles e refizera a sua vida em Vermont. Mesmo assim, as pessoas que conhecera e amara permaneceram no seu corao, fazendo 
sempre parte de si, uma parte que no podia ser negada, por muito que a escondesse.
Certo dia, quando procurava no sto um dos seus vestidos antigos para usar numa pea da escola, encontrei as suas sapatilhas num ba aberto. Estavam bastante gastas 
e pareciam minsculas na minha mo. Apesar do cetim j coado, no deixavam de ter um aspecto mgico. Mais tarde perguntei-lhe se eram suas.
- Bem - respondeu, surpreendida ao princpio, mas sorrindo depois, ao pensar nelas. - Usei-as na ltima noite em que dancei com a Companhia de Bailado de Sampeters-burgo 
no Teatro Mariinsky. A czarina estava l, bem como as gr-duquesas. - Desta vez esqueceu-se de pr o seu ar culpado enquanto me revelava estas coisas. - Danmos 
O Lago dos Cisnes. Foi um espectculo maravilhoso. Na altura, no sabia que seria o meu ltimo. Nem sei porque guardei as sapatilhas. Tudo se passou h tanto tempo, 
querida...
Com isto fechou a porta s suas memrias e entregou-me uma caneca de chocolate quente com uma montanha de natas batidas enfeitadas com raspas de chocolate e canela.
Queria fazer-lhe mais perguntas sobre o bailado, mas desapareceu durante alguns momentos e regressou com o seu
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bordado enquanto eu fazia os trabalhos de casa na mesa da cozinha. Nessa noite j no tive oportunidade de lhe voltar a perguntar e, por fim, acabei por esquecer 
o assunto. Sabia que danara numa grande companhia de bailado, todos sabamos, mas era difcil imagin-la como prima ballerna. Era a minha av, a av Dan, a nica 
na cidade com o seu prprio par de patins, que usava orgulhosamente com um dos seus vestidos pretos. De cada vez que ia  cidade, em especial ao banco, punha sempre 
um chapu e luvas, os brincos predilectos e o ar de quem ia fazer alguma coisa importante. Mesmo quando me ia buscar  escola no seu carro antigo tinha um ar digno 
e ficava sempre muito feliz por me ver. Era tanto mais fcil ver quem ela era na altura e tanto mais difcil recordar quem fora. Compreendo agora que nunca quis 
que nos recordssemos. Era aquilo em que se tornara: a viva do meu av, a me da minha me, a av que fazia biscoitos russos.
Por vezes, punha-me a imaginar se a av Dan ficava acordada  noite a pensar no seu passado, a recordar o que sentira quando danara O Lago dos Cisnes para a czarina 
e para as filhas. Teria esquecido tudo isso, grata pela vida que levava connosco em Vermont? As suas duas vidas tinham sido com-pletamente diferentes, de tal forma 
que nos permitiu esquecer o seu passado, acreditar que era uma pessoa diferente do que havia sido na Rssia. Deixou-nos acreditar nisso durante os anos que passou 
connosco e ns, em troca, permitimos que se esquecesse tambm, ou formo-la a isso, tornando-a a pessoa que queramos que fosse. Aos meus olhos, ela nunca fora 
jovem. Aos olhos da minha me, nunca fora bela, encantadora e bailarina. Aos olhos do seu marido, nunca fora seno sua. Nem sequer gostava de ouvir falar do seu 
pai e dos irmos, pois faziam parte de um mundo ao qual no queria que ela pertencesse mais. Talvez no quisesse que recordasse o passado.
Foi sua at ao dia em que morreu e no-la deixou, se bem que acabasse por ser mais minha do que da minha me. Elas nunca foram muito chegadas, ao contrrio de ns. 
A av Dan significava tudo para mim, as suas extravagncias fizeram de mim o que sou, foi a sua sagacidade que me encorajou a sair de Vermont. Depois de acabar a 
universidade fui para Nova Iorque, arranjei um emprego na rea da publicidade, casei e
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tive trs filhos. O meu marido  um homem bom, tenho uma vida que adoro e h sete anos que no trabalho. Planeio voltar a faz-lo um dia, quando as crianas forem 
mais velhas e no precisarem tanto de mini, quando j no sentir que devo estar em casa com elas a fa/er biscoitos.
Quando for velha, quero ser como a av Dan. Quero andar de patins na minha cozinha, ir patinar no gelo, como fazia com ela. Quero fazer rir os meus filhos e os meus 
netos e recordar as coisas que fazia por eles. Quero que se lembrem dos biscoitos de Natal em forma de sino, de decorarmos a rvore juntos, do chocolate quente que, 
tal como ela, lhes preparo enquanto fazem os trabalhos de casa. Quero que a minha vida signifique alguma coisa para eles e que o tempo que passamos juntos seja importante. 
Porm, tambm pretendo que saibam quem eu fui, porque vim para aqui, e que amo muito o pai deles.
No existem mistrios na minha vida ou histrias secretas. No posso gabar-me de proezas como as dela, de danar O Lago dos Cisnes enquanto a Rssia imperial se 
encaminhava para uma revoluo. No consigo sequer imaginar como a sua vida ter sido ou o quanto ter deixado para trs quando veio para a Amrica. No sei o que 
ser nunca mais falar sobre isso e perder todas as pessoas que amamos, ou como ser para uma pessoa vinda da Rssia chegar a um local como Vermont. Gostava de saber 
por que motivo a av nunca falou comigo sobre isso. Talvez porque no queramos que fosse Danina Petroskova, a bailarina. Apenas desejvamos que fosse a av Dan, 
a nossa me, a nossa esposa, a nossa av. Isso tornava as coisas mais fceis para ns, no tnhamos de sentir que ramos menos importantes do que a sua vida passada, 
ou do que ela. No precisvamos de conhecer ou sentir a sua dor, o seu sofrimento se, pura e simplesmente, no o conhecssemos. Agora, porm, desejava ter sabido 
mais sobre ela, t-la conhecido nessa altura.
Coloquei o embrulho de lado enquanto fazia os sinos de Natal com Jeff e Matt. Depois, fiz os queques com Katie que conseguiu espalhar a farinha por cima dela e por 
toda a cozinha.
J era tarde quando deitei finalmente as crianas e Jack telefonou de Chicago. Tivera um dia cansativo, mas as reunies
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tinham corrido bem. J me esquecera por completo do embrulho e s quando fui  cozinha buscar qualquer coisa para beber, passava j da meia-noite, voltei a lembrar-me 
dele. Estava ainda ali  minha espera, com um pouco de massa de queque no cordel e p verde e vermelho dos enfeites dos sinos no papel.
Peguei no embrulho, sacudi-lhe a sujidade e sentei-me  mesa da cozinha com ele  frente. Demorei ainda alguns minutos a abri-lo. Fora enviado da casa de repouso 
onde a av Dan passara o ltimo ano de vida. J l tinha ido aps o funeral buscar todos os seus pertences e agradecer tudo o que fizeram por ela. A maior parte 
das suas coisas estava muito gasta e pouco pde ser aproveitado, apenas um molho de fotografias dos midos e alguns livros. Fiquei com uma colectnea de poesia russa 
que a av gostava muito e deixei os outros para as enfermeiras. Tudo o que guardei da av, e que era importante para ela, foi a sua aliana de casamento, o relgio 
de ouro que o meu av lhe oferecera antes de casarem e um par de brincos. A av dissera-me certa vez que o relgio fora o primeiro presente que o meu av lhe dera. 
Nunca fora muito generoso com ela em termos de presentes ou jias, embora nunca lhe deixasse faltar nada. Havia ainda uma coberta de cama em renda que trouxe comigo 
e guardei no meu armrio, mas tudo o resto foi doado, por isso, no podia imaginar o que estaria dentro do embrulho.
O papel escondia uma caixa quadrada grande e quando lhe peguei, constatei que era pesada. Um bilhete colado  tampa afirmava que fora encontrada por cima do guarda--vestidos 
da av. Quando retirei a tampa, o que o interior da caixa me revelou fez-me suster a respirao durante um momento. Estavam exactamente como as recordava, as pontas 
gastas e um pouco coadas, as fitas desbotadas e sem brilho. Eram as sapatilhas de pontas da av, as que eu vira anos antes no seu sto. Eram o ltimo par que usara 
antes de deixar a Rssia. Havia ainda um medalho de ouro com a fotografia de um homem de barba e bigode bem aparados e um ar bastante elegante. Os olhos brilhavam, 
como os da av, e pareciam sorrir para ns, embora na verdade o homem no estivesse a sorrir. Encontrei ainda fotografias de outros homens
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fardados que presumi serem o seu pai e irmos. Um dos rapazes parecia-se incrivelmente com ela. Havia tambm um pequeno retrato da sua me, que me pareceu j ter 
visto, o programa da sua ltima actuao em O Lago dos Cisnes e uma fotografia de um grupo de bailarinas sorridentes. No centro destacava-se uma rapariga muito bela, 
cujos olhos e feies nada mudaram desde ento. Era fcil perceber que era Dani-na. Estava lindssima e obviamente feliz, sorria e todas as restantes raparigas olhavam 
para ela com carinho e admirao.
No fundo da caixa descobri um mao grosso de cartas atadas com uma fita azul j desbotada. Verifiquei que estavam em russo, numa caligrafia simples, elegante e ao 
mesmo tempo masculina. Percebi que a resposta a todas as minhas perguntas se encontrava ali, a revelao dos segredos que ela nunca partilhara depois de deixar a 
sua terra natal. Tantas faces alegres, tantas pessoas que amara e abandonara por uma vida que no poderia ter sido mais diferente.
Peguei nas sapatilhas e acariciei cuidadosamente o cetim, pensando nela. Como fora corajosa, forte e o quanto deixara para trs. Perguntava-me se algumas daquelas 
pessoas estariam ainda vivas, se a av fora igualmente importante para elas, se tambm guardariam fotografias suas. Pus-me a imaginar o homem que escrevera todas 
aquelas cartas, o que teria representado para ela e o que lhe teria acontecido, mas s pela forma cuidadosa como a av atara a fita, pelo facto de ter guardado as 
cartas durante quase um sculo e as ter levado para a casa de repouso, percebi, mesmo sem ser capaz de ler o seu contedo, que aquele homem fora muito importante 
para ela e que a amara profundamente.
A av tivera uma outra vida antes de entrar na minha, nas nossas vidas, marcada pela magia, pelo encanto, pela beleza, e to diferente da que tivera em Vermont. 
Recordei-me do ar austero que o meu av tinha nas fotografias e desejei que aquele homem tivesse trazido alguma felicidade  av, a tivesse amado. A av levara os 
seus segredos consigo para o tmulo e agora deixava-os a mim, com as suas sapatilhas, o programa d'O Lago dos Cisnes e as cartas dele.
Olhei mais uma vez para a fotografia no medalho e percebi instintivamente que as cartas eram dele. Mais uma vez
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era assolada por mil perguntas para as quais no havia resposta. Lembrei-me de mandar traduzir as cartas para saber o que diziam, mas, ao mesmo tempo, senti que 
invadir os segredos que estas continham representava uma espcie de intruso. A av no me tinha dado as cartas, apenas as deixara, porm, sabendo como ramos chegadas, 
esperava que no se importasse. Afinal de contas, ramos almas gmeas. Deixara-me centenas de recordaes dos tempos que passmos juntas, das coisas que fizemos, 
dos contos de fadas que me contava. Talvez no se importasse de partilhar comigo tambm aquela parte da sua vida. Esperava que no. O entusiasmo resultante da descoberta 
das cartas e das fotografias era indomvel. No havia como escapar s verdades que a av escondera toda uma vida.
Para mim, foi sempre velha, sempre minha, sempre a av Dan, mas numa outra poca, num outro local, tivera uma outra vida, marcada pelo bailado, pela felicidade, 
pelo amor, muito antes de entrar na minha, nas nossas vidas. Apenas me deixara alguns vestgios dessa vida, a lembrar-me que tambm fora jovem. Quando finalmente 
compreendi isso, olhei para a jovem bailarina sorridente no centro da fotografia e senti uma lgrima correr-me pela face abaixo ao mesmo tempo que sorria e segurava 
as sapatilhas. Enquanto o velho cetim cor-de--rosa me acariciava a face, olhei para o molho de cartas na esperana de que este me revelasse por fim a sua histria. 
Senti que havia muito para contar.

CAPITULO l
Danina Petroskova nasceu em Moscovo em 1895. O seu pai era oficial do Regimento de Litovsky e os quatro irmos eram tambm militares. Altos, elegantes e muito amigos, 
traziam-lhe chocolates sempre que a visitavam. O mais novo tinha mais doze anos do que Danina. Quando estavam em casa cantavam, brincavam com ela, deixavam-na empoleirar-se 
nas suas costas a fazer de conta que eram os seus cavalos e faziam sempre muito barulho. Danina adorava ser o centro das atenes dos irmos. Era bvio para qualquer 
pessoa que a amavam muito.
O que Danina recordava da me era o seu belo rosto e os modos brandos, um perfume que cheirava a lrios e que cantava para ela adormecer depois de lhe ter contado 
bonitas histrias sobre a sua infncia. Estava sempre a rir e Danina adorava-a. Morreu de febre tifide quando a filha tinha cinco anos e, a partir da, tudo mudou 
na vida da pequena Danina.
O pai no fazia a mnima ideia do que fazer com a filha. No estava preparado para tomar conta de uma criana, especialmente to nova e rapariga. Visto que tanto 
ele como os filhos estavam no exrcito, contratou uma mulher para tomar conta da filha, mas ao fim de dois anos percebeu que a situao no podia continuar daquela 
forma e que tinha de a resolver depressa. Por fim, encontrou o que lhe pareceu ser a soluo perfeita e partiu para Sampetersburgo para tratar dos preparativos. 
Ficou muito bem impressionado com Madame Markova; era uma mulher extraordinria e a escola e companhia de bailado que dirigia proporcionariam a Danina no s um 
lar, como tambm um bom futuro. Se esta provasse ter o talento necessrio, poderia ali viver enquanto pudesse danar. Seria uma vida difcil e que requereria muitos 
sacrifcios, contudo o pai de Danina acreditava que a filha seria capaz. A sua esposa tambm gostava muito de ballet e teria ficado muito contente com a sua deciso. 
Seria muito dispendioso mante-la ali, mas achava que o sacrifcio que teria de fazer seria bem recompensado se, no futuro, a filha se revelasse uma grande
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bailarina, o que considerava muito provvel, pois Danina era uma menina invulgarmente graciosa.
O pai e dois dos irmos acompanharam-na a Sampeters-burgo em Abril, depois de ela ter completado sete anos. Enquanto contemplava a sua nova casa, todo o seu corpo 
tremia. Estava aterrorizada e no queria que a deixassem ali, mas no havia nada que pudesse fazer ou dizer para os impedir. Ainda em Moscovo, suplicara ao pai que 
no a mandasse para a escola de bailado; ele limitara-se a argumentar que era uma oportunidade que mudaria a sua vida, que um dia se tornaria uma grande bailarina 
e ficaria feliz por ter ido para l.
No entanto, no dia fatdico no conseguia pensar na vida que estava a ganhar, apenas no que estava a perder. Manteve --se muito direita, segurando a sua pequena 
mala, enquanto uma senhora j idosa lhes abria a porta. Conduziu-os atravs de um vestbulo escuro e Danina escutou algum a gritar ao longe, o som de msica, vozes, 
e alguma coisa a bater ruidosamente no cho. Todos os sons em seu redor lhe pareceram estranhos e sinistros, as salas que atravessavam escuras e frias. Chegaram 
por fim ao gabinete onde eram aguardados por Madame Markova. Era uma mulher de cabelo escuro, que usava penteado em rolo, rosto plido sem rugas, e olhos azuis que 
pareciam atravessar Danina. Assim que ps os olhos na criana, esta sentiu uma enorme vontade de chorar, mas no se atreveu a tal, pois estava demasiado assustada.
- Bom dia - cumprimentou Madame Markova num tom spero. - Estvamos  tua espera - disse, soando a Danina como o Diabo s portas do Inferno. - Ters de trabalhar 
arduamente se quiseres viver connosco - advertiu enquanto Danina acenava que sim com a cabea, j que o n que tinha na garganta a impedia de falar. - Compreendes 
o que te digo? - Falava de forma muito clara e Danina olhou para ela com o terror que sentia estampado no rosto. - Deixa-me olhar para ti - disse ento, rodeando 
a secretria. Vestia uma saia preta comprida e um pequeno casaco, tambm preto, sobre um maillot. A roupa era exactamente da mesma cor do cabelo. Examinou as pernas 
de Danina, levantou-lhe a saia para as observar melhor e pareceu satisfeita com o que viu. Olhou para o pai de Danina e acenou com a cabea.
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Depois informamo-lo do progresso da menina, coro
nel. Como lhe disse, o bailado no  para qualquer um.
Ela  uma boa menina - observou com carinho, e
ambos os irmos sorriram orgulhosamente.
Agora,  podem  deixar-nos  -  disse   ento  Madame
Markova, percebendo que a criana estava prestes a entrar em
pnico.  O pai e os irmos despediram-se dela. As lgrimas
corriam-lhe pela cara abaixo. Pouco tempo depois, deixaram-
-na sozinha com a mulher que a partir da comandaria a sua
vida. Um profundo silncio instalou-se no gabinete depois de
eles partirem. Nem a professora nem Danina pronunciaram
uma nica palavra e o nico som que se ouvia eram os solu
os reprimidos da criana.
Agora podes no acreditar em mini, minha querida,
mas sers feliz aqui. Um dia, esta ser a nica vida que quere
rs ou conhecers.
Danina olhou para ela com desconfiana. Madame Markova levantou-se, deu a volta  secretria e estendeu a Danina a sua longa e graciosa mo.
-        Vem comigo, vamos conhecer os teus futuros amigos.
No era a primeira vez que Madame Markova acolhia
crianas to novas. Na verdade, at preferia que tal acontecesse, pois, se fossem de facto dotadas, essa era a nica maneira de as treinar convenientemente, de fazer 
com que o ballet fosse a sua nica vida, o seu nico mundo, a nica coisa a que aspirariam. Para alm disso, existia qualquer coisa na criana que a intrigava. Havia 
nela algo de resplandecente e de mgico e, enquanto percorriam os corredores longos e frios de mos dadas, a professora sorria de satisfao sem que Danina disso 
se apercebesse.
Pararam em cada aula durante breves momentos, comeando pelos que j entravam em espectculos. Madame Markova queria que ela visse aquilo por que teria de lutar, 
a emoo da forma como danavam, a perfeio do estilo e a disciplina necessria para a atingir. Da, passaram para os bailarinos mais novos, j artistas dignos 
de honra e que a podiam inspirar. Por fim, pararam na aula com a qual ela iria exercitar-se e danar. Ao observ-los, Danina nem conseguia imaginar como seria algum 
dia capaz de danar como eles. Ou-
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viu-se ento uma pancada seca que fez Danina estremecer de medo. Madame Markova acabava de bater no cho com a bengala que transportava para esse fim.
A professora fez sinal  classe para parar e Madame Markova apresentou Danina, explicando que viera de Moscovo para viver ali com eles. Seria agora a aluna mais 
nova e provavelmente a mais infantil, j que os outros estavam habituados a ser regidos por uma disciplina severa que os fazia parecer mais velhos. O aluno mais 
novo at ento era um rapaz da Ucrnia que tinha nove anos. Havia algumas raparigas com quase dez e uma com onze. J danavam h dois anos e Danina teria de trabalhar 
muito para conseguir acompanh-los.  medida que o resto das crianas sorria para ela e se apresentava, uma a uma, Danina comeou a sorrir timidamente. Era como 
ter muitas irms em vez de apenas irmos, pensou. Quando, aps o almoo, a levaram para ver o seu lugar no dormitrio, j se sentia integrada.  noite, quando se 
foi deitar na sua cama pequena, dura e estreita, adormeceu a pensar no pai e nos irmos. Tinha muitas saudades deles, mas a rapariga da cama ao lado, ao ouvi-la 
chorar, levantou-se e foi consol-la e, em pouco tempo, havia mais raparigas sentadas em seu redor. Contaram-lhe vrias histrias de bailados, das maravilhosas coisas 
que partilhavam, da emoo de danar Copplia e O Lago dos Cisnes para o czar e a czarina. O que contavam era to emocionante que Danina em breve esqueceu as suas 
tristezas e adormeceu.
No dia seguinte, acordaram-na s cinco da manh e deram-lhe o seu primeiro maillot e um par de sapatilhas. Tomavam o pequeno-almoo todos os dias s cinco e meia 
e, s seis, estavam j na sala de aula a fazer exerccios de aquecimento. Por volta da hora do almoo, Danina sentia-se j completamente integrada. Madame Markova 
viera repetidas vezes ver como ela estava e todos os dias observava o seu progresso, pois queria certificar-se de que aprendia bem a tcnica antes de comear sequer 
a danar. Percebeu de imediato que a pequena menina receosa que viera de Moscovo era uma criana extraordinariamente graciosa e com um corpo perfeito para ser bailarina. 
Estava talhada para a vida que o pai escolhera para ela e, em pouco tempo, tornou-se claro para
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todos os professores que Danina Petroskova nascera para ser bailarina.
Tal corno Madanie Markova prometera no primeiro dia, a vida de Danina na escola era muito rigorosa, exigindo trabalho rduo e sacrifcios maiores a cada dia que 
passava. Nos primeiros trs anos, a sua determinao nunca fraquejou ou diminuiu. Aos dez anos vivia apenas para danar e lutava constantemente pela perfeio. Os 
seus dias contavam catorze horas de trabalho passadas quase exclusivamente na sala de aulas. Parecia nunca se cansar e sempre determinada em ultrapassar o que aprendera. 
Madanie Markova estava muito satisfeita com ela e no se cansava de o repetir ao seu pai nas visitas regulares que este lhe fazia. Tambm ele ficava sempre muito 
contente com os progressos da filha e feliz por ter tomado a deciso certa.
Quando veio assistir  sua primeira grande actuao em palco, tinha ela catorze anos, Danina interpretou o papel da rapariga que dana a mazurca com Franz, no bailado 
Coppclia. Por esta altura, fazia j parte do corpo de bailado, no sendo mais uma mera aluna, e isso agradava bastante ao pai. Foi uma actuao maravilhosa e Danina 
esteve magnfica. A sua preciso, elegncia, estilo e talento no passaram despercebidos a ningum. Havia lgrimas nos olhos do pai quando a viu danar e nos de 
Danina quando o abraou nos bastidores aps o espectculo. Fora a noite mais bela da sua vida e tudo o que queria fazer era agradecer ao pai por a ter trazido para 
a escola de bailado. O ballet era a nica vida que conhecia e a nica que desejava.
Danou o papel da Fada dos Lilases em A Bela Adormecida um ano mais tarde e, aos dezasseis anos, fez um desempenho notvel em La Bayadre. Aos dezassete era j prima 
ballerina e a sua actuao em O Lago dos Cisnes foi de tal forma deslumbrante, que ningum a esqueceu. Madanie Markova sabia que, em alguns aspectos, faltava a Danina 
uma certa maturidade, pois pouco conhecia da vida ou do mundo. No entanto, a sua tcnica e o seu estilo eram to extraordinrios que a distanciavam das suas colegas.
Por essa altura, a czarina tinha j reparado nela, bem como as suas filhas. Com dezanove anos, em Abril de 1914,
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Danina danou numa actuao privada para o czar no Palcio de Inverno. Em Maio, foi mais uma vez convidada a danar para a famlia imperial na sua residncia de 
Peterhof e a jantar com eles juntamente com Madame Markova e mais algumas estrelas do corpo de bailado. Foi uma festa e uma homenagem com um significado maior para 
si do que para qualquer outro dos presentes. Ser reconhecido pelo czar e pela czarina era a maior honra, o nico tributo que ansiara, por isso, colocou uma pequena 
fotografia da famlia imperial ao lado da sua cama. Gostara especialmente de conhecer a gr-duquesa Ol-ga, alguns meses mais nova do que ela, e o czarviche, que 
tinha apenas nove anos, mas que achou Danina muito bela, tal como toda a gente que a conhecia.
 medida que atingia a maturidade, Danina adquiriu uma graciosidade rara, uma docilidade e porte, alguma malcia e um esplndido sentido de humor. No era pois de 
admirar que o czarviche a adorasse. Era um rapaz muito delicado e estivera doente durante toda a infncia. Apesar da sua fragilidade, Danina brincava com ele e 
tratava-o como uma pessoa normal. Era uma criana sensata com uma grande nobreza de sentimentos e falava constantemente de Danina. Ela parecia--Ihe to forte, to 
saudvel.
Danina prometeu a Alexei que o deixaria assistir a uma das suas aulas, se a sua sade e Madame Markova o permitissem, embora no lhe passasse pela cabea que recusasse 
uma visita de tal importncia. Devido  hemofilia de que sofria, havia sempre dois mdicos perto dele para se certificarem de que no lhe acontecia nada. Tinha um 
ar to doente, to frgil, e, ao mesmo tempo, to caloroso, afvel e afectuoso. A czarina ficara muito enternecida ao ver a dedicao que Danina demonstrava pelo 
filho.
Em consequncia, Madame Markova recebeu um convite da czarina para que viesse passar uma semana a Livadia, a residncia de Vero da famlia imperial na Crimeia, 
e trouxesse Danina com ela. Era uma honra enorme, mas, ainda assim, Danina sentiu alguma relutncia em aceitar o convite. No suportava a ideia de abandonar as aulas 
e os ensaios por sete dias. A sua vida, monstica, severa, esgotante, austera e brutalmente exigente, reclamava tudo dela e ela concedia-lhe tu-
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do o que tinha, por isso, h muito que excedera as expectativas de Madame Markova. Esta levou cerca de um ms a convenc-la a aceitar o convite e, mesmo assim, s 
porque lhe fez ver que seria uma afronta para a czarina no aceitar.
Foram as suas primeiras frias, a primeira vez na vida, desde os sete anos de idade, em que os seus dias no comeavam s cinco da manh com exerccios de aquecimento, 
aulas s seis e ensaios s onze, em que no esforava o corpo at ao limite durante catorze horas. Foi a primeira vez que Danina se atreveu a brincar e adorou.
Parecia quase infantil aos olhos de Madame Markova. Brincava com as filhas do czar no mar, rindo e chapinhando com elas. Era sempre muito meiga com Alexei, demonstrando 
por ele um afecto muito maternal, que comovia a czarina. Todas as crianas ficaram espantadas ao perceber que Danina no sabia nadar. A vida austera e disciplinada 
que levava nunca lhe deixara tempo livre para aprender mais nada a no ser danar.
No quinto dia de frias, Alexei adoeceu de novo na sequncia de uma pequena pancada que recebera na perna quando se levantava da mesa de jantar, ficando confinado 
 cama durante os dois dias que se seguiram. Danina fazia-lhe companhia, contando-lhe histrias da sua infncia com o pai e os irmos, da vida na escola e dos restantes 
bailarinos. Ele escutava-a durante horas at adormecer de mos dadas com ela, que depois saa do quarto p ante p para se juntar aos outros. Sentia muita pena dele, 
lamentando as limitaes que a doena impunha  sua vida. Era to diferente dos seus irmos ou dos rapazes com quem treinava na escola, vigorosos e saudveis.
Alexei estava ainda fraco, mas sentindo-se melhor, quando Danina e Madame Markova deixaram Livadia em meados de Julho e embarcaram no comboio imperial de regresso 
a Sampetersburgo. Haviam sido umas frias maravilhosas e Danina jamais esqueceria ter brincado com a famlia imperial como se fossem amigos de longa data, a beleza 
da paisagem e Alexei a tentar ensin-la a nadar sentado numa cadeira de jardim.
- No, no  assim, minha pateta... Assim... - gritava enquanto lhe demonstrava as braadas e ela tentava pr em
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prtica os ensinamentos. Depois, ambos riam descontrolada-mente quando Danina no conseguia e se punha a fingir que se afogava.
Alexei escreveu-lhe certa vez uni pequeno bilhete declarando que sentia a sua falta. Era bvio que, embora tivesse apenas nove anos, estava apaixonado por Danina. 
Divertida com a descoberta, a me confessou-o a uma amiga. O filho estava a ter a sua primeira paixoneta, aos nove anos, por uma bailarina que era muito bela e uma 
pessoa extraordinria. Duas semanas aps a sua estada idlica em Livadia, o mundo transformava-se num turbilho e os tristes eventos de Sarajevo catapultaram finalmente 
o pas para a guerra. No dia um de Agosto a Alemanha declarou guerra  Rssia. Ningum acreditava que o conflito durasse muito tempo, presumindo que as hostilidades 
terminassem com a batalha de Tannenberg, no final de Agosto. Contrariamente ao que se previa, a situao piorou.
Apesar da guerra, Danina danou Giselle, Copplia e La Bayadre mais uma vez naquele ano. As suas capacidades atingiam um ponto alto e nunca havia o mnimo elemento 
de desiluso nas suas actuaes, eram tudo o que deviam ser e mais. O que Danina levava para o palco era precisamente o que Madame Markova pressentira anos antes. 
Para alm de tudo, possua a dedicao e resoluo necessrias. Danina no se permitia distraces e no demonstrava qualquer interesse por namoros ou pelo mundo 
fora das paredes da escola. Vivia, respirava, trabalhava e existia apenas para o ballet, ao contrrio de algumas das suas colegas que Madame Markova olhava com desdm. 
Apesar do talento e trabalho rduo, deixavam-se demasiadas vezes distrair ou encantar por homens e por promessas de amor. Para Danina, o ballet era o que impulsionava 
a sua vida, o que a fazia viver, era a verdadeira essncia da sua alma. No havia nada mais para alm do ballet, era a nica coisa para a qual vivia. Em resultado, 
era uma bailarina perfeita.
O espectculo da vspera de Natal desse mesmo ano foi magnfico. O pai e os irmos estavam na primeira fila e o czar e a czarina tambm no faltaram. Todos ficaram 
deslumbrados com a forma como danou; fora, sem dvida, a sua me-
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lhor actuao de sempre. No final, foi cumpriment-los ao camarote imperial e perguntou imediatamente por Alexei. Deu  czarina uma das rosas que lhe haviam oferecido 
com a recomendao de que a levasse ao filho. Quando regressou aos bastidores, Madame Markova percebeu que estava mais cansada que o habitual. Fora uma noite longa 
e estafante e, se bem que Danina no o admitisse, sentia-se exausta.
No dia seguinte, levantou-se como habitualmente s cinco da manh, embora fosse dia de Natal, e s cinco e meia estava j a fazer exerccios de aquecimento. As aulas 
s comeariam ao meio-dia, mas no concebia desperdiar uma manh inteira. Temia perder alguma das suas capacidades, se no treinasse meio dia, ou um minuto que 
fosse, mesmo no dia de Natal.
Madame Markova deu por ela s sete da manh e, depois de observ-la durante algum tempo, achou que os seus exerccios pareciam um pouco estranhos. Havia em Danina 
uma rigidez e deselegncia pouco caractersticas. Depois, muito devagar, como que em cmara lenta, comeou a resvalar em direco ao solo. Os seus movimentos eram 
to graciosos que a sua queda parecia ensaiada e absolutamente perfeita. S depois de permanecer cada durante o que lhe pareceu uma eternidade  que Madame Markova 
e duas outras alunas perceberam que estava inconsciente. Correram para ela imediatamente e ajoelharam-se ao seu lado no cho. As mos de Madame Markova tremiam quando 
as encostou s faces e costas da sua pupila e sentiu o calor ardente que o seu corpo emanava. Quando Danina abriu os olhos, a sua mentora percebeu que estavam febris 
e vtreos e que durante a noite fora consumida por alguma doena misteriosa.
Danina, porque te levantaste da cama, se estavas to
doente? - lamentou Madame Markova, fora de si. Todos ti
nham j ouvido falar da gripe que grassava por Moscovo, mas
at ento ainda no se registara qualquer caso em Sampeters-
burgo. - No devias ter vindo danar - repreendeu-a cari
nhosamente e temendo o pior. Parecia que Danina nem se
quer a escutava.
Tinha de ser... Tinha de ser - sussurrou Danina. Per
der uma aula, um ensaio, ou mesmo um nico exerccio, era
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mais do que podia suportar. - Tenho de me levantar... - disse, comeando depois a balbuciar. Um dos jovens rapazes que costumava danar com ela ergueu-a nos braos 
e, sob a direco de Madame Markova, levou-a para a cama. Deixara o grande dormitrio no ano anterior e dormia agora num quarto com apenas seis camas. Era to espartano 
e gelado como o dormitrio onde vivera durante onze anos, mas sempre tinha um pouco mais de privacidade. As restantes bailarinas vieram todas acotovelar-se para 
a entrada do quarto para verem como Danina estava. A notcia do seu desmaio espalhara--se j por toda a escola.
"Ela est bem?", "O que aconteceu?", "A Danina est to plida, madame", "O que ir acontecer", "Temos de chamar um mdico", diziam as colegas. A prpria Danina 
estava demasiado cansada para explicar, demasiado confusa para reconhecer algum. A nica coisa que conseguia vislumbrar era a figura esguia e alta de Madame Markova, 
que amava como se fosse sua me, de p ao fundo da cama. Estava, porm, muito cansada para ouvir o que lhe dizia.
Madame Markova mandou toda a gente sair do quarto, receando que mais algum fosse contagiado, e pediu a uma das professoras que trouxesse ch. Quando levou a chvena 
aos lbios de Danina, esta nem sequer conseguiu sorver o ch. Estava demasiado doente e fraca e quando tentou sent-la, segurando-a nos seus braos, Danina quase 
desmaiou. Nunca na vida se sentira to doente. Nessa tarde, quando o mdico chegou, j sabia que iria morrer, e nem sequer se importava. Doa-lhe cada centmetro 
do corpo e parecia-lhe que os braos e pernas lhe haviam sido cortados  machadada. Cada toque, cada movimento, cada vez que a sua pele roava contra os lenis 
speros, sentia o corpo a arder. A nica coisa em que pensava ali deitada entre o delrio e a dor era que, se no regressasse s aulas e aos ensaios rapidamente, 
morreria.
O mdico confirmou os receios iniciais de Madame Markova e pouco fez para a acalmar. Era, de facto, gripe, e o mdico admitiu que nada poderia fazer pela bailarina. 
Havia pessoas a morrer s centenas em Moscovo. Madame Markova chorava ao ouvir as duras palavras do mdico. Tentou incentivar Danina a ser forte, mas esta comeara 
a sentir que no
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seria capaz de ganhar aquela batalha e isso aterrorizava ainda mais a sua mentora.
Tenho o mesmo que a mam, tenho febre tifide? -
murmurou, demasiado fraca para falar alto ou esticar o brao
e tocar em Madame Markova, ali mesmo ao seu lado.
Claro que no, querida. Isto no  nada - mentiu. -
Tens trabalhado de mais,  s isso. Tens de descansar durante
alguns dias e depois ficars boa.
As palavras de Madame Markova no enganavam ningum, e menos ainda Danina que, mesmo delirante, conseguia aperceber-se da situao desesperada em que se encontrava.
Estou a morrer - disse serenamente nessa noite e com
tal convico que a professora que lhe fazia companhia saiu
do quarto a correr para ir chamar Madame Markova. Ambas
as mulheres choravam quando entraram no quarto; Madame
Markova secou as lgrimas antes de se sentar ao lado de Dani
na. Levou um copo de gua aos lbios dela, mas esta nem os
conseguiu abrir. No tinha nem vontade, nem fora para be
ber. A febre continuava altssima, os olhos vidrados.
Estou a morrer, no ? - murmurou para a sua men
tora
No o permitirei - disse Madame Markova. - Ainda
no danaste Raimonda e eu planeava que isso acontecesse este
ano. Seria uma pena morreres sem sequer teres tentado. -
Danina tentou sorrir, embora no conseguisse. Sentia-se de
masiado doente para responder.
No posso faltar aos ensaios amanh - pressagiou Da
nina algum tempo depois enquanto Madame Markova lhe fa
zia companhia. Era como se sentisse que, se no danasse,
morreria.  O  ballet era o sangue que corria nas suas veias.
O mdico regressou na manh seguinte, aplicou vrios cataplasmas e deu-lhe algumas gotas de um lquido azedo para beber. No entanto, a situao parecia no se alterar. 
No final da tarde, Danina estava muito pior e  noite estava completa-mente delirante, gritando coisas sem sentido, murmurando entre dentes e rindo de pessoas que 
imaginava ver ou de coisas que s ela ouvia. Foi uma noite interminvel para toda a gente, e de manh Danina parecia devastada. A febre estava
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to alta que era difcil imaginar que tivesse sobrevivido tanto tempo e impossvel acreditar que no a matasse.
-        Temos de fazer alguma coisa - disse Madame Marko-
va, visivelmente perturbada. O mdico insistira que no havia
mais nada que pudesse fazer, mas talvez outro mdico se lem
brasse de tentar outra coisa. Num acto desesperado, Madame
Markova enviou nessa mesma tarde um bilhete  czarina ex
plicando-lhe a situao e perguntando se no teria nenhuma
sugesto ou saberia de algum que pudesse ajudar Danina.
Fora montado um hospital numa parte do Palcio de Catarina
em Tsarskoie Selo, no qual a czarina e as gr-duquesas trata
vam dos soldados feridos. Talvez houvesse a algum que pu
desse ter alguma ideia para salvar Danina. Madame Markova
estava disposta a tentar fosse o que fosse para salvar a sua pu
pila. Algumas pessoas tinham conseguido sobreviver  gripe
em Moscovo, todavia tal parecia ser mais uma questo de sor
te do que algo mais cientfico.
A czarina no perdeu tempo a escrever uma resposta e enviou imediatamente o mais novo dos dois mdicos que cuidavam do seu filho. O mais velho, o venervel Dr. Botkin, 
fora tambm acometido por uma ligeira gripe, mas o Dr. Nikolai Obrajensky, que Danina conhecera naquele Vero em Livadia, estava  porta da escola de ballet a perguntar 
por Madame Markova muito antes da hora do jantar. Ficou muito aliviada ao v-lo, murmurando qualquer coisa sobre a generosidade da czarina enquanto o cumprimentava. 
Estava ainda to preocupada com o estado de Danina, que nem reparou nas extraordinrias semelhanas entre o mdico e o prprio czar.
-        Como est ela? - perguntou o mdico. Era fcil per
ceber pela expresso de Madame Markova que a jovem baila
rina no estava melhor. Nem mesmo ele, tendo j visto vrios
casos de  gripe no hospital,  esperava encontrar Danina to
doente, to esgotada pela doena que a consumia h j dois
dias. Estava desidratada, delirante e, quando lhe mediu a tem
peratura, teve de repetir a operao para acreditar no que o
termmetro indicava. Depois de a ter examinado cuidadosa
mente, as suas esperanas que sobrevivesse eram escassas. Vol
tou-se  ento  para  Madame  Markova  com uma  expresso
sombria:
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-J deve adivinhar o que lhe vou dizer, no ? - disse num tom complacente. Via nos olhos de Madame Markova o quanto amava Danina. Era como uma filha para ela.
Por favor... No vou suportar tal coisa... - declarou,
enterrando a cara nas rnos, demasiado exausta para aguentar
o golpe que estava prestes a sofrer. - Ela  to jovem, to ta
lentosa, s tem dezanove anos... No pode morrer... No po
de deixar que isso acontea - disse furiosamente, olhando de
novo para o mdico, desejando ler nos seus olhos o que as
palavras no lhe concediam: esperana, j que no lhe podiam
garantir certezas.
No posso fazer nada por ela - declarou com sinceri
dade. - Nem sequer aguentaria a viagem at ao hospital.
Talvez, se resistir mais alguns dias, possamos lev-la - acres
centou numa tentativa de animar Madame Markova, mas sa
bia que as hipteses de isso acontecer eram quase nulas e ela
tambm. - O que podemos fazer  tentar mante-la fresca
com compressas molhadas em gua fria para fazer baixar a fe
bre e obrig-la a beber o mximo que conseguir. O resto est
nas mos de Deus, tnadame. Talvez Ele precise mais dela do
que ns. - O seu tom era amvel, porm no podia mentir.
Ele prprio se admirava que Danina tivesse resistido at que
le momento. Sabia de pessoas que morriam no primeiro dia
em que a gripe se manifestava e Danina j ia no segundo.
Faa o que puder, mas lembre-se de que no poder
operar milagres. Agora, s nos resta rezar e esperar que Deus
nos oua - acrescentou o Dr. Obrajensky melancolicamen
te. No acreditava que Danina sobrevivesse.
-        Compreendo - anuiu Madame Markova.
Sentou-se perto de Danina de novo e voltou a medir-lhe
a temperatura. Subira um pouco, mas Madame Markova estava j a aplicar-lhe as compressas frias. Eram os alunos que lhas traziam, embora no permitisse que entrassem 
no quarto com medo que Danina os contagiasse. As cinco raparigas que ocupavam o quarto de Danina tinham sido mudadas para o dormitrio principal.
-        Como est ela agora? - inquiriu Madame Markova
uma hora depois de estar a aplicar as compressas no peito,
braos e testa de Danina.  Tremia constantemente e estava
branca como os lenis em que repousava.
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Est mais ou menos na mesma - respondeu o mdico
aps a ter examinado. No queria confessar a Madame Mar-
kova que, na realidade, at lhe parecia um pouco pior. -
No melhorar assim to depressa. - Se  que alguma vez
melhoraria, pensou o mdico. Ficou deslumbrado com a for
mosura de Danina ali deitada e inanimada  sua frente. Era de
uma beleza rara, as suas feies muito delicadas, o corpo ele
gante e gracioso.  Os longos cabelos escuros espalhavam-se
por toda a almofada, o seu semblante era o de algum s por
tas da morte. O mdico tinha agora a certeza de que Danina
no sobreviveria at ao dia seguinte.
No  h  mais  nada que possamos fazer? - inquiriu
Madame Markova, desesperada.
Reze - disse com convico. - J chamou os pais
dela?
S tem o pai e quatro irmos. Pelo que ela me contou,
foram enviados para a frente.
A guerra rebentara alguns meses antes e o regimento a que o pai e os irmos pertenciam fora um dos primeiros a ser enviado para combater. Danina sentia muito orgulho 
nisso e mencionava-o frequentemente.
Ento, no h mais nada que possa fazer. Temos de es
perar e ver o que acontece. - Olhou depois para o relgio.
Estava com Danina h j trs horas.  Tinha  de regressar a
Tsarskoie Selo para examinar Alexei e ainda demoraria uma
hora a chegar. - Voltarei de manh - prometeu, embora
temesse que por essa altura Deus j tivesse tomado conta do as
sunto. - Mande-me chamar, se achar que precisa de mini. -
Deu-lhe ento as indicaes para sua casa, se bem que, quan
do regressasse talvez fosse j tarde de mais para Danina. Vivia
para l de Tsarskoie Selo com a mulher e dois filhos. Tinha
apenas trinta e nove anos, mas era extremamente responsvel,
competente e bondoso, razes pelas quais estava encarregue
de velar pela sade do czarviche. Parecia-se muito com o
czar, tinha as mesmas feies distintas, a mesma altura e at
usava a barba cortada da mesma forma, embora o cabelo fosse
mais escuro, quase da mesma cor do de Danina.
Obrigada por ter vindo, doutor Obrajensky - disse
Madame Markova enquanto o acompanhava  porta. O per-
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curso at  porta principal era longo e afastava-a de Danina, todavia, percorrer os corredores frescos era um alvio e, ao abrir a pesada porta, a lufada de ar frio 
que entrou surpreendeu-a e reanimou-a ao mesmo tempo.
Gostava de poder fazer mais alguma coisa por ela e por
si... - acrescentou o mdico. - Vejo que a situao  muito
dolorosa.
Ela  como uma filha para mini - balbuciou Madame
Markova com os olhos cheios de lgrimas. O mdico tocou-
-Ihe ento no brao para a encorajar.  Sentia-se totalmente
impotente.
Talvez Deus seja misericordioso e decida poup-la -
opinou o Dr.  Obrajensky. Madame Markova s conseguiu
assentir com a cabea, a emoo impedia-a de proferir uma
nica palavra. - Voltarei amanh de manh bem cedo.
Ela comea os aquecimentos s cinco da manh -
disse Madame Markova, como se isso fosse ainda relevante.
Ambos sabiam que no.
Ela trabalha muito, no ?  uma bailarina extraordi
nria - elogiou, embora no acreditasse que a voltasse a ver
danar.
Alguma vez a viu danar? - inquiriu Madame Mar
kova.
Apenas uma vez, em Giselle. Foi um espectculo mara
vilhoso - respondeu. Era fcil perceber como aquele assunto
era difcil para Madame Markova.
 ainda melhor em O Lago dos Cisnes e A Bela Ador
mecida - acrescentou com um sorriso triste.
Estou ansioso por ver - disse gentilmente enquanto
se despedia de Madame Markova que, depois de fechar a porta,
se encaminhou a passos largos de volta ao quarto de Danina.
Foi uma noite inesquecvel de tristeza e desespero para Madame Markova, e de febre, delrio e terror para Danina. Por fim, quando a manh despontou, Danina parecia 
j no pertencer ao mundo dos vivos. A sua mentora continuava  sua cabeceira, exausta, sem se atrever a deix-la nem por instantes. O mdico regressou s cinco 
da manh.
-        Obrigada por ter vindo to cedo - sussurrou. A at
mosfera era j de perda e tristeza. At Madame Markova re-
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conhecia agora que Danina no conseguiria ganhar aquela batalha.  Estava inconsciente desde  a manh do  dia anterior.
Estive toda a noite preocupado com ela - admitiu o
mdico. Percebia pela cara de Madame Markova que a noite
fora longa. Danina quase no respirava. Tomou-lhe o pulso,
mediu-lhe a temperatura e ficou surpreendido ao descobrir
que estava um pouco mais baixa, embora o pulso estivesse
fraco e irregular.
Est a lutar bravamente.  uma sorte ser jovem e sau
dvel.
Porm, mesmo os mais jovens estavam a morrer aos milhares em Moscovo, em especial as crianas.
Ela ingeriu alguma gua? - inquiriu o mdico.
H vrias horas que no - confessou Madame Marko
va. - No consigo faz-la engolir e tenho medo que sufoque.
O mdico concordou. No havia mesmo mais nada que pudessem fazer, mas, ainda assim, organizara o seu dia de modo a que pudesse ficar na escola de ballet durante 
vrias horas. O seu colega, o Dr. Botkin, melhorara o suficiente para ser capaz de olhar por Alexei, se fosse necessrio. O Dr. Obra-jensky queria estar com Danina 
caso esta morresse, quanto mais no fosse para consolar a sua mentora.
Ficaram sentados silenciosamente lado a lado durante horas. O mdico ia observando Danina e, aps algum tempo, sugeriu a Madame Markova que aproveitasse para ir 
descansar, mas ela recusava-se a abandonar a sua amada bailarina.
Era j meio-dia quando Danina emitiu um som angustiado e se agitou um pouco. Parecia estar em sofrimento; contudo, quando o mdico a examinou mais uma vez, no notou 
qualquer alterao no seu estado. Apenas se admirava como conseguira resistir tanto tempo. Era uma verdadeira homenagem  sua juventude,  sua fora e  sua condio 
fsica. At ento, mais ningum da escola fora contagiado, s Danina.
s quatro da tarde, o Dr. Obrajensky continuava ali, no querendo ir-se embora antes de tudo terminar. Madame Markova acabara por se deixar dormir sentada na cadeira. 
Danina comeou a ficar agitada, gemendo e mexendo-se desconforta-velmente, mas Madame Markova estava demasiado exausta para a ouvir. O mdico examinou-a e verificou 
que o seu co-
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rao estava fraco e irregular e que, para alm disso, evidenciava dificuldades em respirar. Tinha a certeza de que era um sinal de que o fim estava prximo. Eram 
os sintomas que esperava. Desejava poder minimizar o seu sofrimento, embora no houvesse nada que pudesse fazer, a no ser estar ali. Segurou-lhe na mo, depois 
de lhe tomar o pulso mais uma vez, e acariciou-lha suavemente enquanto observava o seu belo rosto, to doente e to atormentado. Era penoso olhar para ela e no 
poder fazer nada para a salvar. Queria fazer com que Danina desejasse viver e acariciou a sua testa ao de leve. Ela agitou-se de novo e balbuciou qualquer coisa. 
Parecia estar a falar com um amigo ou com algum dos seus irmos. Depois, disse uma nica palavra, abriu os olhos e olhou para o mdico. Era algo que ele presenciara 
centenas de vezes, era uma ltima centelha de vida antes do fim. Ainda com os olhos bem abertos, Danina proferiu:
Mam, estou a ver-te.
Est tudo bem, Danina, eu estou aqui. Daqui a pouco
tudo ter terminado.
Quem  voc? - perguntou Danina com uma voz
rouca e rude, como se conseguisse v-lo claramente. O seu
delrio fazia-a ver algum, mas era muito improvvel que fos
se o mdico quem vislumbrava.
Sou o seu mdico - respondeu. - Estou aqui para a
ajudar.
Ah... - retorquiu, fechando de novo os olhos e recli
nando a cabea na almofada. - Vou ver a minha me.
O mdico recordou-se do que Madame Markova dissera sobre Danina j s ter o pai e os irmos e entendeu o que ela queria dizer, mas no a deixou continuar.
No quero que faa isso - exclamou com firmeza. -
Quero  que  fique  aqui  comigo.  Precisamos  de si,  Danina.
No, tenho de ir... - asseverou, ainda com os olhos
fechados e voltando a cabea para o outro lado. - Vou chegar
atrasada s aulas e Madame Markova vai zangar-se comigo.
Eram as nicas frases que pronunciara em dois dias e era bvio que Danina queria abandon-los, ou sabia que teria de o fazer.
-        Tem de ficar aqui para poder ir s aulas ou Madame
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Markova e eu ficaremos muito zangados. Abra os olhos, Danina... Abra os olhos e veja-me!
Para grande surpresa do Dr. Obrajensky, Danina abriu-os e olhou directamente para ele.
Quem  o senhor? - perguntou de novo, com uma
voz muito fraca. Desta vez, o mdico tinha a certeza de que
ela conseguia v-lo. Encostou a palma da mo contra a sua
testa e, pela primeira vez em dois dias, verificou que estava
bastante mais fresca.
Sou o Nikolai Obrajensky, o seu mdico. Foi a czarina
que me enviou para cuidar de si.
Ela acenou com a cabea e fechou de novo os olhos durante um instante. Depois, abriu-os e sussurrou-lhe:
-        Eu vi-o com o Alexei no Vero passado, em Livadia.
Recordava-se. Era sinal que ganhara a batalha. Havia ainda um longo caminho a percorrer, mas, incrivelmente, parecia que o feitio se quebrara. O mdico queria gritar 
de alegria, porm considerou que seria melhor no comemorar antes do tempo. Podia ser ainda a tal ltima centelha de vida antes do final. No confiava por completo 
no que os seus olhos acabavam de testemunhar.
Ensin-la-ei a nadar este Vero, se ficar aqui - brin
cou o mdico, lembrando-se de como se haviam divertido.
Danina tentou esboar um sorriso, mas estava ainda demasia
do doente para conseguir fazer algo mais que olhar para ele.
Tenho de danar - disse, soando preocupada. - No
tenho tempo para aprender a nadar.
Claro que tem.   Ter de descansar durante bastante
tempo.
Ela abriu bem os olhos enquanto o ouvia e Nikolai sentiu-se novamente encorajado. Danina estava bem consciente do que ele lhe dizia.
Amanh tenho de ir s aulas.
Acho que ainda devia ir esta tarde - troou, e desta vez
ela sorriu, embora, na realidade, no passasse de um esgar. -
Est a ficar muito preguiosa - continuou o mdico, sorrin
do e sentindo-se como se tivesse ganho a maior das batalhas.
No tivera a menor esperana de vencer. H uma hora atrs,
Danina parecia morta e agora estava ali, consciente e a falar.
34

Acho que est a ser muito pateta - murmurou. -
Hoje no posso ir s aulas.
Porque no?
No tenho pernas - disse, preocupada. - Acho que
ca, no as sinto.
O mdico assustou-se e deslizou a mo por baixo dos lenis para lhe tocar nas pernas. Perguntou-lhe se sentia alguma coisa. Sentia tudo, estava apenas fraca de 
mais para as mexer.
-        Est apenas debilitada, Danina - assegurou. - No se
preocupe que vai ficar boa.
O Dr. Obrajensky tambm sabia que se de facto ela sobrevivesse, o que parecia possvel, embora no estivesse ainda totalmente fora de perigo, a sua convalescena 
levaria meses e Danina teria de ser tratada com muito cuidado para que a recuperao fosse completa.
Vai ter de se portar muito bem, dormir muito, alimen
tar-se como deve ser e beber muitos lquidos - recomendou
e,  como  que para lho provar,  ofereceu-lhe um pouco de
gua. Ela bebeu apenas um gole, mas j era qualquer coisa.
Quando pousou o copo na mesa-de-cabeceira, Madame Mar-
kova acordou sobressaltada, temendo que alguma coisa terr
vel tivesse acontecido enquanto dormia. Ao invs, viu Dani
na, ainda fraca, porm viva, a sorrir para o mdico.
Meu Deus,  um milagre - exclamou, tentando re
primir lgrimas de alvio e exausto. Estava quase to esgotada
quanto Danina e devastada pelo terror de quase ter perdido a
sua bailarina preferida. - Minha filha, sentes-te melhor?
Um pouco - asseverou, e depois, olhando de novo
para o mdico, proferiu: - Acho  que me salvou a vida.
No, no fui eu. Bem gostaria de receber os louros
por tal vitria, mas no fiz nada. Limitei-me a ficar aqui sen
tado.  Madame Markova fez bem mais por si  do  que  eu.
Foi Deus - argumentou Madame Markova - e a tua
prpria fora.
Madame Markova queria perguntar ao mdico se Danina estava fora de perigo, contudo sabia que no lhe podia fazer tal pergunta em frente dela. Danina parecia estar 
bem melhor, plenamente consciente e mais forte. O risco de a perder fora to grande que Madame Markova estava ainda a tremer.
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Quando poderei voltar a danar? - perguntou Dani-
na, fazendo Madame Markova e o mdico rirem. Estava de
facto melhor.
Posso garantir-lhe que na prxima semana ainda no
poder danar - confessou ele, sorrindo.
Na realidade, no poderia voltar a danar nos prximos meses, mas o mdico sabia que era ainda demasiado cedo para lho dizer. Pressentia que, se lhe dissesse a verdade, 
ficaria arrasada.
Se prometer portar-se bem e fazer tudo o que eu dis
ser, em breve estar de p e a danar.
Tenho um ensaio importante amanh - insistiu Danina.
Acho que ter de faltar. No tem pernas, lembra-se?
Como? - perguntou Madame Markova, preocupada.
O Dr. Obrajensky apressou-se a explicar.
H pouco, a Danina no sentia as pernas, mas est tu
do bem. Est apenas muito fraca por causa da febre.
Algum tempo depois, quando tentaram sent-la para que bebesse mais gua, descobriram que nem sentar-se conseguia. Mal aguentava levantar a cabea da almofada.
Sinto-me um pedao de cordel - disse Danina elo
quentemente, fazendo o mdico sorrir.
Olhe que no se parece nada com um. Tem muito
melhor aspecto. De facto, acho que vou voltar aos meus res
tantes doentes antes que se esqueam de mim.
Passava das seis da tarde e ele j ali estava h treze horas. Prometeu voltar na manh seguinte. Enquanto se encaminhavam para a porta, Madame Markova agradeceu-lhe 
profusamente e perguntou-lhe o que deveria esperar de agora em diante.
-        Uma demorada convalescena - confessou. - Deve
r ficar pelo menos um ms na cama ou arrisca-se a ficar
doente de novo e, desta vez, poder no ter tanta sorte.
Madame Markova tremeu s de pensar nisso.
Passar-se-o vrios meses at que possa voltar a danar.
Talvez trs ou quatro, ou at mais - advertiu o mdico.
Se for necessrio, atamo-la  cama. J viu como ela .
Amanh de manh j estar a suplicar que a deixemos danar.
Ela prpria ficar surpreendida ao perceber como est
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debilitada. Ter de ser muito paciente, pois a recuperao levar tempo.
- Compreendo - disse Madame Markova, agradecendo-lhe uma vez mais quando se despedia. Depois de fechar a porta, dirigiu-se ao quarto de Danina, pensando no que acontecera 
e na sorte que tinham tido. Estava tambm eternamente grata  czarina por lhes ter enviado o mdico. Pouco pudera fazer, mas t-lo ali fora uma enorme ajuda, j 
para no falar da sua dedicao.
Madame Markova ficou  porta do quarto de Danina, olhando para a jovem que tanto amava. Parecia uma criana ali deitada na cama, a dormir com um sorriso no rosto.

CAPITULO 2
Fiel  sua promessa, o Dr. Obrajensky voltou para examinar Danina no dia seguinte, mas desta vez s chegou depois de almoo, pois sabia que a sua doente estava fora 
de perigo. Ficou muito satisfeito ao verificar que Danina j se alimentava e bebia bastante gua. Mal tinha ainda fora para levantar a cabea da almofada, porm 
sorriu assim que ele entrou no quarto. Estava obviamente feliz por v-lo.
Como est o Alexei? - perguntou-lhe logo que o
viu.
Est muito bem. Bem melhor do que a Danina. Estava
a jogar s cartas com as irms, e a ganhar, quando o vi esta
manh. Pediu-me que lhe desejasse rpidas melhoras.  tam
bm esse o desejo da czarina e das gr-duquesas.
O Dr. Obrajensky era tambm o portador de uma carta que a czarina enviara a Madame Markova. O mdico conhecia o contedo de tal missiva, j que a czarina lhe pedira 
conselho sobre o assunto.
Madame Markova no abandonara ainda a cabeceira de Danina, mas parecia bem mais recomposta. Quando leu a carta da czarina, abriu muito os olhos, como que no acreditando 
no que lia. Olhou para o Dr. Obrajensky, surpreendida, e ele respondeu-lhe afirmativamente com um aceno de cabea. A ideia fora dele. A czarina convidava Danina 
a convalescer numa das suas pequenas casas reservadas a hspedes. Ali poderia ser bem tratada e fazer a demorada recuperao de que necessitaria sem se atormentar 
dia aps dia com a viso das colegas a prepararem-se para as aulas e para os ensaios. Tsarskoie Selo era um local sossegado onde poderia ser bem vigiada, tratada 
e poderia convalescer da melhor forma para que voltasse a danar.
Depois de deixarem o quarto de Danina naquela tarde, o mdico perguntou a Madame Markova o que achava do convite da czarina. Estava ainda bastante surpreendida, 
porm, no restavam dvidas de que era um convite muito lisonjea-dor. No entanto, Madame Markova no fazia ideia de como
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Danina reagiria  ideia. Era to apegada ao ballet, que no imaginava afastar-se dele nem que fosse por um instante, mesmo no podendo danar. Ainda assim, Madame 
Markova concordava que estar ali, ver as colegas e no poder danar com elas a levaria  loucura em pouco tempo.
Talvez lhe faa bem afastar-se por uns tempos - ad
mitiu Madame Markova -, mas no sei se conseguiremos
convenc-la a ir. Mesmo sem poder danar, suspeito que pre
ferir ficar. H doze anos que no sai daqui, excepto no Ve
ro passado quando esteve em Livadia.
Mas ela gostou de l estar, no gostou? Seria uma con
tinuao das frias.  Para alm disso, l conseguirei vigi-la
melhor. Ser difcil para mini vir at aqui tantas vezes e du
rante tanto tempo como nos dois ltimos dias. Tenho as mi
nhas responsabilidades para com o czarviche.
Tem sido muito amvel - admitiu Madame Marko
va. - No sei o que teramos feito sem si.
No fiz absolutamente nada - confessou com mods
tia -, a no ser rezar, tal como a senhora. Ela teve muita
sorte. Receio que a czarina e os filhos fiquem muito desa
pontados se no aceitar o convite.
Em seguida, relembrou a Madame Markova algo que ela j sabia.
E um convite bastante invulgar. Acho que a Danina
iria gostar.
Quem no gostaria? - riu Madame Markova. - Te
nho pelos menos uma dzia de bailarinas, se no mais, que fi
cariam mais do que felizes de poder tomar o lugar da Danina
em Tsarskoie Selo. O problema  que a Danina  diferente.
No quer sair daqui, pois teme perder alguma coisa. Nunca
sai para ir a uma loja, para passear, ou sequer para ir ao teatro.
S dana, dana, dana, e quando no est a danar est a ob
servar os outros a faz-lo. Para alm de tudo,  muito apegada
a mim, talvez por j no ter me.
Era bvio que Madame Markova a amava muito.
-        H quanto tempo est ela aqui? - perguntou o mdi
co. Sentia-se fascinado pela bailarina e via-a como uma deli
cada ave que aterrara aos seus ps com uma asa partida. Que
ria fazer tudo o que pudesse para a ajudar, at interceder por
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ela junto do czar e da czarina, o que no era difcil, pois tambm gostavam muito de Danina. Era impossvel no admirar algum com uni talento to grande.
Est connosco h doze anos - respondeu Madame
Markova.  -- Desde  os  sete.   Agora tem  dezanove,  quase
vinte.
Talvez umas pequenas frias lhe faam bem - afir
mou o mdico num tom srio, pois achava realmente que tal
seria importante para a sua recuperao.
Concordo, o problema ser convenc-la. Falarei com
ela quando estiver uni pouco mais forte.
O mdico continuou a visit-la todos os dias e, quando Danina se sentia um pouco melhor, Madame Markova abordou o assunto. Danina ficou surpreendida e feliz com 
o convite, mas no fazia qualquer teno de o aceitar.
No posso deix-la - disse simplesmente a Madame
Markova. Tambm se sentia desanimada com o facto de ter
estado s portas da morte e considerava a escola de bailei o seu
lar. Para alm disso, no queria convalescer no meio de estra
nhos, ainda que pertencentes  realeza.
No  me vai obrigar a ir,  pois  no? - perguntou,
preocupada. Contudo, assim que tentou levantar-se, aperce
beu-se da gravidade da sua doena, bem como Madame Mar
kova.   Nem  sequer  conseguia  sentar-se  numa  cadeira  sem
quase desmaiar e ter de ser amparada para no cair. Tambm
tinha de ser carregada ao colo at  casa de banho.
Precisa de cuidados constantes - explicou-lhe o m
dico numa das suas visitas. - E ainda vai precisar durante al
gum tempo, Danina. Ser um fardo muito grande para as pes
soas  do  ballet.  Esto  todas  muito  ocupadas  para  cuidarem
de si.
Danina sabia que isso era verdade e que tinha j sido um estorvo para todos, principalmente para Madame Markova, mas, ainda assim, no queria deix-los. A escola 
de ballet era a sua casa e os colegas e professores a sua famlia. No suportava a ideia de os deixar e, nessa noite, quando Madame Markova voltou a falar no assunto, 
Danina chorou.
-        Porque no aceitas ir apenas por algum tempo? - su
geriu Madame Markova. - S at estares um pouco mais
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forte.  um convite to amvel e de certeza que acabars por gostar de l estar.
-        Tenho medo - declarou.
No dia seguinte, Madame Markova insistiu com Danina para que aceitasse o convite. Para alm de acreditar que seria bom para ela, temia ofender a czarina ao declinar 
to generosa oferta. Era raro, se no inaudito, ser convidado para convalescer em Tsarskoie Selo e Madame Markova estava muito grata ao Dr. Obrajensky por ter tido 
semelhante ideia. Provara ser no s muito amvel, mas deveras solcito e genuinamente preocupado com o bem-estar de Danina. As suas visitas dirias animavam-na 
muito. Em termos psicolgicos estava quase bem, s o seu corpo no estava capaz de se recompor to depressa.
Acho que devias ir - afirmou Madame Markova se
riamente. No final da semana, chegou a um acordo com o
mdico. Danina tinha de ir, quer quisesse quer no. Era para
seu prprio bem. Sem os cuidados necessrios, poderia nunca
recuperar por completo e arriscar-se-ia a jamais voltar a dan
ar. Madame Markova acabou por ter de dizer tudo isto a
Danina.
E se a tua teimosia te custar o bailei? - inquiriu aspe
ramente.
Cr que isso pode acontecer? - perguntou Danina.
Os seus olhos espelhavam o terror que a ideia lhe causara.
Pode acontecer, sim - respondeu Madame Markova
preocupada. - Estiveste muito, muito doente, minha queri
da. No deves agora tentar o destino sendo teimosa ou insen
sata.
Danina fora convidada a ficar indefinidamente, at estar recuperada e apta a regressar ao ballet. Era um convite excepcional e ela bem o sabia. Estava a ser infantil 
ao no querer abandonar a segurana do ambiente familiar e das pessoas que conhecia.
E se for apenas por algumas semanas? - perguntou.
Era uma pequena concesso da sua parte, mas, pelo menos, j
era um comeo.
Ainda no conseguirs danar daqui a algumas sema
nas. Vai pelo menos por um ms e depois veremos como te
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sentes nessa altura. Se no gostares de l estar, podes sempre regressar e continuar a tua convalescena aqui. Fica pelo menos um ms. Sabes que se quiseres podes 
ficar mais tempo. Prometo que te vou visitar sempre que puder.
Era um compromisso difcil para Danina, porm acabou por concordar. No dia da partida chorou ao pensar que iria abandonar os amigos e a sua mentora.
No te estamos a enviar para a Sibria - protestou
Madame Markova carinhosamente.
 como me sinto - confessou Danina, sorrindo por
entre as lgrimas. - Vou ter tantas saudades suas - disse, se
gurando a mo de Madame Markova com firmeza.
A czarina enviara um tren coberto especial para levar Danina. Era quente e confortvel e fora revestido com peles e pesados cobertores. A czarina no poupara nada. 
O Dr. Obra-jensky viera para a acompanhar durante a viagem, mas antes verificara se tudo estava a postos na casa de hspedes. Trazia tambm uma mensagem de Alexei, 
que mal podia esperar para a ver e afirmava ter um novo truque de cartas para lhe ensinar.
Todas as bailarinas e bailarinos vieram  porta para se despedir dela e todos acenaram quando o tren partiu. Danina estava to nervosa que o Dr. Obrajensky teve 
de lhe dar a mo e, mesmo antes de chegarem a Tsarskoie Selo, sentia-se j exausta das emoes provocadas pela partida.
O ballet  toda a minha vida. No conheo mais nada.
Estou l h tanto tempo que no imagino estar em mais lado
nenhum, nem apenas por minutos - explicou durante o ca
minho, mas ele j se tinha apercebido disso e, como sempre,
mostrou-se amvel e compreensivo.
No perder nada por se afastar uns tempos. Pelo con
trrio, recuperar a sua fora e eles estaro  sua espera quan
do regressar.  Ser ainda melhor do que nunca,  confie em
mini.
Ela assim fez e sentiu-se grata pelo seu apoio e companhia durante a viagem. Era to agradvel estar com ele. Era fcil perceber por que motivo toda a famlia imperial 
gostava do Dr. Obrajensky.
Assim que chegaram, instalou-a confortavelmente na pe-
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quena casa de hspedes, mais luxuosa do que ela alguma vez imaginara. O quarto estava todo revestido a cetim cor-de--rosa e a sala de estar a azul e amarelo. Havia 
antiguidades por todo o lado, uma cozinha para preparar as suas refeies, quatro criados para a servirem e duas enfermeiras. Meia hora depois de chegar, a czarina 
veio visit-la, trazendo Alexei consigo para que lhe pudesse mostrar o tal truque. Ambos ficaram estupefactos ao ver quanto a doena a debilitara e contentes por 
ter aceite convalescer ali. No ficaram muito tempo para no a cansar e quando partiram o mdico saiu com eles, prometendo voltar na manh seguinte para ver se ela 
estava a "portar-se bem".
Era estranho encontrar-se ali naquela noite, sem todas as pessoas que conhecia em seu redor e as raparigas que habitualmente dormiam no seu quarto. Apesar do ambiente 
luxuoso, sentia-se sozinha. Ficou surpreendida quando a enfermeira entrou no quarto, pouco depois de a ter ajudado a deitar, e lhe anunciou que tinha uma visita. 
O Dr. Obrajens-ky voltara para a ver. Eram oito horas e ela apenas o esperava na manh seguinte, por isso, ficou surpreendida com a visita.
-        Ia para casa - explicou - e lembrei-me de vir ver
como estava.
Olhou para ela atentamente de onde se encontrava e confirmou as suas suspeitas. Danina estava um pouco melanclica.
Pressenti que estaria a sentir-se sozinha.
E verdade - confessou, interrogando-se como conse
guira adivinhar.  Parecia compreend-la to bem. - Deve
achar-me tola - acrescentou, envergonhada por parecer to
ingrata.
Claro que no - acalmou-a ele, puxando uma cadeira
para junto da cama dela. - Est habituada a viver rodeada de
muita gente. - Vira o quarto em que dormia com outras
cinco bailarinas e apercebera-se das condies de vida ofereci
das pela escola. -  uma grande mudana para si ver-se aqui
sozinha - disse. Danina era ainda to jovem, tinha apenas
dezanove anos. Em alguns aspectos era muito disciplinada e
madura, mas infantil e superprotegida noutros. - H alguma
coisa que possa fazer para tornar as coisas mais fceis?
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No. Gosto muito das suas visitas - disse Danina, sor
rindo para o mdico. A visita daquela noite enternecera-a
muito, pois ele parecia ter entendido exactamente o que ela
estava a sentir.
Ento, terei de a visitar mais vezes - prometeu ele.
Era-lhe mais fcil agora ir v-la, pois a casa ficava apenas a
uma curta distncia a p do Palcio de Alexandre. Sabia que
Alexei e as irms estavam j a planear fazer-lhe companhia,
era essa a inteno deles e o objectivo da vinda dela para ali.

No ficar sozinha durante muito tempo e em breve po
der dar passeios e ir at ao palcio, quando estiver mais forte.
Danina ainda no conseguia atravessar o quarto sem ajuda.
Prevejo que em pouco tempo se sentir melhor.
De repente comeou a sentir-se uma tola por achar que estava sozinha. Toda a gente se mostrava to atenciosa com ela. Apesar de ter saudades dos amigos e de Madame 
Marko-va, sentia-se feliz por haver decidido ir.
-        Obrigada por ter tratado de tudo - disse, agradecida.
-        Estou muito feliz por aqui estar.
Estou feliz que tenha vindo, Danina - afirmou sere
namente,  parecendo  ao mesmo  tempo  descontrado  e  um
pouco cansado. Era o final de um dia bastante longo para o
mdico, e Danina tinha a certeza de que deveria estar desejo
so de voltar para casa para junto da mulher e dos filhos. Sen
tia-se culpada por o reter ali, mas gostava muito da sua com
panhia. - Teria ficado muito desapontado, se no  tivesse
vindo.
Tambm eu - admitiu Danina com um sorriso que
tocou profundamente o corao do mdico, embora ela no
o soubesse. - Esta casa  magnfica - admirou, olhando em
seu redor ainda maravilhada com o luxo que a cercava. Nun
ca vira uma coisa assim.
Logo vi que ia apreciar - sorriu ele.
Era difcil no gostar - confessou.
Vai ter muitas saudades de danar, no ? - pergun
tou ele, conhecendo j a resposta, porm fascinado com a sua
vida no ballet.
Vivo para danar - disse Danina. -  a nica vida
que conheo, a nica que desejo. No imagino existir sem o
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ballet. No ser capaz de danar representaria talvez a minha morte.
Ele anuiu com a cabea, observando os seus olhos, as suas faces. Adorava falar com ela e agora que se sentia melhor demonstrava um sentido de humor encantador.
-        Voltar a danar em breve, Danina. Prometo.
Tinha ainda um longo caminho a percorrer antes de estar
bem forte para o fazer e ambos sabiam disso.
Ter de se entreter com outra coisa entretanto - re
matou ele. Tinha j trazido uma pilha de livros e Danina pro
metera a si mesma que os iria ler. No ballet nunca tinha tem
po para ler nada.
Gosta de poesia? - perguntou cautelosamente,  no
querendo parecer pedante, embora a poesia fosse uma das
suas paixes.
Muito - disse ela.
Trarei alguns livros de poesia amanh. Gosto muito de
Pushkin. Talvez tambm aprecie.
Danina lera alguns poemas de Pushkin h alguns anos e adoraria conhecer melhor a sua obra, j que agora tempo era coisa que no lhe faltava.
-        Venho visit-la amanh depois de examinar o Alexei.
Talvez possa almoar aqui consigo, para que no se sinta to
sozinha.
Em seguida levantou-se, mas parecia relutante em ir-se embora.
Ficar bem esta noite, no ? - inquiriu. Estava preo
cupado com ela, no queria que se sentisse infeliz.
Fico bem - garantiu com um sorriso. - Prometo.
Agora, v para casa para junto da sua famlia ou pensaro que
sou muito aborrecida.
Eles compreendem o que  viver com um mdico.
Vejo-a ento amanh - disse j  porta. Ela acenou-lhe da
cama, pensando mais uma vez como era amvel e a sorte que
tinha em conhec-lo.

CAPITULO 3
O livro que o Dr. Obrajensky trouxe no dia seguinte era to belo que quando ele lhe leu algumas passagens Danina no conseguiu conter as lgrimas. Estava lentamente 
a abrir--Ihe a porta para um mundo que ela desconhecia. Comeara a ler naquela manh um dos romances que o mdico lhe trouxera e, durante o almoo, conversaram sobre 
ele. Tal como os livros de poesia que lhe emprestara, aquele romance era um dos preferidos de Nikolai. O tempo que passaram a conversar voou como se fossem minutos 
e ambos ficaram surpreendidos ao verificar que eram j quatro da tarde.
O Dr. Obrajensky teve de partir e Danina, embora o mdico detestasse ter de admiti-lo, estava exausta.
No deveria cans-la - confessou com remorsos. -
Logo eu, o seu mdico!
Sinto-me bem - afirmou, tendo adorado o tempo
que passaram a conversar. Almoara na cama e ele ficara nu
ma pequena mesa ao p dela.
Agora, quero que durma - disse o mdico carinhosa
mente. Depois ajudou-a a deitar-se e arranjou-lhe as almofa
das. Era uma tarefa que uma enfermeira poderia fazer, porm
gostava de o fazer por Danina. - Durma o mximo que
conseguir. Vou jantar ao palcio hoje  noite, mas venho ver
como se sente quando regressar a casa, se no se importar.
Tinha feito o mesmo na noite anterior e ela adorara, pois fizera-lhe ver que no estava sozinha.
-        Gostava muito - disse Danina, j sonolenta. Ele desli
gou as luzes e saiu p ante p do quarto.  porta, voltou-se
para lhe dizer adeus. Os seus olhos estavam j fechados e,
quando o mdico deixou a casa de hspedes, Danina estava j
a dormir profundamente, s acordando por volta da hora do
jantar.
Quando abriu os olhos viu um desenho ao seu lado. Ale-xei viera visit-la durante a tarde e a enfermeira dissera-lhe que estava a dormir. Deixara-lhe ento um desenho 
que a re-tratava a tentar nadar, corno no Vero anterior. Tal como a
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maioria dos rapazes da sua idade, Alexei adorava provoc-la. Sentia-se  vontade com ela, pois Danina era da mesma idade das suas irms.
Tomou uma sopa ao jantar e estava a beber um ch quando o Dr. Obrajensky voltou para a visitar depois do jantar no palcio. Estava muito bem-disposto e contou-lhe 
todos os pormenores da noite. Jantava com a famlia imperial vrias vezes por semana.
-        So pessoas maravilhosas - declarou. Era um grande
admirador do czar e da czarina. - Tm tantas responsabilida-
des, tantas preocupaes. Os tempos so difceis, especialmen
te agora com a guerra. Tem tambm havido alguma agitao
nas cidades e, claro, a sade do Alexei preocupa-os muits
simo.
A hemofilia de que o czarviche sofria era um problema que exigia a presena constante de um mdico ao seu lado. Era por este motivo que o Dr. Obrajensky passava 
tanto tempo com a famlia imperial, embora partilhasse tal responsabilidade com o Dr. Botkin.
-        Deve ser duro para si - disse Danina - ter de estar
tanto tempo afastado da sua famlia, dos seus filhos.
Danina sabia que a sua esposa era inglesa e que tinham dois rapazes, com doze e catorze anos.
-        O czar e a czarina compreendem a minha situao e
convidam sempre a Marie, mas ela nunca me acompanha, de
testa eventos sociais. Prefere estar em casa com os rapazes, ou
sentada a coser. No tem qualquer interesse pelo meu traba
lho ou pelas pessoas para quem trabalho.
Danina quase no acreditava no que ouvia, especialmente porque o mdico no era um empregado como outro qualquer. Interrogava-se se a mulher no teria cimes. Era 
difcil acreditar que fosse assim to anti-social. Talvez fosse tmida ou no se sentisse  vontade em tais ocasies.
-        Tambm no fala muito bem russo, o que ainda lhe
dificulta mais as coisas. Nunca se deu muito ao trabalho de
aprender.
Era um motivo de discrdia entre os dois, embora no o tivesse admitido. Seria um pouco desleal queixar-se de Marie a Danina. As duas mulheres pareciam to diferentes. 
Uma to
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cheia de vitalidade, a outra to cansada, infeliz, entediada, constantemente desencantada com a vida.
Mesmo aps a doena, a energia e entusiasmo de Danina eram contagiantes. As suas longas conversas com o mdico eram tambm uma nova experincia. Para alm dos rapazes 
com quem danava na escola, nunca tivera amigos ou sequer um namorado, e quanto aos irmos, raramente os via. Estavam sempre demasiado ocupados para a visitar. Vinham 
a Sampetersburgo v-la danar uma vez por ano e o pai pouco mais do que isso. As responsabilidades que detinham no exrcito impediam-nos de se afastarem muitas vezes.
Com Nikolai Obrajensky tudo era diferente. Estava a tornar-se um amigo, algum com quem podia conversar. Confessou-lho naquela noite e ele ficou muito contente. 
Adorava conversar com ela, partilhar os seus livros, as suas opinies sobre poesia e, naquela noite, verificou que a amizade que partilhavam era muito agradvel. 
Quase falara de Danina a Marie antes de ela vir para a casa de hspedes. J o fizera uma vez, embora s de passagem, referindo que fora chamado  escola de ballet 
por uma das bailarinas ter apanhado gripe. Marie nunca lhe perguntara nada sobre o assunto e, assim que Danina melhorou, decidiu no dizer mais nada. Em alguns aspectos, 
era melhor manter a amizade que os unia em segredo.
H anos atrs no o teria feito, mas agora, ao fim de quinze anos, descobrira que pouca ou nenhuma vontade tinha de contar a Marie fosse o que fosse sobre a sua 
vida. Ela no demonstrava qualquer interesse nele e a maior parte do tempo no tinha nada para lhe dizer. Houve um perodo em que passaram um mau bocado, pois Marie 
queria voltar para Inglaterra ou, pelo menos, mandar os filhos estudar para l. Nikolai opunha-se  ideia, queria os rapazes perto dele. Agora, ela nem sequer estava 
zangada por causa disso, era-lhe com-pletamente indiferente, embora no perdesse uma oportunidade para lhe dizer o quanto detestava a Rssia. Pelo contrrio, o tempo 
que passava com Danina era muito agradvel. Esta adorava a sua vida, no se queixava, era uma pessoa feliz.
Os seus filhos so parecidos consigo? - perguntou
Danina por acaso.
As pessoas dizem que sim - afirmou sorrindo. - Eu
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no penso assim. Acho que se parecem mais com a me. So umas crianas maravilhosas. Esto a tornar-se uns homens. Ainda os vejo como crianas e tenho de me lembrar 
continuamente de que j no o so. Ficam muito zangados comigo quando os trato assim. So bastante independentes. Em breve sero uns homens e iro para o exrcito 
servir o czar.
Ao escut-lo, Danina lembrou-se dos irmos. Tinha saudades deles e, desde que a guerra fora declarada no Vero anterior, preocupava-se ainda mais com o seu bem-estar.
Falou-lhe ento deles e o mdico sorria ao ouvi-la, porm, quando o tratava por "doutor" olhava-a tristemente. Fazia-o sentir-se to velho, to distante, e no o 
amigo que ela via nele.
Embora se tivessem conhecido no Vero anterior, s agora, desde que adoecera, o conhecera melhor. A amizade que os unia crescia cada vez mais.
-        Podia tratar-me por Nikolai - props. - Parece-me
mais simples.
Era tambm muito mais pessoal, mas isso nem sequer passou pela cabea de Danina, pois o mdico sugerira-o de forma bastante natural. Sorriu, parecendo mais uma criana 
que uma jovem mulher. A amizade deles era perfeitamente inocente e inofensiva.
Claro, se prefere assim. Posso continuar a trat-lo de
modo mais formal em frente de outras pessoas - disse Dani
na, consciente da sua posio e da diferena de idades entre
eles. O mdico tinha mais vinte anos do que ela.
Parece-me razovel - concordou,  contente  com o
acordo que haviam firmado.
Terei a oportunidade de conhecer a sua esposa en
quanto aqui estiver? - inquiriu Danina com alguma curiosi
dade.
Duvido - disse com sinceridade. - Ela raramente
vem ao palcio. Tal como disse, detesta sair e declina todos os
convites da czarina, excepto talvez uma vez por ano, quando
se sente obrigada.
Isso prejudic-lo- junto da famlia imperial? - per
guntou Danina sem rodeios. - A czarina no se aborrece
com isso?
49

-        Que eu saiba, no. De qualquer forma,  demasiado
discreta para o demonstrar. Acho que compreende que a mi
nha esposa no  uma pessoa de trato fcil.
Era o primeiro verdadeiro vislumbre que tinha da sua vida privada. Na realidade, embora falassem sobre muitas coisas, Danina nada sabia sobre a vida pessoal do mdico. 
Imaginava--o com uma famlia carinhosa e uma vida familiar feliz.
A sua esposa deve ser muito tmida - concluiu Da
nina.
No, no me parece - confessou com um sorriso tris
te. Havia tantas diferenas entre Danina e Mane. - Ela no
gosta de usar roupa de cerimnia ou vestidos de noite. E tipi
camente inglesa. Gosta de andar a cavalo, de caar e de estar
na propriedade do seu pai em Hampshire. Tudo o resto a
aborrece.
No referiu "incluindo eu", mas gostaria de o ter feito. H muito tempo que o casamento deles era uma desiluso para ambos, especialmente para ele, e a nica excepo 
eram os rapazes. Nikolai e Marie eram muito diferentes. Ele era emotivo, sincero, bondoso. Ela era fria, distante e indiferente. Detestava a vida do marido e, quando 
se zangavam, chamava--Ihe o cozinho de salo do czar. Nikolai estava farto de a ouvir queixar-se. Era fcil perceber por que motivo Marie no tinha amigos, sendo 
to fria e ciumenta. At os filhos no suportavam mais as suas queixas. Tudo o que queria era voltar para Inglaterra e esperava que o marido largasse tudo e a seguisse. 
Certa vez, Nikolai avisara-a de que, se quisesse regressar definitivamente, teria de o fazer sem ele.
Por que razo detesta assim tanto a Rssia? - pergun
tou Danina.
Diz que  por causa do Inverno. Em Inglaterra o tem
po tambm no  muito melhor, embora aqui seja mais frio.
No gosta das pessoas nem do pas e at a comida detesta -
lamentou, esboando depois um sorriso. Era uma antiga lita
nia que ambos conheciam.
Talvez comeasse a gostar mais, se aprendesse russo -
sugeriu Danina.
-J lhe tentei explicar isso.  a forma de ela no se comprometer a ficar. Enquanto no falar russo, no pertence-
50

r verdadeiramente a este lugar, ou pelo menos  o que pensa, embora isso no lhe torne a vida mais fcil.
Haviam sido uns longos quinze anos de casamento, mas no contara nada disso a Danina, nem o quanto se sentia sozinho, ou feliz por estar ali a conversar com ela. 
Se no fossem os filhos, h muito que teria deixado Mane regressar a Inglaterra. No havia j nada entre eles, a no ser as crianas.
-        O pai comeou a assust-la com a guerra. Afirma que
um dia haver uma revoluo. Diz que o pas  grande de
mais para ser controlado e que o czar no tem punho forte
para o fazer, o que  ridculo. No entanto, acredita piamente
nisto.
Danina escutou-o, preocupada. No percebia nada de poltica. Estava sempre muito ocupada com a dana para se aperceber do que se passava no mundo.
Tambm acredita nisso? - perguntou com um ar gra
ve. - Acha que vai haver uma revoluo? - inquiriu, con
fiando plenamente na opinio de Nikolai.
Nem por um instante - respondeu. - O meu sogro
sempre foi um pouco alarmista. A Rssia  demasiado pode
rosa para deixar que uma coisa dessas acontea, tal como o
czar. E s mais uma desculpa para ela se queixar do pas. Afir
ma que estou a arriscar a vida dos nossos filhos. Sempre se
deixou influenciar muito pelo pai.
Danina tinha sempre ideias to novas e um esprito to aberto. Fora exposta a to pouco, para alm do bailado, que era como observ-la a descobrir o mundo em seu 
redor, um mundo que ele adorava partilhar com ela. Comparada com Danina, Marie parecia to extenuada, revoltada e amarga, e viver na Rssia no melhorara nem um 
pouco a sua maneira de ser.
Outrora, Marie fora uma mulher bela e interessada. A medicina e a carreira do marido fascinavam-na, mas agora tinha cimes da posio que detinha junto da famlia 
imperial, bem como de vrias outras coisas. Danina no era nada assim, mas tambm no podia esquecer de que Marie era dezassete anos mais velha do que ela. Nikolai 
tinha trinta e nove e a mulher era trs anos mais nova.
Danina ficou aliviada com o que o mdico dissera sobre a revoluo.
51

Acha que a guerra terminar brevemente? - pergun
tou-lhe, e ele sorriu para a tranquilizar, embora o nmero de
baixas fosse at ento enorme. Toda a gente esperara que a
guerra tivesse acabado h meses, todavia, no mostrava sinais
de terminar to cedo.
Espero que sim - alvitrou.
Estou preocupada com o meu pai e com os meus ir
mos - admitiu Danina.
Vo ficar bem, vai ver.
Conversar com ele fazia-a sentir-se muito melhor. Niko-lai fez-lhe companhia durante mais algum tempo e depois levantou-se para ir embora. Danina estava de novo 
cansada e ele tinha de regressar a casa. No podia adiar a partida para sempre.
-        Vemo-nos amanh - prometeu enquanto saa.
Danina ficou a pensar nas coisas que Nikolai dissera sobre
a mulher. Parecia preso numa situao difcil e Danina interrogava-se se no haveria alguma coisa que ele pudesse fazer para a melhorar. Talvez insistir para que 
Marie aprendesse russo, ou viajar de vez em quando com ela at Inglaterra. Parecia-lhe estranho que Marie no quisesse partilhar da posio que o marido detinha. 
Depois comeou a pensar se Nikolai no estaria desnecessariamente deprimido com o assunto. Talvez estivesse apenas cansado, pensou para consigo. A guerra desanimava 
qualquer um. Era possvel que os seus comentrios sobre a esposa estivessem relacionados com isso e com outras preocupaes que no mencionara.
Nunca lhe ocorreu, nem por um instante, que o mdico quisesse mais alguma coisa dela ou que a visse como algo mais que uma amiga. Afinal de contas, era casado e 
tinha uma famlia e mesmo que tivesse algumas queixas da esposa, as coisas no seriam to ms como as pintava. Como o seu mundo se circunscrevia ao ballct, para 
Danina tudo era muito simples e o casamento sagrado. Tinha a certeza de que Nikolai era mais feliz com Marie do que admitia.
Nas duas semanas que se seguiram, Nikolai no voltou a falar da esposa. Danina era j capaz de tomar as refeies  mesa e, numa tarde soalheira de Janeiro, levou-a 
a dar um pequeno passeio pelos jardins da casa de hspedes. O ar pare-
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cia retemperar-lhe a fora e, de brao dado, riam e conversavam. Ela j lera algumas colectneas de poesia que ele lhe emprestara, bem como quatro dos seus romances 
preferidos. Nessa tarde, quando Alexei veio tomar ch com Danina, Ni-kolai fez-lhes companhia. Depois do ch jogaram s cartas e Alexei ganhou, protestando alegremente 
quando Danina o acusou de ter feito batota.
Isso  que no! - ripostou. - Tu  que jogaste mui
to mal,  Danina - explicou sem rodeios  e Danina fingiu
ofender-se.
Como te atreves! Joguei muito bem. Estou convencida
de que fizeste batota.
Nikolai divertia-se a observar a boa disposio que reinava entre ambos.
No fiz nada batota e, se continuas a acusar-me, quan
do for czar mando cortar-te a cabea.
Acho que isso j no. se faz, pois no? - respondeu
Danina, voltando-se depois para Nikolai.
Se eu quiser, fao - anunciou Alexei, maravilhado
com a possibilidade. - E talvez mande tambm cortar-te os
ps, para que no possas mais danar, e as mos, para que
nunca mais jogues s cartas.
De qualquer maneira, se me decapitares, acho que no
poderei fazer nenhuma dessas coisas. A decapitao resolveria
logo o problema - disse Danina, sorrindo.
Por via  das  dvidas,  mando  cortar-te  o  resto!  -
A ideia parecia-lhe fantstica. Depois, de repente, olhou para
ela com interesse e perguntou-lhe: - Posso ir um dia a Sam-
petersburgo ver-te danar? Gostaria muito.
Tambm eu - respondeu Danina, enternecida.
Mas s quero que regresses daqui a muito tempo. -
E depois lembrou-se. - A minha me pediu-me que te per
guntasse se j te sentes suficientemente bem para vires jantar
connosco - despejou de uma s vez e depois voltou-se para
Nikolai. - Pode ser?
-        Talvez na prxima semana. Ainda  um pouco cedo.
Danina s ali estava h duas semanas e ainda no parecia
muito forte.
-        No trouxe nada para usar - lamentou ela.   -
53

Podes ir de camisa de noite - disse Alexei pronta
mente. - De certeza que ningum reparar.
Que vergonha! - exclamou Danina, rindo da ideia,
embora, na verdade, no tivesse nenhum vestido que se ade
quasse a um jantar com a famlia imperial.
Tenho a certeza de que uma das minhas irms poder
emprestar-te qualquer coisa - ofereceu Alexei, educadamen
te, j que a gr-duquesa Olga tinha mais ou menos a mesma
estatura de Danina
Tambm l estar? - perguntou Danina a Nikolai.
Sentia-se to bem ao seu lado, que seria mais fcil se ele tam
bm estivesse presente. Jantar com a famlia imperial era ainda
bastante intimidante.
E provvel - respondeu. - Ainda no ouvi nada so
bre o assunto, mas, se estiver de servio nessa noite, l estarei.
Nikolai sabia que, mesmo que no tivessem planeado inclu-lo, poderia fazer uns ajustes na escala de turnos de modo a que estivesse de servio naquela noite. Ambos 
os mdicos eram bastantes flexveis em termos de horrio, e o seu colega tinha mais motivos para ir para casa  noite do que ele.
Nikolai levou por fim Alexei'de volta ao palcio e Danina deitou-se para dormir um pouco. Quando acordou, ficou surpreendida por ver o mdico de novo ali e, ainda 
por cima, de sobrancelhas franzidas.
Passa-se alguma coisa? - perguntou, preocupada. No
percebia o que significava a expresso nos seus olhos e ele
tambm no sabia bem como dizer-lhe.
Queria apenas ver como estava. Temia que a Danina
tivesse andado demasiado esta tarde, tendo em conta que foi a
primeira vez que saiu.
Estou bem - garantiu, sentando-se na cama e olhan
do para ele. Estava ansiosa por comear a fazer exerccio, mas
sabia que ainda no podia e isso era muito frustrante. Interro
gava-se sobre quanto tempo demoraria at que pudesse reco
mear a danar. Receava que os seus msculos e ligamentos
tivessem esquecido que era uma bailarina. - Dormi duas ho
ras. Foi divertido jogar s cartas com o Alexei.
A propsito, ele faz mesmo batota. Consegue ganhar-
-me sempre - disse o mdico com um sorriso largo. --
54

A Danina bem o encostou contra a parede, e ele adorou. Falou todo o caminho em decapit-la e de como isso seria sangrento e o quanto iria adorar.
No sei se isso ser um comportamento muito impe
rial - sorriu Danina ironicamente, gostando de ver Nikolai
de novo e interrogando-se se ia a caminho do palcio para
jantar. Naquela noite era a sua vez de ficar de servio.
Tentarei vir ver como se sente depois do jantar, mas
talvez j seja tarde e, para alm disso, acho que se sentir can
sada por causa do passeio de hoje.
A enfermeira trouxe-lhe o tabuleiro com o jantar. Danina estava a recuperar muito bem. Recebera nessa tarde unia carta de Madame Markova que lhe dizia para no ter 
pressa em regressar. Ainda assim, Danina sentia-se culpada por no danar.
Madame Markova contara-lhe todas as novidades e dissera-lhe que uma das bailarinas tambm apanhara gripe, embora, felizmente, no fosse grave. Estivera doente durante 
dois dias e nunca tivera febre. Fora bem mais afortunada do que Danina.
O mdico deteve-se ali durante mais algum tempo  conversa e depois, com alguma relutncia, partiu para jantar no palcio. Danina ficou sentada na cama a beber o 
seu ch e a pensar nele. Era um homem amvel, com um bom corao e ela sentia-se grata pela sua amizade. Se no fosse ele, nem sequer estaria ali, na casa de hspedes 
do czar, rodeada de luxo e mimada por todos. Era extraordinrio pensar como tinham sido carinhosos e a sorte que tivera em ter sobrevivido e vindo para ali.
Nikolai no voltou para a ver naquela noite e Danina presumiu que o jantar terminara muito tarde ou que Alexei no estivesse bem ou que ele tivera que dar ateno 
 famlia para a qual trabalhava to diligentemente. Ficou na cama a ler um dos livros que o mdico lhe emprestara e permaneceu acordada at tarde para o terminar. 
Na manh seguinte, acabara ela de se vestir, Nikolai passou pela casa de hspedes para ver como se sentia a sua doente.
-        Dormiu bem? - perguntou, solcito. Danina sorriu,
disse que sim e devolveu-lhe o livro, declarando que gostara
muito. Satisfeito, ele entregou-lhe mais trs.
55

A czarina falou sobre si a noite passada. Quer fazer
uma pequena festa em sua honra, apenas com alguns amigos
de Sampetersburgo, nada de muito cansativo. Acha que j se
sente com foras para tal? - perguntou, parecendo preo
cupado. Advertira a czarina de que talvez fosse ainda cedo de
mais.
Talvez daqui a uns dias... O que acha?
Acho que est a fazer excelentes progressos. S no
quero que se canse. Eu prprio a levarei e, assim que se sentir
fatigada, trago-a de volta.
Obrigada, Nikolai - disse ternamente.
Depois foram dar um pequeno passeio pelo jardim. Estava frio e o vento soprava mais forte do que no dia anterior, por isso, trouxe-a de volta para dentro dali a 
poucos minutos. Nikolai segurava-lhe ainda a mo quando entraram, mas nenhum deles parecia dar-se conta disso. As faces de Danina estavam bem rosadas e os olhos 
brilhavam.
Parecia bem mais saudvel, embora estivesse ainda longe de poder regressar ao ballet. Comeara a exercitar-se meia hora por dia com o consentimento do mdico; no 
entanto, na opinio deste, apenas poderia voltar a danar em Abril. Teria de estar completamente curada e bem forte antes de sequer comear a pensar nisso. Tinha 
ainda longos meses de recuperao  sua frente, todavia, nem um nem o outro achava a ideia desencorajante. Danina sentia saudades das pessoas do ballet, que eram 
no fundo a sua famlia, mas, em poucas semanas, comeara a sentir-se em casa ali. E agora o jantar que a czarina queria organizar intrigava-a.
Nikolai almoou com ela naquele dia, como fazia habitualmente, e partiu pouco tempo depois para tratar dos seus afazeres no palcio, regressando no final da tarde 
e mais uma vez depois de jantar. Era uma rotina com a qual ambos se sentiam bem.
No dia seguinte, Nikolai tinha j dado permisso  czarina para organizar o jantar em honra de Danina. Apenas os amigos mais ntimos seriam convidados, bem como 
alguns familiares e, claro, as crianas. O czar estava mais uma vez na frente de batalha com as suas tropas, por isso, no iria estar presente.
56

Na semana seguinte, as gr-duquesas mandaram a Danina alguns vestidos para ela experimentar. Dois deles ficavam-lhe muito bem. Era um pouco mais magra do que as 
gr-duquesas, especialmente desde que adoecera, mas, fazendo uns ajustes, o preferido de Danina servia-lhe na perfeio. Era um vestido de veludo azul debruado a 
pele de marta que lhe realava muito bem as formas. Tinha tambm uma capa, um chapu e um regalo a condizer, o que permitiria que percorresse a pequena distncia 
entre a casa de hspedes e o palcio sem apanhar frio.
Na noite do jantar, Danina estava to entusiasmada que mal conseguia conter-se. Deixara-se ficar na cama toda a tarde para estar bem descansada. Nikolai veio busc-la 
ainda ela estava a acabar de se arranjar. Enquanto esperava, folheou uni dos livros de poesia que emprestara a Danina e serviu-se de uma chvena de ch do samovar 
de prata que se encontrava em cima da mesa. Quando sentiu a porta do quarto a abrir--se, olhou para cima, segurando ainda a chvena, e sorriu maravilhado. Danina 
estava deslumbrante e os seus sedosos cabelos escuros eram da mesma cor da pele que debruava o vestido.
Est magnfica - declarou com um olhar de admira
o. - Receio que v fazer sombra a toda a gente, incluindo
as gr-duquesas e a czarina.
Duvido, mas  muito amvel da sua parte - agrade
ceu com uma vnia, como faria em palco, porm, quando se
ergueu sentiu como as suas pernas estavam ainda fracas. No
havia palavras que descrevessem o que Nikolai sentira quando
olhou para ela. No podia imaginar por que motivo aquela
criatura to delicada, to elegante, graciosa e encantadora sur
gira na sua vida. Ficara to deslumbrado pela sua beleza como
pelo seu carcter e energia. Nunca conhecera ningum assim.
Est realmente linda, minha querida. Vamos? - per
guntou. Ela acenou com a cabea e ele ajudou-a a pr a capa
de pele enquanto Danina comentava mais uma vez a genero
sidade das gr-duquesas.
Percorreram a pequena distncia at ao palcio no tren de Nikolai, que no se esqueceu de trazer um cobertor bem espesso para a tapar. A noite estava fria, mas 
o cu mostrava-
57

-se limpo e muito estrelado. Cada uma das estrelas parecia reflectir-se nas velas que bruxuleavam nas janelas do palcio. Levou-a depressa para dentro e conduziu-a 
a um grande salo todo decorado a seda e brocado, mrmore, malaquite e peas de arte. Era, ainda assim, uma diviso menos formal que muitas outras e, com o fogo 
a arder na lareira, as velas e a calorosa recepo que recebeu, Danina nunca se sentira to bem e to feliz. Estar ali com a famlia imperial e Nikolai era como 
um sonho.
Alexei no a largou durante todo o jantar. Ficou sentado a um dos lados, como havia pedido, e Nikolai no outro, para que pudesse observar o seu "estado de sade" 
de mais perto. Porm, tudo o que havia para observar naquela noite era a alegria e o prazer que todos sentiam em conhec-la. Toda a gente a achava graciosa, bela 
e encantadora.
Fizeram-lhe perguntas sobre o ballet e ficaram surpreendidos ao ver que estava bem informada sobre muitos outros assuntos. Graas a Nikolai, lera e aprendera bastante 
nas ltimas semanas. Absorvia novas informaes muito rapidamente e recordava-se de tudo o que lhe ensinavam. Ao escut-la agora, Nikolai sentia-se muito orgulhoso, 
como se ela fosse sua filha.
Por fim, um pouco depois das onze, quando reparou que Danina comeara a ficar um pouco plida e menos animada, decidiu que era mais sensato lev-la de volta. Disse 
qualquer coisa discretamente  czarina e depois informou Danina que era melhor retirar-se. Fora uma noite muito excitante e, embora tivesse adorado cada minuto, 
no o contrariou. Por mais que detestasse admiti-lo, sentia-se exausta e Nikolai sabia-o. Sorria ainda quando, j a caminho de casa, recostou a cabea para trs 
e admirou as estrelas.
Enquanto a conduzia para dentro, manteve-se muito junto a ela e colocou-lhe o brao em redor dos ombros. Danina inclinou a cabea contra o seu brao, cansada e grata 
por tudo o que fizera por ela.
- Diverti-me tanto, Nikolai. Obrigado por ter permitido que eu fosse. Toda a gente foi to amvel comigo, foi uma noite maravilhosa.  uma pena que o czar no tenha 
podido estar presente. Toda a gente sentiu a falta dele - comentou.

1

58

Depois, sorriu para Nikolai e tornou a repetir: - Foi uma festa inesquecvel.
-        Toda  a  gente  ficou  deslumbrada  consigo,   Danina.
O conde Orlovsky achou-a deveras encantadora.
O conde j tinha mais de oitenta anos e namoriscara descaradamente Danina toda a noite, todavia, at a prpria esposa se divertira com a situao, pois durante os 
sessenta e cinco anos de casamento fizera o mesmo, e nada mais, com cada mulher bonita que conhecia.
O Alexei ficou muito triste por no ter jogado s car
tas com ele - lembrou enquanto tirava a capa. Era uma sen
sao estranha regressarem assim a casa juntos e falarem sobre
a festa como se fossem um casal. - No joguei s cartas, pois
no queria parecer indelicada com os outros convidados -
explicou.
Podem jogar s cartas um outro dia. Talvez amanh, se
ambos se sentirem bem. Receio que ele v estar bastante can
sado. E a Danina? - inquiriu, olhando para ela, preocupado.
- Como se sente?
Os seus olhos resplandeciam de emoo e pareciam mais azuis do que nunca quando lhe respondeu.
-        Sinto-me feliz e maravilhosa, como se tivesse tido a
noite mais bonita da minha vida.
Continuou a sorrir para Nikolai enquanto este caminhava na sua direco.
-        Nunca conheci ningum como a Danina - confessou
quando j se encontravam frente a frente, e naquele momen
to esqueceu por completo quem ela era. No era uma prima
ballerina ou sequer a sua doente. Era a amiga, a mulher por
quem se sentia deslumbrado e comeara a amar, mesmo sem
esperar que tal acontecesse. -  verdadeiramente extraordi
nria - murmurou, e depois surpreendeu-a com o que de
clarou em seguida: - Danina, amo-a.
E, sem esperar por uma resposta, inclinou-se para ela, to-mou-a nos braos e beijou-a. Danina ficou surpreendida ao perceber como ele era forte e, sem pensar, abraou-o 
com fora e beijou-o de volta, mas, no instante seguinte, libertou--se dos seus braos e olhou para ele, aterrorizada. O que fora aquilo? O que iriam fazer agora?
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Eu no... No podemos... No sei como isto aconte
ceu - gaguejou, angustiada. As lgrimas comeavam a cor
rer-lhe pelas faces abaixo. Era o primeiro homem que beijara
ou que a beijara a ela. Aos dezanove anos, abrira-lhe uma
porta que sempre se mantivera fechada e, agora, Danina no
sabia o que havia de fazer.
Sei  como  isto  aconteceu,  Danina - disse  Nikolai,
aparentando estar mais calmo do que na realidade se sentia.
O seu corao batia apressadamente ao pensar que podia per
d-la, pois, com aquele gesto ousado, talvez a tivesse afastado
para sempre. Acontecesse o que acontecesse, no poderia per
d-la. - Apaixonei-me por si no primeiro instante em que a
vi.  Nunca pensei que sobrevivesse quela noite, mas a sua
imagem perseguia-me. Era uma ave ferida que eu achava que
no seria poupada. No fazia ideia de quem era, no sabia na
da sobre si at agora, at ter vindo para aqui e termos conver
sado todos os dias. Agora, amo tudo em si, o seu corao
bondoso, a sua vivacidade... Danina, no posso viver sem si.
- Era ao mesmo tempo uma confisso de amor e um pedido
de clemncia, e ela sabia-o.
Mas o Nikolai  casado - contraps com um olhar
triste. - No podemos fazer isto, temos de esquecer o que
aconteceu.
O meu casamento no passa de uma formalidade. De
ve ter percebido isso do pouco que lhe contei. Nunca fiz
nada assim na vida, juro.  a primeira mulher que amo verda
deiramente. No sei se eu e a Marie alguma vez nos ammos,
pelo menos desta forma. Hoje em dia, ento, apenas nos tole
ramos. Danina, juro-lhe, ela odeia-me.
Talvez esteja enganado e no compreenda a fundo os
sentimentos dela ou a infelicidade que sente por viver na
Rssia.  Talvez no fosse m ideia mudarem-se para Ingla
terra.
Danina andava de um lado para o outro, agitada e perturbada e, mais do que nunca, Nikolai temia perd-la. Depois, voltou-se para ele e proferiu as palavras que ele 
mais receava. No declarou que no o amava, pois assim que Danina o beijara percebera que o sentimento era recproco, embora ela no o admitisse.
60

Tenho  de  regressar a  Sampetersburgo.   imperativo
que v. No posso ficar aqui.
No pode, no est ainda suficientemente forte para
viver naquelas casernas glidas ou voltar a danar. A sua re
cuperao ainda demorar meses. Vai ficar doente de novo e
isso ser desastroso para si - argumentou com as lgrimas a
correrem-lhe pelas faces. - Peco-lhe, no se v embora -
implorou, no suportando a ideia de se afastar dela.
No posso estar perto de si... Ambos sabemos que os
nossos  coraes  ocultam  um  terrvel  segredo,  um  pecado
monstruoso pelo qual seremos castigados.
H quinze anos que suporto a minha penitncia. No
pode condenar-me a essa vida para sempre.
O que quer dizer com isso? - inquiriu, abrindo os
olhos de espanto e cobrindo a boca com a mo, como que
horrorizada com o que ele lhe propunha.
Que farei qualquer coisa por si. Deixo a minha mu
lher, a minha famlia... Danina, farei qualquer coisa para ficar
consigo.
No pode fazer isso ou sequer afirm-lo. No suporto
pensar que faria uma coisa to horrvel... Nikolai, pense nos
seus filhos!
Pensei neles um milho de vezes todos os dias desde
que a conheci, mas j no so crianas. Tm doze e catorze
anos e em pouco tempo sero uns homens. No posso viver
com uma mulher que no suporto para o resto da minha vida
por causa deles... Ou renegar a nica mulher que alguma vez
amei. Danina, no se afaste de mini, por favor... Conversare
mos melhor sobre isto. Prometo que no farei nada que no
queira.
Ento, no dever voltar a falar sobre o que aconteceu.
Nunca mais. Temos ambos de esquecer o que me disse. No
posso ser mais nada para si do que j sou. A sua vida  aqui,
com o czar e a sua famlia. A minha  no ballet. No me pos
so entregar a si. No tenho nada para lhe oferecer. A minha
vida pertence ao ballet, at ser velha de mais para danar e en
to, entreg-la-ei s crianas, como Madame Markova.
Est a dizer-me que tem de ser freira para ser bailarina?
- perguntou. Era a primeira vez que ouvia tal ideia, embora
61

soubesse, pelas longas conversas que haviam tido, que Danina nunca antes estivera apaixonada.
Madame Markova afirma que uma vida impura, uma
vida que envolva homens,  uma fonte de distraces. No se
pode ser uma grande bailarina e, ao mesmo tempo, uma me
retriz - declarou  Danina rudemente,   surpreendendo  Ni-
kolai.
No  sugeri  que  se  tornasse  uma meretriz,  Danina.
O que quis dizer foi que a amava e que quero casar consigo,
se a Marie aceitar o divrcio.
E eu estou a dizer-lhe que no posso. Perteno ao bal-
let,  a minha vida,  tudo o que conheo, nasci para danar.
Para alm disso, no deixarei que destrua a sua vida por mini.
Nasceu para amar e para ser amada, para estar cercada
por um marido e filhos que a adorem, e no para danar em
salas cheias de correntes de ar e pr em risco a sua sade at
morrer ou at estar demasiado velha e desgastada para servir
para mais alguma coisa. Merece mais do que isso e quero ser
eu a dar-lho.
Mas no pode - protestou Danina com uma voz an
gustiada. - E se a Marie no concordar com o divrcio?
Ela vai adorar poder regressar a Inglaterra. O divrcio
 um preo que no se importar de pagar para reconquistar a
sua liberdade.
E o escndalo? O czar j no permitir que se aproxi
me da famlia. Tornar-se-ia um proscrito. No permitirei que
o faa. Tem de me esquecer - rematou em pranto.
Esquecerei tudo o que dissemos esta noite - proferiu
a custo -, se prometer ficar aqui. No falarei mais no assun
to. Tem a minha palavra de honra.
Est bem - concordou Danina.
Suspirou e voltou-se de costas. Parecia desesperadamente infeliz, mas no tanto quanto ele. Nikolai desejava abra-la, mas sabia que no podia.
-        Vou pensar nisso - conseguiu ainda dizer, porm no
se voltou para olhar para ele. No podia, pois continuava a
chorar. - Agora,  melhor ir.
Ele no lhe viu o rosto, apenas as costas muito direitas e o cabelo brilhante que lhe caa em cascata pelos ombros. Ansiava toc-los, abra-la.
62

- Boa noite, Danina - despediu-se, com uma voz que espelhava a tristeza que sentia. Um instante depois, ela escutou a porta fechar-se e voltou-se, soluando.
Danina ainda no acreditava no que tinham feito e no que ele dissera; no entanto, o pior de tudo, era saber que tambm o amava. Para alm disso, era um homem casado 
e ela no podia deixar que destrusse a sua vida, perdesse o seu trabalho ou os filhos por causa dela. Amava-o demasiado para permitir tal coisa. Tambm tinha as 
suas obrigaes para com o ballet. Lembrava-se bem dos constantes e terrveis avisos de Madame Markova. A sua mentora sempre lhe dissera que era diferente, que no 
precisava de um homem, que deveria manter-se pura e viver para a sua arte; o ballet deveria vir primeiro que qualquer outra coisa na sua vida. Assim fora at ento; 
porm, com Nikolai percebera que as coisas poderiam ser diferentes. Uma vida com ele significaria a felicidade eterna, mas preferia renunciar a ela, se, para a ter, 
ele tivesse de abandonar tudo o que mais amava.
Sabia que deveria regressar a Sampetersburgo, mas no suportava deix-lo, nem a ideia de no o ver todos os dias. O mesmo acontecia com ele. Agora, tudo o que tinham 
a fazer era fingir que nada acontecera, o que no seria fcil, porm Danina estava determinada em consegui-lo. Enquanto se encaminhava para o quarto e despia o vestido, 
sentiu os joelhos a tremer violentamente e teve de sentar-se. Pensou nos lbios dele junto aos seus e recordou o que sentira quando este a beijara, mas, independentemente 
do que sentia, sabia que nunca poderiam ficar juntos. No entanto, se permanecesse ali, poderiam pelo menos ver-se. Ao espelho, olhando o seu prprio reflexo, Danina 
interrogou-se mais uma vez como as coisas haviam chegado quele ponto. Fazer de conta que nada acontecera iria ser uma tarefa bem difcil.

CAPITULO 4
Nikolai no veio v-la nos dois dias que se seguiram e nem sequer compareceu no palcio. Finalmente, enviou-lhe dois livros com um bilhete onde explicava que apanhara 
uma constipao e que no quisera contagi-la. Afirmava ainda que iria v-la assim que pudesse. Danina no sabia se isso seria verdade ou no, mas, ainda assim, 
a sua ausncia era conveniente, dando aos dois tempo para se controlarem e tentarem esquecer o que acontecera.
S que, sem as visitas de Nikolai, deambulava pela casa, tentava em vo dormir e, no fim do primeiro dia, tinha uma terrvel dor de cabea e recusou tomar qualquer 
coisa que a aliviasse. As enfermeiras acharam-na estranhamente irritvel e rabugenta e ela desculpou-se mil vezes pelo seu mau humor, culpando a enxaqueca. No fim 
do segundo dia estava desanimada, perguntando-se se ele no estaria zangado, se se arrependera de tudo o que fizera e dissera, se nunca mais o veria. Suportava enterrar 
o segredo que partilhavam no fundo do seu corao, mas, compreendia agora, o que no aguentava era no voltar a v-lo.
Quando ele apareceu por fim, Danina encontrava-se na pequena sala de estar a ver a neve cair no jardim e a pensar nele e no o sentiu entrar. Quando se voltou e 
o viu ali, correu sem pensar para os seus braos, dizendo-lhe que sentira muito a sua falta. Ao princpio, Nikolai no entendeu o que queria dizer. No percebia 
se ela mudara de ideias e queria aceitar a sua proposta ou se aquelas palavras apenas significavam que tivera saudades dele.
- Tambm tive saudades tuas - proferiu numa voz ainda enrouquecida. Danina percebeu que a sua desculpa para a no ter vindo ver fora sincera e ficou aliviada. - 
Muitas - reafirmou, sorrindo. Desta vez no cometeu a imprudncia de a beijar. Resolvera aceitar a sua sugesto e estava determinado a no pisar de novo o risco, 
a menos que ela tomasse a iniciativa de o fazer. Danina tambm no fez meno de o beijar, dirigindo-se directamente ao samovar para lhe servir
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uma chvena de ch. A mo tremia-lhe ao estender-lha, mas estava radiante.
Estou to contente por teres estado realmente doen
te... No era bem isto que queria dizer... - corrigiu, rindo
pela primeira vez em dois dias. - Temia que no quisesses
voltar a ver-me.
Sabes que isso no  verdade - confessou com um
olhar que lhe dizia tudo o que desejava ouvir. Estava muito
contente por v-lo. - No queria que ficasses doente depois
de tudo por que passaste. J me sinto bem melhor.
Fico contente por sab-lo - disse Danina, um pouco
constrangida ali perto dele, mas continuando a olh-lo inten
samente. Nikolai parecia-lhe ainda mais formoso, alto e forte.
No fundo do seu corao, sabia que ele agora lhe pertencia, o
que o tornava ainda mais perfeito.
Estiveste muito doente? - perguntou solicitamente.
Estava deslumbrante no seu vestido de l cor-de-rosa que a
fazia parecer ainda mais nova. Na noite do jantar no palcio,
o vestido de veludo azul conferira-lhe uma aparncia mais
madura. Agora parecia uma rapariguinha e Nikolai teve von
tade de a beijar.
No estive to doente como tu, graas a Deus. J estou
bem.
No devias andar na rua com esta neve - admoestou.
Queria ver como estava o Alexei - explicou ele, em
bora os seus  olhos  tambm dissessem outra  coisa.  Quisera
principalmente v-la a ela.
Ficas para o almoo? - perguntou Danina educada
mente. Ele respondeu que sim com um aceno de cabea e
sorriu satisfeito com o convite.
Gostava muito - disse ento, e ambos pensaram que
podiam passar algum tempo juntos, como tinham feito at
quele momento, sem revelar o seu segredo mesmo um ao
outro. Todavia, Danina comeara j a interrogar-se sobre o
que aconteceria quando regressasse a Sampetersburgo dali a
um ms ou dois. Esquecer-se-iam um do outro ou ele iria vi
sit-la?  O  tempo  e  o  amor que partilhavam tornar-se-iam
apenas uma lembrana agradvel? A ideia de partir era j pe
nosa.
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Conversaram at quase ao fim da tarde. Danina devolveu--Ihe alguns dos livros e ele prometeu vir v-la de novo quando sasse do palcio. Quando partiu, tudo parecia 
ter voltado ao normal. No regressou naquela noite, mas enviou-lhe um bilhete. Alexei no estava bem e Nikolai e o Dr. Botkin iam passar a noite no palcio. A hemofilia 
de que Alexei sofria fazia com que necessitasse de cuidados constantes e Nikolai achara que no era sensato deix-lo naquela noite. Danina compreendeu e enroscou-se 
na cama com um dos livros que ele lhe trouxera, aliviada por o ter visto de manh. A sua ausncia depois do que se passara na noite do jantar fora bastante penosa. 
A dor de cabea havia desaparecido no momento em que o vira.
Foi novamente um alvio v-lo reaparecer na manh seguinte para tomar o pequeno-almoo, mas no pde deixar de reparar que, de repente, havia algo de mais intenso 
entre ambos. Embora tivessem concordado no voltar a discutir o que sentiam um pelo outro, era bvio que as visitas de Nikolai eram tudo para si e que este ficava 
ansioso quando no estava perto dela. No entanto, estavam ainda convencidos de que conseguiriam controlar a chama que ardia entre eles. Danina mostrava-se decidida 
a conter-se e nunca mais falar sobre isso at que morresse, mas Nikolai duvidava cada vez mais que o conseguisse, embora soubesse que teria de faz-lo ou arriscar-se-ia 
a perder Danina para sempre.
Naquele dia, Nikolai falou longamente sobre Alexei e explicou-lhe em pormenor a natureza da sua doena. Tal levou-os a uma discusso sobre o prazer de ter filhos. 
Nikolai disse-lhe que no deveria privar-se desse prazer e que tinha a certeza de que seria uma me extremosa. Danina apenas abanou a cabea e recordou-lhe o seu 
compromisso para com o ballet. Ele respondeu-lhe mais uma vez que considerava o seu zelo pouco razovel e pouco saudvel.
Madame Markova nunca me perdoaria se eu deixasse
o ballet - explicou. - Dedicou-nos toda a sua vida e conti
nuar a faz-lo. Espera o mesmo de mim.
Porqu de ti mais do que dos outros? - perguntou de
forma contundente. Ela respondeu com um olhar traquinas:
Porque sou a melhor bailarina da companhia.
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E tambm a mais modesta - brincou. - Tens razo,
s mais dotada, mas, ainda assim, isso no  motivo para que
desistas da tua vida.
O ballet  mais do que danar, Nikolai.  uma forma
de vida, um sentimento, uma parte da nossa alma, uma reli
gio.
Es doida, Danina Petroskova, mas eu amo-te - rema
tou. As palavras escaparam-se-lhe sem querer. Olhou na di
reco de Danina, aterrorizado; porm, ela nada disse. Sabia
que fora um acidente, por isso decidira ignor-lo.
Como, aps um nevo de dois dias, parara de nevar, decidiram passear pelo jardim. Uns instantes depois, Danina comeou a bombarde-lo com bolas de neve. Nikolai 
adorava estar com ela. O seu esprito infantil e a imensa dedicao quilo em que acreditava tornavam-na uma jovem extraordinria. Quando a deixou naquela tarde 
depois de ter passado a noite de servio no palcio, ambos se sentiam novamente  vontade um com o outro. A nuvem que se abatera sobre eles nos ltimos dias parecia 
ter-se dissipado e ambos se sentiam confiantes de que conseguiriam viver de acordo com as restries impostas por Danina. No final de mais uma semana, tudo parecia 
ter voltado ao normal.
Nikolai vinha visit-la duas vezes por dia ou mais, sempre que podia. Almoavam ou jantavam juntos frequentemente e, por vezes, chegava ainda a tempo de tomar o 
pequeno-almo-o com ela.
O tempo foi impiedoso naquele ms, o que os forou a estar sempre dentro de casa; porm, no final de Janeiro, o tempo comeou a melhorar, tal como a sade de Danina. 
A sua convalescena progredia muito bem, mas o seu regresso ao ballet estava ainda longe e Danina tambm no o forava. Quando viera, pedira a Madame Markova que 
apenas a deixasse ficar um ms, embora o mdico tivesse recomendado que ficasse at Maro ou Abril. Quando voltou a escrever a Madame Markova, disse-lhe que concordara 
em ficar at o mdico achar que estava curada. Era exactamente o que precisava e Madame Markova ficou aliviada ao sab-lo.
As gr-duquesas vinham tomar ch com Danina sempre que no estavam ocupadas a tratar dos feridos de guerra ou a
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estudar. Alexei tambm adorava vir jogar s cartas com ela. Danina parecia um membro da famlia e era tratada como tal. Foi Alexei quem lhe anunciou certo dia que 
queria que ela fosse ao baile que iria ser organizado pelo czar e pela czarina no dia um de Fevereiro. Era o primeiro que davam em largos meses. A czarina entristecera-se 
ao ver que as filhas h muito no se divertiam, sempre ocupadas com as suas funes no hospital, e convencera o marido de que um baile alegraria toda a gente. Depois 
de convidar Danina, Alexei informou a me de que gostaria que ela fosse convidada.
A czarina afirmou que nada lhe daria mais prazer e, sem mesmo esperar por uma resposta, enviou-lhe, como anteriormente para o jantar informal, uma srie de vestidos. 
Desta vez, eram ainda mais deslumbrantes e Danina ficou maravilhada.
Havia vestidos de seda, de cetim, de veludo e brocado, dignos de uma rainha ou de uma czarina. Danina quase se sentia constrangida de os usar. Por fim, escolheu 
um de cetim branco, com um corpete de brocado entretecido de fios de ouro e bem justo  cintura. Parecia, como Alexei comentara quando ela o experimentou, uma princesa 
de um conto de fadas. Nikolai ainda no o tinha visto, mas j ouvira comentar que o vestido era maravilhoso. A capa de cetim branco que fazia conjunto com o vestido 
era revestida com o mesmo brocado do corpete e guarnecida a arminho.
O vestido era, de facto, deslumbrante e, com os seus cabelos escuros, Danina estava mais bela que nunca. O vestido parecia-lhe o mais belo que jamais vira ou alguma 
vez sonhara usar. Nikolai ficou contente por saber que ela aceitara o convite da czarina. Tal como anteriormente, advertiu-a de que no se cansasse e que regressasse 
a casa assim que se sentisse fatigada, mas no tinha quaisquer objeces a que comparecesse ao baile e ofereceu-se mais uma vez para a acompanhar.
O baile era um evento raro nos dias que corriam, pois a famlia imperial cancelara todos os acontecimentos sociais formais devido  guerra. Poderia passar-se muito 
tempo at que se organizasse outro. O czar regressaria da frente expressamente para a ocasio e toda a gente se alegrava com o facto de ele estar presente.
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A tua mulher no vir nem a este baile? - perguntou
Danina cautelosamente a Nikolai no dia anterior ao baile. Ele
abanou a cabea com um ar aborrecido. No passado, teria di
to a Marie que era muito indelicado da sua parte recusar o
convite, contudo, desta vez nem sequer se importava, por ra
zes bvias para Danina. J prometera a si mesma que dana
ria com ele uma ou duas vezes, se a convidasse, mas que isso
no significaria nada. A revelao que lhe fora feita h duas
semanas parecia ter passado para segundo plano. Eram mais
uma vez apenas amigos e nada mais comprometedor.
Claro que no - respondeu Nikolai. - Ela detesta
bailes e qualquer coisa que no envolva cavalos. - Depois,
mudou de assunto e sorriu ao revelar-lhe que Alexei confes
sara que Danina estava "muito bem" no vestido que a me lhe
emprestara. S que "muito bem" no preparara de forma al
guma Nikolai para o que veria quando Danina emergiu do
quarto com o vestido de cetim branco e brocado debruado a
arminho. Parecia uma jovem rainha com o cabelo preso em
cima, formando uma coroa de pequenos caracis, e os brin
cos de prola que eram a nica coisa que a me lhe deixara.
Danina estava contente por se ter lembrado de os trazer con
sigo.
Nikolai ficou sem flego quando a viu e, durante um momento, no foi capaz de pronunciar uma nica palavra. Tinha os olhos marejados de lgrimas e s rezava para 
que Danina no reparasse.
Estou bem? - perguntou nervosamente, como faria a
um dos irmos.
Nem sei o que dizer. Nunca vi ningum to belo co
mo tu.
No sejas pateta - repreendeu, sorrindo -, mas obri
gada. O vestido  maravilhoso, no achas?
Em ti, sim.
A cintura dela era do tamanho da de uma criana e o cor-pete revelava um pouco do seio, sem ser vulgar ou ofensivo. De fraque, Nikolai era o acompanhante perfeito 
e, de brao dado, encaminharam-se para o Palcio de Catarina. O palcio ficava tambm em Tsarskoie Selo. Era bem mais grandioso e ornamentado que o Palcio de Alexandre, 
onde a famlia im-
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perial residia, e fora remodelado por Catarina, a Grande. O projecto original era da autoria de Rostrelli. As belssimas cpulas de ouro tornavam-no extremamente 
formal e cerimonioso. A czarina preferia usar o Palcio de Catarina apenas para eventos oficiais, embora actualmente parte dele estivesse a ser utilizado para cuidar 
dos soldados feridos que voltavam da frente.
Mesmo entre os magnficos vestidos, jias e membros de famlias reais, Danina causou grande sensao. Toda a gente queria saber quem era, de onde vinha. Vrios jovens 
nobres estavam convencidos de que era uma princesa. O seu porte rgio e a forma graciosa como se movia atraam a ateno de todos. Assim que viu a czarina, agradeceu-lhe 
discretamente o vestido que escolhera.
-        Fique com ele, minha querida.  Nenhuma de ns o
conseguir usar da mesma forma que a Danina.
Percebeu de imediato que a czarina estava a ser sincera, ficando ainda mais sensibilizada com a sua contnua generosidade e bondade.
O jantar para quatrocentos convidados foi um sucesso. Aps o jantar, os cavalheiros retiraram-se durante um curto espao de tempo para a famosa Sala de mbar, juntando-se 
novamente aos restantes convidados na Sala do Trono onde decorreu o baile. Foi uma noite magnfica. O entusiasmo e energia de Danina pareciam interminveis. Estava 
emocionada s de estar ali. Era uma noite que jamais esqueceria.
Quando Nikolai a convidou para danar sentiu o corao agitar-se, mas nem por um instante permitiu que se recordasse do que ele lhe confessara h duas semanas atrs. 
Esse captulo da vida deles estava j encerrado. Tudo o que agora existia entre ambos, dizia Danina para consigo mesma, era camaradagem e amizade. No entanto, o 
olhar dele enquanto danavam dizia algo bem diferente. Nikolai sentia-se extremamente orgulhoso dela e o modo como a segurava expressava a Danina tudo o que no 
lhe podia dizer. At o czar comentou qualquer coisa com a esposa enquanto danavam.
Parece-me que o Nikolai est apaixonado pela nossa
hspede - disse em jeito de observao.
No creio, meu querido - negou a czarina. Vira-os
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juntos em vrias ocasies e nunca reparara em nada de imprprio na amizade ou no comportamento deles.
 uma pena que esteja casado com aquela desagradvel
inglesa - disse o czar, e a czarina respondeu-lhe com um
sorriso. Tambm no gostava de Marie.
Acho que o Nikolai est apenas preocupado com o
bem-estar da Danina - declarou, totalmente convencida do
que afirmava.
Est lindssima naquele vestido.  um dos teus?
A czarina trazia um espectacular vestido de veludo vermelho ornamentado com um conjunto de jias de rubis pertencentes  me do czar. Era uma mulher muito bela e 
o czar amava-a muito. Ambos estavam felizes por ele se encontrar de novo em casa e poderem esquecer a guerra por alguns momentos.
Na verdade, o vestido  da Olga, mas assenta muito
bem  Danina. Disse-lhe para ficar com ele.
Ela  muito bonita - confessou e depois sorriu para a
mulher. - Mas tambm tu, meu amor. Os rubis da minha
me ficam-te muito bem.
Por fim, pararam de danar para circularem entre os convidados. A festa estava a ser um sucesso. Nikolai e Danina danaram durante metade da noite. Era difcil acreditar 
que estivera to doente e, nos braos dele, no se sentia nem um pouco cansada. J passava da meia-noite quando ele finalmente insistiu para que ela se sentasse 
um pouco a fim de descansar antes que ficasse completamente exausta. Danina estava a divertir-se tanto que no queria parar de danar nem por um minuto.
Nikolai trouxe-lhe uma taa de champanhe. As faces de Danina estavam coradas, os olhos mais azuis do que nunca e o peito atraente e macio. Nikolai teve de se obrigar 
a desviar o olhar durante um momento; porm, quando olhou novamente para ela, descobriu que no conseguia resistir-lhe e, instantes depois, estavam a danar outra 
vez e ela parecia-lhe mais feliz e bela que nunca.
-        Sinto-me um fracasso como guardio da tua sade -
confessou Nikolai enquanto danavam mais uma valsa. A ni
ca vez que danara com a mulher fora no dia do casamento.
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- Deveria obrigar-te a ir para casa descansar, mas no consigo. Receio que vs ficar exausta ao ponto de te sentires doente amanh.
-        Ter valido  a pena - argumentou,  olhando-o  nos
olhos.  Nikolai desejou que a noite no terminasse nunca.
Passava j das trs horas da manh quando resolveram partir, contando-se entre os ltimos convidados a sair da festa. Fora uma noite inesquecvel. O czar e a czarina 
agradeceram a presena de Danina e, tal como Nikolai, exprimiram o desejo de que no tivesse prejudicado a sua sade ao deixar-se ficar at to tarde quando talvez 
devesse estar a descansar.
-        Amanh fico o dia todo na cama - prometeu, e a
czarina recomendou-lhe que fizesse isso mesmo. Seria uma
pena se adoecesse de novo por causa da festa.
Sentiu-se ainda bem-disposta quando chegaram a casa. A noite estava maravilhosa, o cu estrelado, o cho coberto de neve e Danina no deixava de pensar na festa. 
Tinha danado com vrias pessoas, mas a maior parte da noite fora passada nos braos de Nikolai, o que muito lhe agradara. Comentava ainda alegremente a festa quando 
entraram em casa e ele a ajudou a tirar a capa de arminho. Tal como acontecera durante toda a noite, no conseguia tirar os olhos dela e deixar de admirar a sua 
beleza. Era, sem dvida, a mulher mais encantadora que estava na festa.
Queres beber alguma coisa? - perguntou Danina. Es
tava demasiado excitada para ir dormir e no queria que a
noite terminasse ainda. Nikolai era da mesma opinio, por is
so, serviu-se de um pouco de brande e foram sentar-se frente
 lareira a conversar sobre a festa. Danina surpreendeu-o sen
tando-se aos seus ps com o seu magnfico vestido e recostan
do a cabea nos seus joelhos. Pensava no baile e sorria distrai-
damente para a lareira enquanto ele lhe acariciava o cabelo e
saboreava o prazer de a ter ali encostada a si.
Nunca esquecerei esta noite - asseverou Danina, feliz
por estar ali com ele, no desejando mais nada.
Nem eu - declarou Nikolai, acariciando-lhe o brao
com a mo e pousando-a depois sobre o seu ombro. Danina
parecia-lhe  to  delicada,  to  frgil.  -  Sinto-me  to  feliz
quando estou contigo - confessou, temendo ir novamente
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longe de mais e  ofend-la.  Era to  difcil reprimir o que sentia.
Tambm eu, Nikolai. Somos muito afortunados por
nos termos encontrado - disse, no tencionando provoc-lo,
mas antes celebrar a amizade que os unia. S que as palavras
dela tornavam a situao ainda mais difcil para Nikolai.
Fazes-me sonhar de novo - afirmou tristemente -
com coisas das quais desisti h muito. - Aos trinta e nove
anos, sentia que grande parte da sua vida pertencia j ao pas
sado, um passado de esperanas perdidas, desiluses, dissabo
res. Agora, desde que a conhecera, atrevera-se a sonhar de
novo, mas no podia concretizar tal sonho ao lado da mulher
que amava. - Adoro estar contigo.
Depois, seritindo-se demasiado longe dela, deixou-se escorregar para o cho e ficaram, lado a lado, olhando o lume e pensando nos seus sonhos. Colocou ento o brao 
em redor dos ombros dela e disse-lhe:
No quero magoar-te nunca, Danina. Quero que sejas
sempre feliz.
Sinto-me feliz aqui - disse do fundo do corao, em
bora tambm fosse feliz no ballet. Na verdade, nunca conhe
cera a infelicidade, apenas longas e rduas horas de trabalho,
uma severa disciplina e uma grande devoo pela razo da sua
vida, o bailado. A sua vida fora sempre marcada pela paixo.
Voltou-se  para  ele  e  reparou  que  havia  lgrimas  nos  seus
olhos,  como ao princpio  da noite,  quando a vira sair do
quarto. Desta vez via-as claramente. - Ests triste, Nikolai?
- Sabia que a vida dele no era fcil. Embora preferisse no
pensar nisso, sabia que era muito infeliz em casa com uma
mulher que no o amava.
Talvez um pouco, mas feliz por estar aqui contigo.
Mereces mais do que isso - confessou-lhe, perceben
do que Nikolai exigia muito pouco dela e, todavia, lhe entre
gava o seu corao completamente. De repente, sentiu-se in
justa para com ele. Silenciara-o por motivos egostas, para no
se sentir incomodada, pois no sabia como agir, mas, no fun
do, obrigara-o a negar os seus sentimentos. - Mereces ser
muito feliz por todo o bem que fazes a todos que te rodeiam.
Ds tanto de ti a tanta gente... E a mim - acrescentou.
73

Desejava ter mais para te dar. A vida por vezes  cruel,
no achas? S encontramos aquilo que procuramos quando j
 tarde de mais para o termos.
Talvez  no  seja  -  murmurou  Danina,   sentindo-se
atrada por ele como nunca se sentira por nenhum homem,
excepto quando a beijara. Nikolai no se atreveu a perguntar-
-Ihe o que queria dizer com aquilo, limitando-se a olh-la
intensamente. Os olhos de Danina chamavam-no com uma
sinceridade e amor to evidentes, que no havia maneira de
interpretar mal o convite que lhe dirigiam.
No quero magoar-te... Ou aborrecer-te. Amo-te de
masiado para o fazer - disse, tentando reprimir tudo o que
sentia por ela.
Amo-te, Nikolai - declarou e, sem hesitaes ou re
ceios, tomou-a carinhosamente nos braos e beijou-a. Era tu
do o que ambos sonhavam. Ao contrrio da primeira vez,
no foram apanhados de surpresa.
Beijaram-se longamente frente ao lume e mantiveram-se abraados at que o fogo se extinguiu e Danina comeou a tremer, de frio e da emoo que sentia.
-        Vem, ainda te constipas, meu amor. Vou deitar-te e
depois vou-me embora - murmurou ele, conduzindo-a de
pois ao quarto. - Queres que te ajude a tirar o vestido? -
perguntou solicitamente quando reparou que era uma tarefa
complicada para uma s pessoa. Danina aceitou a ajuda, pois,
de outra forma, teria de dormir com o vestido, j que no
havia nenhuma empregada ali quela hora para a ajudar.
Danina mais parecia uma criana enquanto ele a desabotoava e ajudava a sair do vestido, que revelava o corpo jovem, elegante e gil de uma bailarina. Ela mirava-o 
com um olhar que era um misto de inocncia e desejo.
-J  muito tarde para ires para casa - sussurrou cautelosamente, no sabendo bem o que lhe dizer, ou como diz--lo. Nunca fizera nada assim e nem imaginava como 
seria, mas tambm no conseguia imaginar no estar com ele.
O que queres dizer? - segredou Nikolai, parecendo
confuso.
Fica comigo. No temos de fazer nada que no quei
ramos. Apenas te quero aqui comigo. - O lugar dele era ali
e ambos o sabiam.
74

Oh, Danina - exclamou, sabendo que era o incio de
uma nova vida e o fim de anos de desiluso. Era para ambos
um momento pleno de esperana.
Quero tanto ficar aqui contigo. - Era tudo o que
sempre desejara desde o momento em  que a conhecera e
mais ainda desde que chegara ali. Nikolai compreendia agora
que fora por isso que fizera tudo o que estava ao seu alcance
para a trazer para ali.
Despiram-se lentamente e, algum tempo depois, encontravam-se na sua cama grande e confortvel, aconchegados debaixo dos cobertores. Danina olhou para ele por entre 
a escurido e soltou umas risadinhas.
De que te ris, minha tonta? - perguntou ele, ainda
sussurrando, como se algum os pudesse ouvir, embora que
la hora no houvesse ali ningum. Estavam completamente
sozinhos com o segredo e o amor que partilhavam.
 engraado... Tinha tanto medo do que sentia por ti
e dos teus sentimentos  e agora,  aqui  estamos,  como  duas
crianas atrevidas.
Crianas atrevidas no, meu amor, crianas felizes. Ao
fim e ao cabo, talvez tenhamos direito a isto... Talvez fosse o
que o destino ditou para ns. Nunca amei nenhuma mulher
como te amo a ti, Danina. - E com isto beijou-a intensa
mente e a paixo que sentiam fez com que lhe ensinasse tudo
o que ela nunca conhecera ou sonhara vir a conhecer. A pai
xo, o encanto e o amor que ambos haviam desejado estavam
presentes,  espera que ela os descobrisse. Enquanto Danina
dormia nos seus braos abraou-a carinhosamente e sorriu,
agradecendo a generosidade dos deuses por a terem colocado
no seu caminho.
Boa noite, meu amor - segredou-lhe antes de ador
mecer.

CAPITULO 5
O segredo que partilhavam cresceu entre eles como um prado de flores silvestres na Primavera. Nikolai vinha v-la todos os dias, como habitualmente, mas agora ficava 
durante mais tempo, conciliando as suas visitas com as suas obrigaes no palcio. A noite, quando terminava os seus afazeres, voltava para perto dela e dormiam 
juntos. Dissera  esposa que agora precisava de ficar no palcio todas as noites por causa de Alexei. Marie parecia nem sequer importar-se com isso; portanto, no 
tinha quaisquer objeces a que ficasse fora toda a noite.
Danina estava maravilhada. Nikolai ensinara-lhe coisas que a uniriam a ele de alma e corao para sempre. Partilhavam tudo, as esperanas, os sonhos, os medos de 
infncia. Apenas temiam perder-se um ao outro. No tinham ainda resolvido o que aconteceria quando Danina regressasse ao ballet, embora ambos soubessem que, mais 
tarde ou mais cedo, esse dia chegaria. Nessa altura, teriam ento de decidir alguma coisa relativamente ao futuro; por enquanto, Nikolai no tinha dito ainda nada 
 sua mulher.
At l, queriam apenas desfrutar do amor que sentiam um pelo outro, livres de qualquer deciso definitiva. No meio de tanta felicidade, Fevereiro passou a correr 
e Maro tambm. Estava ali h trs meses quando comeou finalmente a falar, com mgoa, do regresso ao ballet. S a ideia fazia-a tremer. Madame Markova j lhe perguntara 
vrias vezes quando planeava regressar aos treinos e s aulas. Levaria meses a recuperar o que perdera durante a convalescena. Comparados com a esgotante rotina 
do ballet, os modestos exerccios que ali praticava no representavam nada. Por fim, com muita pena sua, prometeu que regressaria a Sampetersburgo no final de Abril; 
porm, a ideia de deixar Nikolai era agora quase insuportvel.
Falaram seriamente sobre o seu regresso trs semanas antes de Danina partir. Nikolai achava que estava na altura de falar com Marie. Ia sugerir-lhe que regressasse 
a Inglaterra com os
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filhos. O malogro em que o seu casamento se transformara devia terminar. No entanto, no tinha ainda a certeza do que Danina queria fazer quanto ao bailei. Era urna 
deciso que s ela poderia tomar.
O que achas que a Marie dir quando lhe contares?
Acho que ficar aliviada - disse completamente con
vencido disso, embora no tivesse a certeza de que ela concor
dasse com o divrcio. Nikolai preferia no lhe falar de Dani
na por enquanto. Havia razes mais do que suficientes para
pr fim ao casamento sem ter de complicar ainda mais as
coisas.
E os rapazes? Achas que ir deixar-te v-los? - per
guntou com um ar preocupado. Era com isto que se ator
mentara antes de iniciarem a relao e o motivo por que
hesitara tanto em se entregar a Nikolai. Todavia, como ele
mesmo afirmara, tal no podia ter sido evitado, pois o destino
assim o ditara. Danina percebia agora que a sua hesitao no
passara de uma fantasia.
No sei o que far em relao aos rapazes. Talvez s os
possa ver quando forem mais velhos. - A angstia que tal
lhe provocava era bvia nos seus olhos e no passou desper
cebida a Danina. - E Madame Markova? - perguntou ele
de volta. Era uma questo igualmente complicada para ela,
embora mais simples aos olhos de Nikolai.
Falarei com ela quando regressar a Sampetersburgo -
respondeu, tentando acalmar o receio que sentia ou a sensa
o de que iria tra-la. Madame Markova esperava tanto dela
e dera-lhe tanto, que ficaria devastada se Danina abandonasse
o bailei. Contudo, para Danina tudo mudara entretanto. A sua,
vida pertencia agora a Nikolai e no podia ignorar tal facto.
Miraculosamente, o amor que partilhavam parecia ter passado despercebido a todos, excepto pelas criadas da casa de hspedes que, at ento, se haviam demonstrado 
muito discretas. Ningum da famlia imperial comentara fosse o que fosse com Nikolai, e mesmo Alexei, que passava bastante tempo com ambos, no notara nada de diferente 
entre eles.
Nas ltimas trs semanas que antecederam a separao, uma espcie de desespero apoderou-se dos dois amantes. Os tempos idlicos e perfeitos que haviam passado estavam 
pres-
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tes a terminar. Era o incio de uma nova vida e Danina estava preocupada. Se abandonasse o ballet para ficar com Nikolai, onde iria viver e quem a sustentaria? Se 
ele conseguisse o divrcio, o escndalo no lhe custaria a posio que detinha junto da famlia imperial? Havia muita coisa a ponderar, mas ele j lhe prometera 
que encontraria uni local para viver e a sustentaria, embora Danina no quisesse transformar-se num fardo para ele. Por isso, achava melhor permanecer no ballet 
at Marie partir para Inglaterra.
Nikolai decidiu falar com Marie apenas depois de Danina partir, de modo a proteg-la do escndalo que a sua resoluo pudesse provocar em casa e no palcio. Parecia 
a ambos a deciso mais sensata. Ele iria v-la  escola de ballet assim que pudesse para lhe comunicar o que acontecera e, ento, poderiam fazer planos para o futuro. 
O ballet tambm precisava de tempo para encontrar uma substituta para Danina. Embora tivesse estado doente durante meses, continuavam ainda a contar com ela para 
espectculos nesse Vero e no Inverno seguinte. Era possvel, explicara a Nikolai, que tivesse de esperar at ao fim do ano para deixar o ballet, mas ele compreendera 
a situao. Apesar das obrigaes de cada um - Nikolai no palcio e Danina nas longas sesses de treinos a que teria de dedicar-se - tentariam passar o mximo de 
tempo possvel juntos. Danina sentia-se pronta para tudo, forte e mais feliz do que nunca com o amor que sentia por ele e as promessas que haviam feito um ao outro.
Apesar disso, a ltima semana foi uma agonia para os dois. Passavam todos os momentos que podiam juntos e, pela primeira vez, a czarina notou que havia algo que 
os unia e concordou com o que o marido lhe dissera durante o baile. Tinha quase a certeza de que Danina e Nikolai estavam apaixonados. Na altura, o czar encontrava-se 
em Sampetersburgo de licena e a czarina comentou com ele as suas suspeitas.
No o censuro - disse  esposa uma noite, enquanto
Nikolai e Danina passavam uma das ltimas noites juntos na
casa de hspedes. - Ela  muito bela.
Achas que ele deixar a esposa? - perguntou a czari
na. O czar respondeu-lhe que no podia adivinhar as loucuras
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alheias. - E se o fizer; isso incomoda-te? - questionou-o mais uma vez e o chefe da famlia imperial ponderou a questo, indeciso quanto ao que faria relativamente 
ao assunto.
-        Depende do modo como o fizer. Se for feito de fornia
discreta, talvez no tenha grandes consequncias, mas se se
tornar um escndalo com grandes repercusses, terei de pen
sar melhor.
Era uma deciso sensata que tranquilizou um pouco mais a czarina. No queria perder Nikolai como mdico de Ale-xei. Interrogava-se tambm se Danina deixaria o bailei. 
Era ainda muito jovem, dedicara toda a sua vida  dana e era a mais famosa prima ballerina da companhia de bailado. Para a czarina, a opo de Danina seria um pouco 
como abandonar o convento, ou seja, uma deciso bem difcil de tomar. Sabia tambm que o ballct tudo faria para no a deixar partir, por isso, tinha pena de Danina 
e esperava que tudo corresse bem a ambos se, de facto, decidissem embarcar numa nova vida a dois. Todos se haviam afeioado muito a Danina nos meses que ali passara.
Na noite anterior  sua partida, a famlia imperial deu um pequeno jantar em que estiveram presentes as gr-duquesas e o czarviche, alguns amigos mais chegados, 
os dois mdicos e uma mancheia de pessoas que tambm tinham simpatizado muito com Danina. Foi com grande emoo que agradeceu a presena de todos, se despediu e 
prometeu voltar. A czarina convidou-a a ir passar o Vero a Livadia, como acontecera no ano anterior, e prometeu que a iriam ver danar assim que regressasse aos 
palcos.
Desta vez, ensino-te mesmo a nadar - prometeu Ale-
xei e presenteou-a com unia coisa que Danina sabia lhe era
muito querida. Era um pequeno sapo de jade de Faberg que
Alexei adorava por ach-lo muito feio. Ainda assim, ofere
ceu-lho embrulhado num desenho que fizera para esse efeito.
As irms ofereceram-lhe poemas e aguarelas feitos especial
mente para ela, bem como unia fotografia da famlia com Da
nina. Estava ainda muito comovida quando chegou  casa de
hspedes na companhia de Nikolai para a sua ltima noite
juntos.
No suporto imaginar que nos vamos separar amanh
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- disse ela tristemente depois de terem feito amor. Permaneceram nos braos um do outro a conversar at de manh. Da-nina no podia acreditar que a sua estada ali 
tivesse terminado, mesmo com a perspectiva de uma nova vida juntos. Na noite anterior, quando regressaram do jantar, Nikolai oferecera-lhe um medalho de ouro preso 
a uma corrente com a fotografia dele. Parecia-se tanto com o czar naquela fotografia que, ao princpio, Danina at ficou um pouco confusa. Mas era de facto Nikolai 
e ela prometeu-lhe que o usaria sempre.
As ltimas horas foram uma agonia e ambos choravam quando ele a colocou no comboio que faria o curto percurso de volta a Sampetersburgo. Danina no quisera que Nikolai 
a acompanhasse com medo que Madame Markova percebesse imediatamente o que acontecera entre ambos. Acreditava que a sua mentora possua poderes ocultos e que era 
omnisciente e omnividente. Nikolai concordara, pois ia nessa mesma tarde falar com Marie. Prometeu a Danina que lhe comunicaria de imediato o resultado da conversa.
Contudo, enquanto permanecia na plataforma a ver o comboio afastar-se e a acenar-lhe, sentia que um captulo da sua vida que tanto amara, estava prestes a encerrar-se. 
Danina manteve-se debruada na janela at j no o distinguir. Acenava-lhe de volta e com a outra mo apertava o medalho. Enquanto o comboio se afastava, Nikolai 
ainda gritara que a amava e beijara-a tantas vezes antes de sarem de casa, que ela tivera de pentear-se duas vezes e ainda sentia os lbios doridos. Eram como duas 
crianas foradas a separar-se dos pais. A ideia fez Danina recordar-se do dia em que o pai a levara para ir viver na escola de bailei. Estava agora to aterrorizada 
como nesse dia, possivelmente at mais.
Madame Markova encontrava-se  sua espera na estao quando chegou a Sampetersburgo. Parecia mais alta, mais magra e mais severa do que nunca. Danina achou que a 
sua mentora envelhecera e sentiu-se como se tivesse estado ausente durante muitos anos. Madame Markova beijou-a terna-mente e parecia muito contente por v-la. Apesar 
de tudo o que acontecera enquanto estivera fora, sentira muitas saudades da sua mentora.
- Ests com ptimo aspecto, Danina. Pareces feliz e descansada.
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Obrigada, Madame Markova. Toda a gente foi muito
simptica para mim.
Foi o que depreendi das tuas cartas - disse Madame
Markova. A sua voz revelava um tom, uma severidade que
Danina esquecera. Era o que levava toda a gente a exceder as
suas capacidades para lhe agradar. A viagem de txi at  es
cola decorreu calmamente e Danina tentou preencher os si
lncios que se instalavam com as suas aventuras no seio da fa
mlia imperial e as festas a que fora, mas ficou com a distinta
impresso de que, de alguma forma, desagradara  sua mento
ra. Tal fez com que ansiasse ainda mais pela vida que deixara
para trs em Tsarskoie Selo. No entanto, sabia que agora era
altura de voltar s suas obrigaes.
Quando recomearei as aulas? - perguntou Danina
enquanto o txi percorria as ruas que ela to bem conhecia.
Amanh de manh. Sugiro que comeces a exercitar-te
esta tarde para te preparares. Presumo que nada fizeste para
manter a fornia durante a tua convalescena - alvitrou Ma
dame Markova. Para alm dos poucos exerccios dirios que
Danina executara, Madame Markova presumira bem e no
pareceu nada satisfeita quando Danina o confirmou, acenando
que sim com a cabea.
O mdico no achou prudente, madame - explicou e
nem sequer se deu ao trabalho de mencionar a meia hora de
exerccios que fazia diariamente, pois sabia que, para a sua
mentora, isso representaria um esforo insignificante.
Madame Markova continuou a olhar em frente e nada disse. O ambiente entre ambas anuviava-se.
Quando Danina comeou a vislumbrar o velho edifcio da escola de ballet, o seu corao encheu-se de tristeza. Fora colocada no seu antigo quarto; porm, em vez de 
sentir que regressava a casa, apercebeu-se de forma ainda mais intensa da distncia que a separava de Nikolai e das noites que haviam passado na magnfica casa de 
hspedes. No imaginava passar uma noite sem ele, mas teria de ser. Tinham ambos um longo caminho a percorrer individualmente at que pudessem estar de novo juntos, 
talvez para sempre.
Danina pensara dizer alguma coisa a Madame Markova sobre os seus planos assim que chegasse; porm, decidira es-
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perar at ter notcias de Nikolai sobre o divrcio e o regresso de Marie a Inglaterra. Tudo dependeria do andamento das coisas, mas, por baixo da blusa, o medalho 
dava-lhe algum conforto e esperana.
Toda a gente estava a fazer aquecimentos, ou a ensaiar, ou a exercitar-se quando Danina chegou e no havia ningum no quarto que deixara h quatro meses atrs. Este 
parecia-lhe agora estranho e feio. Apressou-se a vestir um maillot e a colocar as sapatilhas e correu escada abaixo para o estdio onde habitualmente fazia os aquecimentos. 
Quando l chegou, viu Madame Markova sentada a um dos cantos a observar os outros. A sua presena fez Danina sentir-se um pouco constrangida, mas no perdeu tempo 
e foi fazer exerccios para a barra. Ficou estupefacta ao descobrir que o seu corpo se tornara pouco flexvel, os movimentos desajeitados e que as pernas se recusavam 
a fazer aquilo para que haviam sido treinadas.
Tens muito trabalho  tua frente, Danina - comen
tou Madame Markova asperamente. Era verdade.  O corpo
tornara-se seu inimigo em apenas quatro meses, e no fazia
nada do que esperava dele. Nessa noite, quando se foi deitar,
cada msculo que usara pela primeira vez em quatro meses
estava dorido. Mal conseguiu dormir com tantas dores e cus
tou-lhe muito levantar-se no dia seguinte. O efeito dos lti
mos meses de indolncia e felicidade fora brutal, no menos
que o rigoroso treino a que se entregou s cinco da manh.
Estava na primeira aula s seis e trabalhou at s nove horas
da noite, quase sempre sob a vigilncia de Madame Markova.
Parece que o teu dom no se desperdiou - disse de
forma bem severa aps a primeira aula, avisando-a depois,
ainda mais rispidamente, que nunca recuperaria o que havia
perdido se no ultrapassasse os seus limites. - Se no estive
res disposta a pag-lo com sangue, Danina, no o mereces -
continuou, visivelmente furiosa, ao ver o que a sua pupila
preferida perdera nos meses em que estivera ausente. Recor
dou-lhe ainda que o seu lugar como prima ballerina no era al
go que o ballet lhe devesse, mas uma honra que teria de con
quistar se pretendesse recuperar a sua posio.
Danina estava em lgrimas quando se deitou naquela noi-
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te. Ento, no final do segundo dia, completamente exausta, escreveu a Nikolai a contar-lhe os horrores por que estava a passar e o quanto sentia a falta dele, mais 
do que julgara possvel quando se haviam separado.
A tortura a que a sujeitaram continuou e, no final da primeira semana, Danina lamentava j ter regressado ao ballet, principalmente porque o iria deixar. Para que 
servia tudo aquilo e o que teria de lhes provar, se ia voltar para Nikolai e deixar de danar? No entanto, achava que devia terminar de forma honrosa, que o devia 
ao ballet, e, mesmo que isso a matasse, estava determinada a cumpri-lo. No entanto, no estado de exausto e de sofrimento em que se encontrava, esse objectivo parecia-lhe 
no s desejvel como altamente provvel.
No fim da segunda semana, Madame Markova chamou-a ao seu gabinete. Danina estranhou, interrogando-se sobre o que isso quereria dizer. Nos ltimos treze anos, raramente 
l tinha estado, embora soubesse de outras bailarinas que emergiam de l sempre em lgrimas para, muitas vezes, abandonarem o ballet em poucas horas. Danina questionava-se 
se era esse o seu destino agora. Madame Markova estava sentada muito hirta  sua secretria, frente a Danina, e olhou-a bem fundo nos olhos antes de comear a falar.
-J percebi o que aconteceu pela forma como danas e pelo modo como tens trabalhado. No precisas de me contar nada, se no quiseres - disse sem rodeios. Danina 
planeava contar-lhe tudo, embora no dessa forma, no naquele momento. Esperava notcias de Nikolai; porm, at ento, nem um bilhete enviara e j comeava a ficar 
preocupada. Madame Markova tinha razo: por vezes, o seu amor por Nikolai distraa-a e no lhe permitia que se entregasse completamente  dana como outrora. Era 
mais um fenmeno espiritual do que fsico, o que tornava ainda mais espantoso o facto de a sua mentora ter descoberto.
- No estou a entender, madame. Tenho trabalhado arduamente desde que cheguei - retorquiu Danina com vontade de chorar. No estava habituada a ser repreendida ou 
a ver o seu trabalho depreciado pela sua mentora. Madame Markova sempre se orgulhara muito dela. Agora era bvio que j no. Na verdade, estava furiosa com Danina.
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Tens trabalhado muito, mas no o suficiente. Falta-te
a convico, no te entregas totalmente. Sempre te disse que
a rnenos que estejas disposta a conceder cada gota de sangue,
cada pedao de alma e corao, no sers nada. No te maces
com o bailado, vai vender flores para a rua, vai limpar casas
de banho para qualquer parte que sempre sers mais til. No
h nada pior do que uma bailarina sem nada para dar.
Estou  a  esforar-me,   madame.  Estive  ausente  muito
tempo. No estou ainda to forte como antes - explicou-se
Danina, j com as lgrimas a correrem-lhe pelas faces abaixo.
Todavia, Madame Markova no demonstrava qualquer emo
o para alm de desdm e raiva. Olhava para Danina como
se esta a tivesse trado.
 do teu corao que estou a falar, da tua alma, no
das tuas pernas. Essas recuperaro, o teu corao jamais, se o
deixaste  em outra parte.  Tens  de  escolher,  Danina.   Com
o bailado    sempre uma questo  de  opo.  A menos que
queiras ser como as outras. Nunca o foste. Eras diferente.
No podes ter ambas as coisas. No podes ter um homem, ou
homens, e ser uma grande prima ballerina. Nenhum homem
vale a tua carreira... Nenhum homem merece o bailado. No
final, acabaro por te desiludir. Ests a enganar-te a ti mesma.
Voltaste para mim completamente oca, como uma qualquer
bailarina do corpo de baile. No s ningum. J no s uma
prima ballerina - bradou Madame Markova. Foi um choque
tremendo para Danina,  que quase lhe quebrou o corao.
Isso no  verdade. Ainda tenho o meu dom, apenas
tenho de trabalhar mais.
J te esqueceste de como isso se faz. J no te preo
cupas. H algo na tua vida que amas mais do que o ballet.
Posso v-lo, at cheir-lo. A tua dana tornou-se pattica. -
S de ouvi-la, Danina arrepiava-se, e ao olhar para os olhos
da sua mentora percebeu que no tinha segredos para ela. -
 um homem, no ? Por quem te apaixonaste? Que homem
vale isto tudo? Ser que tambm te ama? s louca se sacrifica
res tudo por ele.
Houve ento um grande silncio entre as duas, enquanto Danina pesava as palavras e o que iria dizer-lhe.
-         um homem maravilhoso - revelou finalmente - e
amamo-nos muito.
84

Agora s uma meretriz como as outras, as mais reles
que danam para se divertirem e para quem o ballet nada sig
nifica. Devias era estar a danar nas ruas de Paris e no no
Mariinsky. No pertences aqui. Fartei-me de te dizer que no
podias ser como elas. Tens de escolher, Danina.
No posso desistir da minha vida para sempre, madame,
por muito que ame o bailado. Quero fazer o que est certo,
quero ser uma grande bailarina, quero ser justa para consigo,
mas tambm o amo.
Ento, o melhor  ires embora agora. No me faas
perder tempo ou o dos teus professores.  Ningum te quer
aqui a menos que sejas o que foste anteriormente. Menos que
isso, no vale a pena. Tens de escolher, Danina, e se o esco
lheres a ele, estars a tomar a deciso errada. Posso garantir-
-to. Ele nunca te poder dar o que aqui te damos. Nunca
mais ters a sensao de estares no palco consciente de que
ningum esquecer a tua actuao. Eras assim quando partiste.
Agora, no passas de uma simples bailarina.
Danina no podia acreditar no que estava a ouvir, embora as palavras j lhe fossem familiares. J conhecia de cor a opinio de Madame Markova para quem o bailado 
era uma religio sagrada  qual se devia sacrificar a prpria vida. Ela assim fizera, por isso esperava que toda a gente seguisse o seu exemplo. Danina tambm o 
fizera at ento, mas agora j no podia. Queria que a sua vida fosse algo mais do que a actuao perfeita.
Quem  esse homem? - perguntou Madame Marko
va por fim. - Se  que isso importa...
Para mim importa, madame - rematou Danina respei
tosamente, ainda acreditando que podia fazer as duas coisas,
terminar tudo de fornia honrosa e partir para os braos de
Nikolai.
Que quer ele de ti?
Casar comigo - confessou Danina a meia voz, en
quanto Madame Markova olhava para ela com repugnncia.
Ento, o que fazes aqui?
Era muito complicado explicar e Danina tambm no o queria fazer.
-        Queria terminar as coisas consigo de forma honesta,
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talvez continuar durante o prximo ano, se me quiserem, se trabalhar arduamente e melhorar.
Porqu incomodares-te? - perguntou. Depois olhou
desconfiada para Danina e provou mais uma vez ser omnis
ciente, tal como sempre suspeitara.
Ele j  casado?
Seguiu-se mais um profundo silncio, mas, desta vez, Danina no respondeu.
-        Es ainda mais tola do que eu pensava, pior do que
qualquer uma dessas meretrizes. A maioria delas ainda arranja
marido, engorda e tem filhos. No valem nada, mas tu ento,
desperdias o teu talento num homem que j tem mulher.
Enoja-me pensar no que andas a fazer e no quero saber mais
nada sobre isso. Agora, Danina, quero que trabalhes como
costumavas, como s capaz de fazer, como me deves, e den
tro de dois meses quero que me digas que tudo est termina
do e que sabes que esta  a tua vida e sempre ser. Tens de
sacrificar tudo por ela, tudo... E s ento ter valido a pena,
s ento conhecers o verdadeiro amor. O bailado  o teu
amor, o teu nico amor. Esse homem  um disparate. No
significa nada para ti, apenas te magoar. No quero ouvir
nem mais uma palavra sobre isto. Agora, volta ao trabalho. -
Com um aceno de mo, indicou-lhe a porta de forma to di
recta e intransigente que Danina saiu do gabinete de imediato
e voltou s aulas a tremer com o que acabara de ouvir.
Era esse o tipo de sacrifcio que a sua mentora esperava. Queria que desistisse de tudo, at de Nikolai, mas Danina no podia, no queria. No lhes devia isso. No 
tinham o direito de esperar isso dela. No queria ser mais uma louca fantica sem vida para alm do bailado, sem filhos, sem marido, sem recordaes para alm dos 
espectculos que se sucediam ao longo do ano e que, no fundo, nada significavam.
Danina tentara explicar isso a Nikolai, tentara dizer-lhe o que o bailei esperava dela; porm, ele no acreditara. Era isto que queriam, a sua alma e a promessa 
de que terminaria tudo com Nikolai, mas ela no o faria, independentemente do que isso lhe custasse. A raiva que sentia f-la trabalhar ainda com mais afinco nas 
aulas e na barra. Comeou a fazer os aquecimentos s quatro da manh e continuava a treinar at s dez
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da noite. No comia, no parava, no dormia. No fazia mais nada a no ser impelir o seu corpo a ultrapassar o limite. Era o que queriam dela.
Duas semanas mais tarde, quando Madame Markova a chamou novamente ao seu gabinete, estava escanzelada e exausta e no fazia a mnima ideia do que a mentora lhe teria 
para dizer desta vez. Talvez lhe fosse ordenar que deixasse o ballct, o que at seria um alvio. Era incapaz de se esforar mais e ainda no tivera notcias de Nikolai. 
J se tinham passado trs semanas desde a separao e o silncio dele quase a levava  loucura. No respondera a nenhuma das suas cartas. De repente, interrogou-se 
se haviam sequer sido enviadas. Deixara-as no salo de entrada, como sempre fizera, junto do restante correio do ballct, mas talvez estivessem a ser postas de parte 
e colocadas no lixo. Pensava sobre isso quando entrou no gabinete de Madame Markova e estremeceu quando o viu ali sentado. Era Nikolai e parecia estar em amena conversa 
com Madame Markova. Quando Danina entrou, voltou-se para ela e sorriu. S de o ver ali, sentiu o corao bater mais forte e as pernas quase sem fora.
O que est a fazer aqui? - indagou, espantada. Inter
rogava-se se Nikolai contara tudo  sua mentora, mas com
preendeu imediatamente pelo olhar dele que nada revelara.
Apressou-se a explicar a sua presena, ou antes o pretexto que
o levara ali, para que Danina soubesse o que haveria de dizer.
Vim ver como estava, Miss Petroskova, por ordem do
prprio czar, visto que ningum soube nada de si desde que
partiu.  A czarina andava muito  preocupada - esclareceu,
sorrindo amavelmente para Madame Markova, que fez um ar
um pouco  constrangido  e  desviou  o  olhar por alguns  se
gundos.
No receberam as minhas cartas? Ningum? - espan
tou-se Danina com um olhar horrorizado quando ele confir
mou as suas suspeitas. - Tenho-as deixado para serem envia
das, como sempre fao. Talvez no estejam a ser enviadas -
protestou Danina. Madame Markova continuou a olhar para
a secretria e no pronunciou uma nica palavra.
E como se tem ento sentido? Est bastante plida e
bem mais magra do que quando nos deixou. Receio que es-
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teja a esforar-se demasiado.  isso? No pode exagerar dessa forma depois de ter estado to doente.
Ela tem de treinar de novo - declarou Madame Mar-
kova bruscamente - e ganhar disciplina. O corpo dela es
queceu quase tudo o que aprendeu. - Todavia, Danina sabia
to bem como a sua mentora que isso no era verdade. Niko
lai parecia preocupado.
Tenho a certeza de que recuperar a sua antiga forma
muito em breve - asseverou de forma amvel. - Ainda as
sim, no dever exagerar. Sabe disso com certeza, Madame
Markova - concluiu com um sorriso, parecendo muito for
mal e profundamente preocupado. - E agora, poderia con
versar em privado com a minha doente? Trago uma mensa
gem pessoal do czar e da czarina.
Era impossvel lutar contra um argumento daqueles e, apesar do olhar de desaprovao de Madame Markova, Danina e Nikolai deixaram o gabinete juntos. Era bvio que 
desconfiava do mdico, mas no tinha a certeza se seria ele a razo por que Danina a atraioara e, claro, no se atrevia a acus-lo de nada. Ao invs, deixou-os 
abandonar o seu gabinete calmamente. Danina conduziu-o ao pequeno jardim no andar trreo. Fazia ainda um pouco de frio e teve de colocar um xaile sobre os ombros. 
Nikolai estava preocupado por v--la to magra e cansada e ansiava por abra-la.
Ests bem? - sussurrou enquanto se sentavam no ban
co do pequeno jardim. - Sinto tanto a tua falta... E fiquei
to preocupado quando no tive notcias tuas.
Devem deitar as minhas cartas fora. A partir de agora,
passarei a envi-las eu mesma - declarou, embora s Deus
soubesse quando lhe dariam algum tempo livre para o fazer.
- O que aconteceu? - perguntou, preocupada, mas sorrin
do para ele. Estava to feliz por o ver. - Est tudo bem con
tigo, Nikolai?
Claro...   Danina,   amo-te...  -  declarou,   angustiado.
A dor que a ausncia dela lhe provocara fora quase insupor
tvel.
Tambm te amo - murmurou ela e entrelaaram os
dedos.
Sem que disso se apercebessem, Madame Markova vigia-
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va-os de uma janela do andar superior e, embora no conseguisse perceber o que diziam, viu-os de mos dadas e teve assim a confirmao das suas suspeitas. Apertou 
ento os lbios, que formaram um trao fino de desprezo e determinao.
-J falaste com a Marie? - perguntou Danina.
O sobrolho de Nikolai carregou-se antes de acenar que sim com a cabea.
Uns dias depois de tu partires - confirmou, mas no
parecia contente com o resultado da conversa. Danina perce
beu de imediato que algo no correra bem.
O que disse ela?
Fora uma horrvel troca de palavras e a desunio entre ambos acentuara-se desde ento, mas Nikolai no fazia tenes de perder aquela batalha.
-        No vais acreditar, Danina. Ela no quer regressar a
Inglaterra. Pretende ficar na Rssia. Depois de quinze anos
a ameaar que se ia embora e a atirar-me  cara o quanto de
testava viver aqui,  agora que lhe ofereo a liberdade,  no
quer ir-se embora.
Danina estava obviamente desiludida com o que acabara de ouvir e teve mesmo de fazer um esforo para conter as lgrimas.
E o divrcio?
Tambm no quer divorciar-se. No v razo para nos
separarmos. Admite estar to infeliz quanto eu, mas afirma
que a felicidade no casamento j no lhe diz nada e que no
quer passar pela humilhao de um divrcio. Ainda que quei
ramos viver juntos, no posso casar contigo, Danina.
Nikolai parecia devastado. Nunca esperara uma tal reaco da esposa. Quisera dar-lhe tudo, uma casa, respeitabilidade, segurana, filhos, uma vida completamente 
nova, mas, agora, tudo o que Danina poderia ser para ele era uma amante. Seria ela a humilhada e no Marie.
Algum sabe de ns? O czar? - perguntou Danina,
preocupada.
Acho que suspeita de alguma coisa, porm no creio
que desaprove. Gosta verdadeiramente de ti e tem feito ques
to de mo dizer mais do que uma vez.
No te preocupes :- confortou-o Danina com um
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suspiro. - Tudo se h-de resolver a seu tempo. De qualquer forma, tenho de terminar as coisas por aqui. Esto muito descontentes comigo por ter estado tanto tempo 
ausente e Ma-dame Markova ameaa pr-me no corpo de baile e no permitir que dance como prima ballcrina. Diz que j no dano como dantes. Gostaria de voltar a danar 
como quando sa daqui e isso sempre te daria mais tempo para convencer a Marie a partir ou a dar-te o divrcio. Ternos de ser pacientes - continuou, tentando corajosamente 
parecer mais optimista.
-        No sei se consigo ser paciente - reclamou Nikolai
com um olhar infeliz. - Sinto tanto a tua falta. Quando po
ders voltar a visitar-nos?
Os dias sem ela eram mais intolerveis do que imaginara.
Talvez este Vero, se me deixarem ter frias. Madame
Markova fala em obrigar-me a ficar aqui a treinar sozinha
quando os outros partirem de frias para compensar o tempo
que perdi durante a convalescena.
Ela pode fazer isso? No  justo - protestou Nikolai,
revoltado. Queria t-la junto dele.
Pode fazer o que bem entender. Nada  justo aqui.
Veremos. Falarei com ela quando a altura se aproximar. Por
agora, temos de ter pacincia e esperar.
De qualquer forma, Nikolai queria mais tempo para conversar calmamente com Marie e tentar pelo menos que partisse para Inglaterra ou concordasse com algum tipo de 
separao.
Venho ver-te de novo daqui a poucas semanas, "por
ordem do czar" - disse, sorrindo. - Recebers as cartas que
eu te enviar?
Talvez, se as colocares num sobrescrito com o selo im
perial - respondeu ela com um olhar matreiro que o fez
sorrir.
Pedirei ao Alexei que as enderece por mim. - E de
pois, sem dizer mais nada, inclinou-se para ela e beijou-a. -
No  te  preocupes,  meu amor,  arranjaremos  uma soluo.
No podero manter-nos afastados para sempre. Apenas ne
cessitamos de mais tempo para encontrar a melhor soluo.
Mas no demasiado tempo, no suporto estar longe de ti. -
90

Estava prestes a beij-la de novo, quando sentiram a porta que dava para o jardim abrir-se e viram Madame Markova a olhar fixamente para eles.
-        Pretendes passar o resto do dia com o teu mdico, Da-
nina, ou a trabalhar? Talvez devesses estar num hospital, se
ests ainda to doente e o czar est to preocupado contigo.
Tenho a certeza de que encontraremos um bom hospital p
blico para ti, se preferes isso a danar aqui.
Danina estava j de p ao lado de Nikolai, que falou antes de ela poder.
Lamento, madame, se tomei demasiado do tempo de
Miss Petroskova. No era a minha inteno. Estava simples
mente preocupado.
Ento, bom dia, doutor Obrajensky.
Toda a sua gratido por ter salvo a vida de Danina h cinco meses atrs desaparecera, especialmente agora que sabia que era ele o inimigo que teria de combater para 
reaver a sua melhor bailarina. J no lhe restavam quaisquer dvidas sobre isso.
Nikolai beijou Danina na face antes de partir. Ela recomendou-lhe que mandasse cumprimentos seus a todos e, com um ltimo aperto de mo, abandonou o jardim e regressou 
s aulas. Nikolai sentiu-se despojado ao abandonar o edifcio onde ela vivia e trabalhava como escrava dezoito horas por dia. S desejava poder lev-la consigo, 
em vez de se ver obrigado a deix-la ali.
De volta s aulas, Danina tentava desesperadamente concentrar-se e no pensar nele enquanto Madame Markova a observava. Era implacvel na sua vigilncia. Quando, 
duas horas depois, fez por fim um intervalo, a sua mentora niirou--a com um claro desprezo, desaprovao e raiva.
-        Ento,   ele  disse-te  que  no  pode  deixar a  mulher?
Que ela no concorda com o divrcio? Que palerma, Danina
Petroskova. Isso  uma histria muito, muito antiga. Vai con
tinuar a fazer-te promessas e a quebr-las at te partir o cora
o e te custar a tua carreira como bailarina. Nunca deixar a
mulher, acredita! - exclamou Madame Markova, que pare
cia falar por experincia. Alguma coisa muito amarga do seu
passado a magoara, algo que jamais perdoara ou esquecera. -
Foi isso que ele te disse?
91

Madame Markova pressionava Danina, mas esta nunca admitiria que fora isso mesmo que Nikolai lhe viera dizer. Sabia que nunca a magoaria e no se preocupava com o 
que a sua mentora pensava dele ou com os fantasmas que do passado a assombravam.
Trazia uma mensagem para mini do czar e da czarina
- respondeu Danina calmamente.
E o que dizia? - inquiriu. Danina no lhe revelou
que queriam que os fosse visitar nesse Vero. Isso seria o gol
pe final na relao entre ambas. Sabia que no lho podia di
zer j.
Apenas que tm saudades minhas e que estavam preo
cupados com a minha sade.
Que simptico da parte deles. Que amigos to impor
tantes tens agora! Olha que j no te ajudaro quando no
puderes danar, no te querero para nada, e por essa altura o
teu mdico j te ter esquecido h muito - ripostou Mada
me Markova com uma amargura que Danina desconhecia na
sua mentora.
No  necessariamente,   madame - retorquiu  Danina
com altivez. Depois, rodou nos calcanhares e dirigiu-se para a
aula seguinte. J no estava para aguentar tudo o que lhe dizia
calada e no se importava que Marie no concordasse com o
divrcio ou no quisesse partir para Inglaterra. Podiam, ainda
assim, ter uma vida a dois. Estava disposta a ficar com ele, ca
sado ou no.
A partir dessa altura, cada dia daquele ms de Maio foi uma agonia, agravada pelas crticas e acusaes constantes de Madame Markova. Danina era acusada de ter o 
passo trocado, de estar fora de tempo e de os seus movimentos serem uma desgraa. Madame Markova gritava-lhe que os seus braos se moviam como dois troncos de madeira, 
que as pernas estavam sempre hirtas e que os saltos eram patticos. Fazia tudo o que podia para levar Danina ao ponto de ruptura. Queria que lutasse pela dana e 
desistisse de tudo o resto.
Apesar de tudo, Danina aguentou, e Nikolai veio v-la novamente em Junho, trazendo uma carta pessoal da czarina. Era o convite para que fosse passar o ms de Agosto 
inteiro a Livadia com a famlia imperial. Danina no acreditava que tal
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fosse possvel. Nada mudara em relao a Nikolai no ms que passara. Marie estava cada vez mais inflexvel em mudar-se para Inglaterra e tornava as coisas muito 
difceis no que dizia respeito aos filhos, o que surpreendia Nikolai ainda mais.
Deve ser comum as pessoas fazerem isso. Tm de tor
nar as coisas mais dolorosas, como Madame Markova tem fei
to comigo.  o seu tipo de vingana pessoal, pois na ideia de
les j no lhes pertencemos. Se a czarina quiser realmente que
eu v, ter de ordenar a Madame Markova que me deixe ir,
pois, caso contrrio, no poderei aceitar o convite.
No podem fazer-te isso - queixou-se Nikolai. -
No s escrava deles.
-        Mais valia ser - disse com um ar exausto.
Quando partiu, prometeu a Danina que seria o prprio
czar a dar essa ordem a Madame Markova.
Ao chegar ao palcio, Nikolai contou tudo ao czar e pediu a sua ajuda para levar Danina para Livadia. O czar ficou bastante comovido com as palavras do mdico e 
prometeu fazer o que pudesse, embora, do que conhecia do ballet, soubesse que eram muito rigorosos e exigentes com os seus melhores bailarinos.
-        Talvez nem me dem ouvidos. Acham que apenas res
pondem a Deus e nem sei se a Ele o escutam - avisou o
czar, sorrindo.
A carta que chegou s mos de Madame Markova em Julho no podia ser ignorada, nem mesmo por ela. O czar explicava que a sade do czarviche dependia da presena 
de Danina em Livadia, pois Alexei apegara-se extraordinariamente  bailarina e ficara inconsolvel com a sua ausncia. Assim, o czar pedia a Madame Markova que permitisse 
a Danina juntar-se a eles.
Quando Danina foi chamada ao gabinete da sua mentora, os olhos desta faiscavam de raiva que tentava conter, cerrando os lbios. As suas nicas palavras foram que 
acompanharia Danina durante a sua estada de um ms em Livadia. Todavia, no era isso que Danina queria ouvir e estava disposta a lutar pelo que achava justo. Trabalhara 
arduamente para o ballet durante trs meses quase at ao ponto de exausto e agora deviam-lhe esse tempo junto de Nikolai. Era tudo o que queria e no se contentava 
com menos.
93

No, madame - declarou, apanhando a mentora com-
pletamente de surpresa.  O seu tom era o de uma mulher
adulta e j no o de uma criana obediente.
No irs? - perguntou Madame Markova, estupefac
ta. A batalha estava ganha, pensou, e os seus lbios comea
ram a esboar um pequeno sorriso, o primeiro que Danina
vislumbrava desde que voltara, em Abril, a sua mentora enca
rando Danina como uma traidora. - No queres v-lo? -
indagou. Era tudo o que desejava ouvir, a guerra fora ganha
mais facilmente do que esperara.
No, quero ir sozinha. No h razo nenhuma para
que tambm venha. No preciso de acompanhante, madame,
mas agradeo a gentileza de se oferecer para me acompanhar.
J me sinto bastante  vontade com a famlia imperial e acho
que pretendem que v sozinha.
De facto, o convite no mencionava Madame Markova e ambas o sabiam.
No permito que vs sem mim - declarou Madame
Markova, enraivecida.
Ento, terei de explicar ao czar que no poderei acatar
a sua ordem - retorquiu Danina com um olhar de determi
nao que Madame Markova nunca antes vira na sua pupila.
Ficou ainda mais decepcionada com Danina, mirando-a com
um olhar glacial.
Muito bem. Poders ir por um ms, porm, no te ga
ranto que ainda sejas prima ballerina quando estrearmos Giselle
em Setembro. Pensa muito bem nisso, Danina, antes de te
precipitares.
No h nada para pensar, madame. Se for essa a sua de
ciso, submeter-me-ei a ela.
Todavia, ambas sabiam que Danina estava a danar melhor do que nunca. Reconquistara toda a sua fora e mestria e acrescentara-lhe algumas tcnicas novas e bem mais 
difceis. A sua arte era agora uma mistura de maturidade, disciplina e talento, e os resultados do seu trabalho e amadurecimento no podiam ser ignorados.
-        Comeamos os ensaios no dia um de Setembro, como
sabes. Quero-te aqui no ltimo dia de Agosto. - Foi tudo o
que Madame Markova lhe disse antes de sair de rompante do
gabinete, deixando Danina sozinha.
94

Duas semanas mais tarde, Danina estava a bordo do comboio, sem acompanhante, e a caminho de Livadia, pensando na amizade perdida entre si e a sua mentora. Tinha 
a certeza de que Madame Markova nunca lhe perdoaria. No dirigira uma nica palavra a Danina antes de esta partir e evitara-a propositadamente quando fora despedir-se 
dela. A amizade entre ambas terminara por causa do seu amor por Nikolai, mas agora Danina no faria nada para o perder ou deixaria escapar uma oportunidade de estar 
com ele. No havia nada mais importante do que isso. Nem mesmo o ballet.

CAPITULO 6
O tempo que Danina e Nikolai passaram juntos em Liva-dia foi idlico. Ficaram numa casa de hspedes, pequena e discreta, onde viveram juntos, desta vez abertamente, 
e eram tratados como marido e mulher tanto pelo czar como pela czarina, que pareciam compreender a situao em que os amantes se encontravam.
O tempo esteve ptimo, as crianas estavam maravilhadas por v-la de novo e, fiel  sua palavra, Alexei at a "ensinou" a nadar e Nikolai ajudou "um pouco".
A nica coisa que agora lamentava era que no tivesse conhecido os seus filhos; porm, isso no era por enquanto possvel. Marie ainda no concordara com o divrcio, 
mas, pelo menos, tinha ido passar o Vero com o pai a Hampshire e levara os rapazes com ela. Nikolai esperava que estar de novo em Inglaterra a recordasse do quanto 
gostava da sua terra natal e a fizesse querer mudar-se para l. Contudo, tal parecia--Ihe uma perspectiva demasiado optimista, j que Marie fazia tenes de continuar 
casada com ele, nem que fosse s para o atormentar.
No importa, meu amor. Somos felizes assim, no so
mos? - recordou-lhe Danina quando voltaram a falar no di
vrcio. Estavam to felizes por poderem estar juntos durante
um ms inteiro. Tomavam todos os dias o pequeno-almoo
sozinhos no terrao e o resto das refeies com a famlia im
perial. Passavam o dia todo com eles, mas as longas e apaixo
nadas noites eram passadas nos braos um do outro.
Quero dar-te mais do que uma casa de emprstimo
por bondade do czar - disse Nikolai melancolicamente uma
manh, odiando Marie mais do que nunca por no lhe dar a
liberdade que merecia.
Um dia teremos mais do que isso e eu posso continuar
a danar enquanto tiver de o fazer - confortou-o Danina,
mais  conformada com o  seu  destino  do  que  ele.  Nikolai
preocupava-se com ela.
Aquela mulher ainda acaba por te matar se continuares
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por l durante muito mais tempo - queixou-se. O que quer que Madame Markova sentisse por Nikolai, esse sentimento era recproco. Desde que Danina regressara ao bailei, 
h quatro meses atrs, estava mais magra do que nunca e ficara exausta com a viagem desde Sampetersburgo. Era desumana a forma como a obrigavam a trabalhar.
Desta vez, Danina teve o cuidado de se exercitar bem todos os dias para que no perdesse a tonicidade muscular durante a sua estada em Livadia. A czarina at mandara 
instalar uma barra especialmente para ela. Alexei adorava passar horas a v-la praticar e danar. Depois dos exerccios, dava longos passeios a p com Nikolai.1 
Estava em perfeita forma fsica quando o ms chegou ao fim, mas, aps aquele perodo de felicidade completa, no suportava a ideia de o deixar outra vez.
No podemos continuar assim para sempre, a ver-nos
apenas por alguns minutos uma vez por ms quando me vais
visitar. No me importa ter de danar, mas no suporto estar
longe de ti - disse-lhe Danina tristemente. E no existiriam
mais frias at Dezembro. A famlia imperial j a convidara a
passar o Natal com eles em Tsarskoie Selo. Podia at ficar na
mesma casa de hspedes onde convalescera. Porm, o Natal
estava ainda a quatro meses de distncia e, at l, Danina teria
de suportar muita coisa. Seriam quatro meses de inferno s
mos de Madame Markova, a ser castigada por amar um ho
mem mais do que o ballct. Era uma forma de vida doentia.
Quero que deixes de danar no Natal - disse-lhe fi
nalmente Nikolai na ltima noite que passaram juntos. -
Havemos de encontrar uma maneira de resolver a situao.
Talvez possas ensinar ballet s gr-duquesas ou a algumas das
damas de companhia. Pode ser que eu te consiga arranjar uma
pequena casa perto do palcio, para que possas ficar perto de
mim. - Era a nica esperana que lhes restava, se Marie no
concordasse mesmo com o divrcio.
Logo veremos - volveu ela. - No deves arriscar to
da a tua vida por mim. A Marie pode arranjar-te problemas
junto do czar ou provocar um terrvel escndalo. No preci
sas disso.
Falarei com ela novamente quando regressar de Ingla
terra e depois irei visitar-te.
97

Contudo, assim que Danina partiu para Sampetersburgo, Alexei adoeceu e a presena de Nikolai foi necessria a toda a hora durante as seis semanas que se seguiram. 
O ms de Outubro ia j a meio quando pde finalmente ir v-la. Madame Markova mantivera Danina como prima ballerina, e esta danara Giselle, como prometido.
Desta vez, Nikolai s trazia ms notcias: Alexei continuava doente, embora um pouco melhor - o suficiente para que pudesse ausentar-se por umas horas - e duas das 
gr--duquesas tinham apanhado gripe, o que tambm o mantinha bastante ocupado. Danina achou-o muito cansado e triste, embora obviamente feliz por a ver.
Marie regressara de Inglaterra h duas semanas ainda mais convencida a no se divorciar. Comeara a ouvir boatos sobre Danina e ameaava provocar um grande escndalo. 
Na verdade, Marie estava a fazer chantagem com o marido, a mante-lo como refm e, quando este lhe perguntara a razo, declarara que ele tinha a obrigao de a tratar 
com respeito e de no envergonhar os filhos, embora admitisse nunca o ter amado. Achava humilhante ser trocada por outra mulher, especialmente uma bailarina, e dissera-o 
como se Danina fosse uma prostituta, o que o enraiveceu ainda mais. Seguiu-se uma interminvel discusso que no os conduziu a parte alguma. Danina percebeu que 
Nikolai estava bastante deprimido por causa disso.
Voltou mais uma vez em Novembro e Madame Markova quase no o deixou v-la; porm, Nikolai foi to insistente que, por fim, Madame Markova j no tinha mais desculpas 
para lhe dar. No entanto, s permitiu que Danina o visse por meia hora, devido aos ensaios. O nico consolo para ambos era saberem que estariam juntos durante trs 
semanas no Natal e no Ano Novo. Por agora, s viviam para isso.
Nikolai vinha assistir a todas as suas actuaes, ou a tantas quantas podia. O pai de Danina veio tambm assistir a uma, como fazia todos os anos, mas infelizmente 
no estiveram no mesmo espectculo, por isso no pde apresent-lo ao pai.
A tragdia abateu-se sobre a famlia de Danina na semana antes do Natal. O irmo mais novo, e o seu preferido, foi morto na frente oriental durante uma batalha e 
Danina estava

de luto por ele aquando da sua ltima actuao e continuava ainda muito triste quando Nikolai veio busc-la para a levar para Tsarskoie Selo. Saber que no voltaria 
a ver o seu querido irmo magoava-a muito e at Alexei comentou com os pais que Danina parecia muito abatida e bem mais calada do que o habitual quando regressou 
da visita que lhe fez mal ela chegou.
Porm, o Natal com a famlia imperial era mgico e a sua disposio melhorou na companhia de Nikolai. Mais uma vez, como acontecera durante o Vero em Livadia, Danina 
e Nikolai ficaram juntos na casa de hspedes. Falavam do amor que sentiam um pelo outro e de como era maravilhoso o tempo que passavam juntos, mas pouco podiam dizer 
sobre o futuro.
Marie continuava firme na sua deciso. Ainda assim, Nikolai comeara a ver pequenas casas para Danina e estava determinado em poupar dinheiro suficiente para lhe 
comprar uma, de modo a que pudesse deixar de danar e comeassem a viver juntos. Todavia, ambos sabiam que isso levaria o seu tempo, talvez at bastante. Danina 
prometera a si mesma, e a Nikolai, que continuaria a danar at  Primavera e talvez at ao final do prximo ano.
Assim que regressou ao ballet, comeou a sentir-se doente. Comia ainda menos do que anteriormente e, quando Nikolai a visitou no final de Janeiro, ficou bastante 
preocupado com a sua aparncia. Estava magra e plida.
Trabalhas demasiado - queixou-se, como era habi
tual, embora desta vez com mais veemncia. - Acabaro por
te matar se no parares, Danina.
No se morre por danar - brincou, detestando ter
de admitir que no se sentia bem. No queria ser mais uma
preocupao para ele, com Marie ainda intransigente e o cza-
rviche doente outra vez. Nikolai j tinha problemas de so
bra, mas a verdade  que Danina se sentia cada dia com mais
vertigens e quase desmaiara duas vezes numa aula. Ningum
parecia notar que no andava bem. Em Fevereiro sentia-se
to doente que certa manh nem conseguiu levantar-se da
cama.
Nessa tarde ainda se obrigou a danar, mas, quando Ma-
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dame Markova a viu, estava completamente plida e sentada numa banco com os olhos fechados.
Ests doente outra vez? - perguntou Madame Mar
kova com um tom acusador, ainda relutante e incapaz de lhe
perdoar por manter um caso amoroso com o mdico do czar.
Nem sequer tentava esconder o facto de achar tudo aquilo
uma vergonha e distanciara-se de Danina.
No, estou bem - disse, quase sem voz. No entanto,
Madame Markova ficou preocupada e decidiu vigi-la nos
dias que se seguiram. Quando Danina quase desmaiou num
dos ensaios ao fim da noite, Madame Markova apercebeu-se
disso instantaneamente e correu a ajud-la.
Queres que chame um mdico? - perguntou, desta
vez com melhores modos. Danina estava a dar ao ballet tudo
o que tinha e mais, mas isso j no chegava para satisfazer a
dvida que Madame Markova achava que tinha para com ela.
Fora impiedosa, porm, ao v-la to doente at ela se compa
decera. - Queres que chame o doutor Obrajensky? - per
guntou, para desnimo da sua pupila.
Danina teria ficado mais do que feliz por ter uma desculpa para o ver; todavia, no queria assust-lo, pois tinha a certeza de que estava muito doente. J passara 
mais de um ano desde que adoecera com gripe e, nos dez meses que haviam decorrido desde que regressara ao ballet, esforara-se to violentamente que agora comeava 
a acreditar que acabaria por destruir a sua sade, tal como Nikolai previra.
Sentia a cabea constantemente  roda, j no conseguia comer nada sem vomitar e mal conseguia pr um p frente ao outro. No entanto, continuava a danar dezasseis 
e dezoito horas por dia e,  noite, quando se deitava para dormir, sentia que acabaria por morrer durante o sono. Talvez Nikolai tivesse razo, pensou uma noite 
deitada na cama com vontade de vomitar, mas sem foras para se levantar. Talvez o ballet acabasse mesmo por mat-la.
Cinco dias mais tarde, era incapaz de se levantar da cama e sentia-se to mal que nem se importava com o que Madame Markova decidisse fazer com ela. Tudo o que Danina 
queria era ficar ali deitada e morrer. Apenas lamentava no voltar a ver Nikolai e interrogava-se sobre quem iria dar-lhe a notcia depois de falecer.
100

Estava deitada de olhos fechados, sem-inconscente, vendo o quarto rodar  sua volta sempre que os abria, quando comeou a sonhar que Nikolai estava ali junto  
sua cama. Sabia que isso no podia ser verdade; pensou se no estaria novamente delirante, como quando tivera gripe. At o ouvia falar com ela, chamar o seu nome 
e depois virar-se para falar com Madame Markova, perguntando-lhe por que razo no o tinham chamado mais cedo.
Ela no queria que eu o chamasse - ouviu a viso de
Madame Markova responder. Depois abriu os olhos e viu-o
ali. Mesmo que a viso no fosse real, pensou, era tal e qual
Nikolai. Sentiu ento o calor da sua mo enquanto lhe toma
va o pulso e viu-o inclinar-se at junto de si e perguntar-lhe
se conseguia ouvi-lo. Danina foi apenas capaz de assentir com
a cabea, pois estava demasiado fraca at para falar.
Temos de a levar para o hospital - disse de imediato
a viso. Desta vez, Danina no tinha febre.
Nikolai no sabia o que se passava com ela, excepto que estava muito doente e que no conseguia aguentar nada no estmago h j tantos dias que parecia estar a morrer. 
Enquanto a examinava, os seus olhos encheram-se de lgrimas.
Obrigaram-na a trabalhar at  morte, madatne - de
clarou Nikolai com uma fria que quase no controlava. -
Se ela morrer, ter de prestar contas a mim, e ao czar -
acrescentou ainda. Ao ouvi-lo falar, Danina apercebeu-se de
que no era nenhuma viso e que no estava a sonhar. Era
mesmo Nikolai.
Nikolai? - chamou debilmente. Ele segurou-lhe na
mo outra vez e sussurrou ao aproximar-se dela.
No fales, meu amor, tenta descansar. Eu estou aqui.
- Ouviu-o ento falar de ambulncias e hospitais e tentou
dizer-lhe que no precisava, que era desnecessrio, pois ape
nas queria ficar ali deitada na cama e morrer com ele ao seu
lado a segurar-lhe a mo.
Nikolai mandou ento toda a gente sair e examinou-a calmamente, recordando com saudade o seu belo corpo. H dois meses que no a via e nada mudara entre eles. Continuavam 
a amar-se como sempre, mas, por enquanto, Danina ainda pertencia ao ballet e ele a Marie. Ambos se comeavam a
101

interrogar se alguma vez ficariam juntos, ou se seria sempre assim.
O que aconteceu? Consegues dizer-me?
No sei... Sempre a sentir-me mal... - murmurou,
adormecendo  enquanto falava e acordando outra vez com
vmitos violentos. No entanto, h muito que o seu estmago
nada tinha para vomitar, nem blis. Para Danina era mais fcil
no comer nem beber para no ter de andar a vomitar a toda
a hora, mas continuava a danar dezasseis horas por dia e a es
forar-se at no poder mais.
Fala comigo, Danina - insistiu, acordando-a de novo.
Comeava a temer que entrasse em coma devido  inanio,
desidratao e grau de exausto em que se encontrava. O bal-
let forara-a a danar at ao limite e agora o seu corpo estava
a ceder  constante presso e  falta de alimento. - O que
sentes? H quanto tempo ests assim? - insistia Nikolai, j
muito inquieto.
Madame Markova continuava  espera que decidisse se queria ou no lev-la para o hospital, para que chamasse uma ambulncia. Nikolai no tinha a certeza, mas estava 
a ficar cada vez mais assustado.
H quanto tempo te sentes assim? - perguntou mais
uma vez. No estava assim to mal da ltima vez que a vira,
embora no tivesse bom aspecto e at lhe tivesse confessado
que nos ltimos tempos no andava a sentir-se muito bem.
Um ms... dois meses - respondeu a custo.
Andas a vomitar desde essa altura? - inquiriu, j hor
rorizado. H quanto tempo no se alimentaria conveniente
mente?  E  quanto  tempo  sobreviveria  assim?  Agradeceu  a
Deus que Madame Markova o tivesse por fim mandado cha
mar. Na verdade, esta temera as consequncias de no o fazer,
dada a ligao de Danina  famlia imperial. Para alm disso,
apesar da raiva que sentia contra a sua pupila, ainda a amava e
ficou aterrorizada com o aspecto dela.
Danina,  fala  comigo.   Quando    que  isto  comeou
exactamente? Tenta recordar-te - pressionou-a enquanto ela
abria os olhos e tentava lembrar-se de quando comeara a
sentir-se doente. Parecia-lhe h uma eternidade.
Em Janeiro, quando regressei das frias de Natal -
afirmou,  por fim. J se tinham passado  quase  dois meses.
102

Tudo o que Danina queria agora era dormir e que Niko-lai parasse de falar.
-        Sentes dores em algum lado? - perguntou ele en
quanto lhe apalpava o corpo. Ela no se queixava de nada.
Estava apenas excessivamente fraca e malnutrida, famlica na
realidade. Nikolai ainda pensou que fosse o apndice, embora
no houvesse sinais de infeco, ou uma lcera que tivesse re
bentado. No entanto, Danina garantiu-lhe que nunca vomi
tara sangue ou qualquer coisa escura e estranha.
No havia outros sintomas para alm do facto de andar a vomitar h cerca de dois meses e de estar quase inconsciente e demasiado fraca para se mexer. Nikolai nem 
se atreveu a lev-la para o hospital at perceber melhor o que se passava. No acreditava que fosse tuberculose ou tifo, embora no fosse impossvel e, nesse caso, 
j estaria em fase terminal. No entanto, Nikolai achava que no era isso.
Auscultou-lhe os pulmes e o corao. O pulso estava fraco, mas continuava sem perceber o que se passava. Por fim, perguntou-lhe uma coisa que sabia que ela ia achar 
indelicada; porm, no era apenas o seu amante, era tambm o seu mdico e precisava de saber a resposta. O corpo estava to esgotado que no era invulgar que a sua 
natureza feminina deixasse de se manifestar ms aps ms. Depois lembrou-se de outra coisa. Tinham sido sempre to cuidadosos... Excepto depois do Natal e apenas 
uma vez ou duas.
Examinou-a mais uma vez e percebeu de imediato o que se passava. Suavemente, apalpou-lhe o fundo do abdmen e sentiu uma pequena protuberncia, grande o suficiente 
para lhe confirmar o que nem suspeitara. Danina estava quase de certeza grvida de dois meses e esforara-se tanto que poderia ter morrido. Caso estivesse grvida, 
no estado em que se encontrava, era um milagre que no tivesse perdido o beb.
-        Danina - sussurrou quando ela voltou a acordar -,
acho que ests grvida.
Danina abriu os olhos, espantada. Pensara nisso uma vez ou outra, mas pusera de parte tal ideia. No podia ser, no podia pensar nisso; porm, quando ele lho disse, 
percebeu que era verdade e fechou os olhos outra vez, deixando escapar uma lgrima.
103

O que faremos agora? - murmurou, olhando para ele
desesperada. Isto destruiria a vida de ambos e agora  que
Marie, por vingana, nunca consentiria no divrcio.
Tens de regressar comigo. Podemos viver na casa de
hspedes at te sentires mais forte - sugeriu ele, mas isso era
apenas uma soluo temporria e ambos o sabiam. Tinham
agora problemas bem maiores a resolver.
E depois? - inquiriu Danina com um olhar triste. -
No posso ir viver contigo, tu no podes casar comigo, o czar
tira-te o cargo, no temos ainda dinheiro para comprar uma
casa e, se o teu diagnstico se confirmar, no poderei danar
por muito mais tempo. - Sabia de vrias raparigas que conti
nuavam a danar enquanto podiam, mas eram inevitavelmen
te descobertas depois de um ms ou dois e banidas. Algumas
at perdiam os bebs devido aos rduos treinos e ensaios.
A situao piorara para os dois.
-Juntos encontraremos uma soluo - confortou-a Ni-kolai, muito preocupado.
No podia sequer dar-lhe um lugar para morar, quanto mais um lar para criarem o beb, mas no imaginava nada mais belo do que uma criana nascida do amor entre ambos. 
Como haveriam de o sustentar quando j no pudesse danar? As poupanas de ambos eram mnimas e ela ganhava mais fama do que dinheiro. Marie e os rapazes tambm 
consumiam tudo o que ele ganhava.
-        Logo veremos o que havemos de fazer - repetiu Ni-
kolai carinhosamente enquanto  a abraava,  mas  ela apenas
abanava a cabea e chorava. Estava desesperada. - Deixa-me
levar-te comigo. Ningum precisa de saber por que motivo
ests doente. Temos de falar sobre isto.
Contudo, ela sabia melhor do que ningum que no havia nada a conversar. A concretizao dos seus sonhos estava ainda bem longe no futuro.
-        Tenho de ficar - declarou Danina, pois a ideia de se
mover dali fazia-a sentir-se ainda mais doente. Desta vez, no
podia ir com Nikolai, embora ele detestasse ter de a deixar,
principalmente  agora,  sabendo  que  esperava um filho seu.
Ficou com ela at bem tarde e disse a Madame Markova que receava uma lcera grave e que seria melhor lev-la para
104

a casa de hspedes do palcio at ela melhorar. Foi Danina quem o contrariou e disse a Madame Markova que no queria sair dali, que se sentia demasiado doente e 
que poderia convalescer to rapidamente ali como em Tsarskoie Selo, o que no era verdade, e todos o sabiam.  claro que Madame Markova ficou muito satisfeita e 
tomou a recusa como um sinal de que a relao com Nikolai estava a chegar ao fim. Era a primeira vez que Danina contrariava uma deciso tomada por ele.
Somos perfeitamente capazes de cuidar bem dela aqui,
doutor, embora talvez sem o conforto de Tsarskoie Selo -
disse Madame Markova com um tom sarcstico. Nikolai fi
cou zangado por Danina no querer ir consigo e, depois de
Madame Markova deixar o quarto, tentou ainda, em vo,
convenc-la.
Quero-te comigo. Quero cuidar de ti, Danina. Tens
de vir comigo.
Por quanto tempo? Um ms, dois? E depois? - per
guntou, lastimosa.  Para ela havia apenas uma soluo, mas
no disse nada a Nikolai. Sabia de outras raparigas que o ha
viam feito e sobrevivido. Tambm queria acima de tudo ter
aquele beb, porm no tinham hipteses de o criar. Talvez
mais tarde, mas no agora, nas circunstncias em que se en
contravam. Tinham de enfrentar a realidade e talvez Nikolai
no estivesse pronto para a encarar. Na verdade, nem ela sa
bia bem se estaria.
Tens de ir,  Nikolai.  Podes voltar daqui a uns dias.
Voltarei amanh - declarou e partiu extremamente
alarmado com a situao. Apenas se tinham descuidado uma
vez ou duas e aquilo era a ltima coisa que esperara. Agora,
tinha de a ajudar a encontrar uma soluo. Sabia bem que a
culpa era sua, mais do que dela, portanto, sofria ao pensar que
era Danina quem estava a pagar por isso.
Quando regressou no dia seguinte, nenhum dos dois tinha uma soluo simples para resolver a situao. No podiam sustentar um beb, nem sequer um local onde este 
pudesse viver. Danina bem sabia que no era possvel, embora ele insistisse que sim, e nem sequer tentou argumentar com ele. Limitava-se a ficar ali deitada, sentindo-se 
muito infeliz,
105

chorando silenciosamente e continuando a vomitar. Nikolai obrigava-a a comer e a beber o mximo que conseguisse e parecia-lhe um pouco mais forte, mas sentia-se 
to mal que quase no acreditava que estava a melhorar. Tambm ele chorava, sentindo-se impotente. Sabia que Danina iria ficar melhor dentro de um ms ou dois; por 
enquanto, porm, era obrigado a v-la sofrer.
Quando partiu, Danina foi falar com uma das outras bailarinas. Segundo o que ouvira dizer, a rapariga com quem ia falar, Valeria, j o tinha feito duas ve/es. Valeria 
disse-lhe onde deveria ir e com quem deveria falar e at se ofereceu para a acompanhar. Danina aceitou e agradeceu a ajuda da colega.
As duas raparigas saram discretamente na manh seguinte quando os restantes se encontravam na igreja. Era domingo e Madame Markova estava na missa, como era seu 
hbito. Danina encontrava-se demasiado doente para ir e Valeria inventou uma enxaqueca. Tiveram quase de atravessar a cidade e Danina parava de cinco em cinco minutos 
para vomitar, mas por fim chegaram ao seu destino, um bairro pobre e cheio de lixo por toda a parte.
Era uma casa pequena e sombria com umas cortinas muito sujas na janela. O aspecto da mulher que abriu a porta fez Danina estremecer; porm, Valeria garantiu que 
seria rpido e bem feito. Trouxera todas as suas economias, e ficara horrorizada ao saber quanto lhe iria custar.
A mulher que se autodenominava "enfermeira" fez a Danina uma srie de perguntas. Queria ter a certeza de que a gravidez no ia j muito avanada, mas dois meses 
pareceram no a preocupar. Depois de lhe pedir metade do dinheiro que trouxera, conduziu-a a um quarto no fundo da casa. Os lenis e cobertor pareciam imundos e 
havia manchas de sangue no cho que ningum se preocupara em limpar depois da sada da ltima pessoa que recorrera aos servios da "enfermeira".
A mulher, j de uma certa idade, lavou as mos numa bacia de gua que se encontrava no canto do quarto e aproximou um tabuleiro de instrumentos, garantindo que estavam 
lavados. Danina achou-os horrveis e voltou a cara para o outro lado.
106

-        O meu pai era mdico - explicou a "enfermeira",
mas Danina no queria saber as referncias da mulher, apenas
que tudo terminasse depressa.
Sabia que, se Nikolai desconfiasse das suas intenes, tudo faria para a impedir e que, se descobrisse, talvez nunca lhe perdoasse. No podia pensar agora nisso. 
O pior era que ambos desejavam esse beb, embora no o pudessem ter. Tinha de fazer aquilo pelos dois, por mais terrvel que fosse e ainda que a pudesse matar. Enquanto 
pensava nisto, a "enfermeira" ordenou-lhe que tirasse a roupa. As mos de Danina tremiam descontroladamente. Deitou-se ento na cama imunda apenas de camisola, a 
mulher examinou-a e acenou com a cabea, sentindo, tal como Nikolai, o pequeno inchao no fundo da sua barriga.
Nada por que j passara durante a vida a preparara para aquela humilhao e horror. A repugnncia que sentia f-la vomitar; porm, isso no era uni entrave para 
a "enfermeira" que assegurou a Danina que tudo seria muito rpido. Disse--Ihe ainda que podia ficar uns instantes at se sentir com foras para andar, mas que depois 
teria de partir. Se surgisse algum problema, deveria chamar um mdico e nunca regressar ali. Depois do trabalho feito, o resto ficava  responsabilidade de Danina. 
No a deixaria entrar se resolvesse regressar, disse--Ihe a mulher, de forma um pouco sombria.
-        Vamos ento comear - disse a "enfermeira" com um
ar decidido. Gostava de tratar das suas "doentes" rapidamente,
antes que lhe causassem problemas, e o facto de Danina con
tinuar a vomitar no a impediu de prosseguir. No entanto,
Danina pediu-lhe que esperasse um minuto e depois fez-lhe
sinal com a mo que j estava pronta, demasiado assustada pa
ra falar.
Seguindo as instrues da "enfermeira", agarrou-se aos ferros da cama. Depois, com um brao, esta segurou-lhe uma das pernas para baixo ao mesmo tempo que lhe ordenava 
que no se mexesse. O problema era que as pernas de Danina no paravam de tremer.
O que Valeria lhe contara no a preparara para a intensa dor que sentiu quando a mulher introduziu dentro si um dos seus instrumentos. Danina tentou no gritar ou 
sufocar no seu
107

prprio vmito. A dor parecia no terminar e o quarto comeou a rodar  sua volta, at que, por sorte, desmaiou. De repente, a mulher estava a aban-la e havia uma 
compressa hmida sobre a sua testa. A "enfermeira" declarou-lhe que j podia levantar-se. Tinha terminado.
-        Acho que ainda no consigo pr-me de p - disse
Danina, ainda dbil.
O cheiro a vomitado empestava o quarto e a viso de uni balde de sangue perto da cama quase a fez desmaiar de novo. Sem esperar, a mulher ajudou-a a pr-se de p 
e a vestir-se. Cambaleava enquanto a mulher lhe punha um amontoado de trapos entre as pernas. Era tudo demasiado insuportvel. Arrastou-se ento para a outra sala 
onde a amiga a esperava, mas mal conseguia distingui-la de to tonta que se sentia. Ficou estupefacta ao perceber que no tinha ainda sequer passado uma hora desde 
que chegaram. Valeria parecia preocupada, embora aliviada. Tendo j passado pelo mesmo, sabia melhor do que ningum o inferno por que Danina passara.
-        Leva-a para casa e deita-a - disse a "enfermeira", se
gurando a porta da rua para elas passarem. Tiveram sorte em
encontrar um txi por ali. Mais tarde, Danina nem se lembra
va da viagem de regresso  escola de ballet, apenas de subir
para a cama e sentir os trapos entre as pernas e a dor lanci
nante que a mulher lhe deixara no interior. No conseguia
pensar em nada, nem em Nikolai, nem no beb, nem no que
acabara de fazer. Limitou-se a estender-se na cama com um
gemido e, no espao de segundos, ficou inconsciente.

CAPITULO 7
Quando Nikolai veio visit-la nessa tarde, encontrou-a a dormir profundamente com a roupa vestida. No fazia ideia de onde teria ido ou o que fora fazer, por isso, 
ficou aliviado por estar ao menos a dormir, at olhar para ela com mais ateno. A sua cara estava muito plida e os lbios um pouco arroxeados. Quando lhe tomou 
o pulso ficou apavorado e quando a tentou acordar descobriu que no conseguia. Percebeu de imediato que no estava a dormir, mas inconsciente. E quando, quase por 
instinto, lhe puxou os cobertores para baixo, verificou que estava imersa numa poa de sangue que alastrara em seu redor. Estava a perder sangue h horas.
Desta vez no hesitou um segundo. Mandou uma das bailarinas chamar uma ambulncia e comeou a despir Danina. Estava quase morta e no fazia ideia da quantidade de 
sangue que perdera, embora o que via em seu redor lhe parecesse imenso. Os trapos que lhe encontrou no meio das pernas revelaram-lhe tudo o que acontecera.
-        Oh, meu Deus... Danina.
No havia nada que pudesse fazer para travar a hemorragia. Precisava de ser operada e talvez nem isso a salvasse. Assim que soube o que se passava, Madame Markova 
correu para o quarto de Danina. A cena que l se lhe deparou no deixava margens para dvidas. Nikolai estava sentado ao seu lado, segurando-lhe na mo enquanto 
as lgrimas lhe corriam pela face abaixo. O seu ar de desespero chegou mesmo a comover Madame Markova, mas, assim que esta entrou no quarto, a angstia e a aflio 
de Nikolai transformaram-se rapidamente em raiva.
Quem  que a deixou fazer isto? - berrou. - Sabia
de alguma coisa? - continuou num tom de acusao e fria.
No sabia de nada - protestou Madame Markova. -
Provavelmente ainda menos do que o doutor. Deve ter sado
quando estvamos na missa - explicou, temendo pela vida
de Danina.
H quanto tempo foi isso?
109

H quatro ou cinco horas.
Meu Deus... No compreende que isto pode mat-la?
Claro que sim!
O terror que sentiam quase os levava a estrangular-se um ao outro, mas, felizmente, a ambulncia chegou e Danina foi levada para um hospital que Nikolai conhecia 
bem e este contou  equipa mdica o pouco que sabia sobre o sucedido. Danina no voltou a recuperar a conscincia at  operao, e s passadas duas horas  que 
o cirurgio veio falar com ele e com Madame Markova, sentados em silncio na sala de espera vazia, olhando um para o outro.
Como est ela? - perguntou Nikolai imediatamente;
porm,  o  cirurgio  no parecia nada satisfeito.  Fora quase
uma tragdia e Danina estava a receber a quarta transfuso de
sangue.
Se ela sobreviver - disse o mdico com um ar grave -,
ainda poder ter filhos, mas  muito cedo para tirar conclu
ses. Perdeu uma enorme quantidade de sangue e, quem quer
que lhe tenha feito aquilo,  um carniceiro.
Descreveu ento a situao a Nikolai em termos mdicos e, para alm da hemorragia que se recusava a estancar, temiam tambm uma grave infeco.
No ser fcil para ela - explicou o cirurgio a Mada
me Markova, que j no conseguia conter as lgrimas. - De
ver permanecer aqui durante vrias semanas, talvez at mais.
Saberemos melhor amanh de manh, se sobreviver. Por ago
ra, fizemos tudo o que podamos por ela.
Posso v-la? - perguntou Nikolai, aterrorizado com
o facto de o cirurgio no lhes poder dar garantias de que
Danina sobreviveria.
No pode fazer nada por ela agora - explicou o m
dico. - Ainda no est consciente e talvez no fique to de
pressa.
Gostava de estar junto dela quando acordasse - pediu
Nikolai. Estava horrorizado com o que acontecera. Recrimi
nava-se por no ter suspeitado de nada e no ter podido im
pedi-la. Teriam pensado numa soluo. Danina no precisava
de ter arriscado a vida para resolver o problema. Tudo se re
solveria, pensava ele. Toda a noite reflectira na maneira de
resolver o problema.
110

Deixaram Nikolai entrar na sala de cirurgia onde Danina estava a recuperar. Ainda lhe parecia plida, apesar de todas as transfuses que j recebera. Sentou-se silenciosamente 
ao seu lado e segurou-lhe na mo. Apertou-a com carinho ao mesmo tempo que chorava e se recordava dos momentos que haviam passado juntos e do quanto a amava. Queria 
matar quem a tinha posto assim.
Na sala de espera, Madame Markova parecia devastada e partilhava dos mesmos sentimentos de Nikolai. No entanto, era impossvel consolarem-se mutuamente. Apesar de 
unidos pela mesma mgoa e pelo amor  mesma pessoa, encaravam--se como inimigos.
Era j quase meia-noite quando finalmente Danina se mexeu, emitindo um gemido dorido. Os seus lbios estavam secos e mal conseguia abrir os olhos; porm, quando 
voltou a cabea viu-o ali ao seu lado e sentiu um n formar-se na garganta, ao lembrar-se vagamente do que acontecera e do que fizera ao filho de ambos.
Oh, Danina... perdoa-me... - disse Nikolai de ime
diato chorando como uma criana. Depois abraou-a e im
plorou que lhe perdoasse por a ter colocado naquela situao.
Nem sequer a recriminou pelo que fizera. Era demasiado tar
de para isso e Danina tinha j pago um preo muito elevado
pela deciso que tomara. - Como  que isto aconteceu?
Porque no falaste comigo antes de o fazer?
Sabia... que nunca... permitirias... Desculpa - expli
cou tambm no meio de lgrimas. Ambos choraram pelo fi
lho que perderam. Nikolai sabia, s de olhar para ela, que de
correria  muito   tempo  at   que  se  recompusesse   do   que
acontecera. De manh, o cirurgio declarou que Danina esta
va fora de perigo e Nikolai quase chorou de alvio. Por res
peito, foi dar a notcia a Madame Markova que, pouco de
pois, partiu sem ver Danina.  O mdico dissera que estava
ainda muito doente para receber visitas e Nikolai concordou
com ele.
No saiu do seu lado durante toda o dia e s no princpio da noite  que foi a casa mudar de roupa, ver como estava Alexei e perguntar ao Dr. Botkin se este poderia 
continuar a substitu-lo. Explicou que tinha uma amiga gravemente
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doente no hospital e que precisava de estar com ela e, embora o colega no o perguntasse, sabia de quem se tratava.
Ela vai ficar bem? - perguntou o Dr. Botkin, assusta
do com o ar angustiado e destroado do seu colega. Fora urna
noite de agonia para Nikolai.
Espero que sim - respondeu.
Voltou para o hospital j a noite ia avanada e ficou junto dela toda a noite, mais uma vez sem dormir. Danina alternava entre perodos inconscientes e conscientes, 
murmurando, falando com pessoas que s ela via. Gritou o seu nome mais do que uma vez, pedindo-lhe ajuda. Dilacerava-lhe o corao v-la naquele estado, mas no 
arredou p dali, acariciando-lhe a mo e pensando no futuro e nos filhos que esperava ainda pudessem ter.
S dois dias depois  que a hemorragia parou por completo e as transfuses comearam a ajud-la. Estava ainda muito fraca para se sentar e era ele quem a alimentava. 
Dormia numa cama improvisada ao seu lado. Depois de a ver um pouco melhor, atreveu-se por fim a dormir. Estava exausto, mas eternamente grato por Danina ter sobrevivido.
Como te sentes hoje? - perguntou-lhe num tom ca
rinhoso,  observando os crculos negros em torno dos seus
olhos. Estava ainda um pouco plida.
Um pouco melhor - mentiu. No se lembrava de
outras raparigas que tivessem ficado to mal numa situao se
melhante, embora no fosse raro ouvir-se falar de mulheres
que  acabavam por morrer.  Na verdade,  Danina nunca se
apercebera verdadeiramente do risco que corria e, ainda que
soubesse, teria tomado a mesma deciso. No tivera escolha e,
mesmo agora, com Nikolai ao seu lado, sabia que nunca po
deriam ter tido aquele filho. Teria destrudo tudo, a carreira
dele, a dela. No havia espao para uma criana nas suas vi
das. Mal havia para ambos, apesar de se amarem muito. Era
uma vida de momentos roubados, apenas com a esperana e a
promessa de um futuro. No era ainda uma vida na qual pu
dessem incluir uma criana.
Quero que venhas comigo para Tsarskoie Selo - dis
se-lhe sabendo  que ela o estava a ouvir.  Danina abriu os
olhos. - Podes ficar de novo na casa de hspedes. Ningum
112

precisa de saber por que motivo ests doente ou o que aconteceu. - Porm, Nikolai sabia que durante bastante tempo estaria fraca de mais para sair do hospital e 
havia ainda o risco de infeco, que poderia ser fatal. Tanto Nikolai como o cirurgio estavam ainda muito preocupados com o seu estado de sade.
No posso fazer isso outra vez. No posso abusar da
boa vontade da czarina - explicou, embora no houvesse
nada que mais desejasse do que estar com ele. Adorava a do
ura que se instalava quando estavam juntos, mas no podia
abandonar novamente o ballet, pois sabia que desta vez Mada-
me Markova no  a  aceitaria  de volta nem lhe perdoaria,
doente ou no. Pagara um preo elevado pela ltima conva
lescena e precisava do ballet. Nikolai no podia ajud-la, no
era livre para casar com ela ou capaz de a sustentar. Tinha de
contar consigo mesma.
S poders voltar a danar daqui a muito tempo -
disse ele carinhosamente. Depois decidiu contar-lhe a ideia
que tivera. - Quero que penses uma coisa. Considerei mi
lhares de maneiras de resolver o nosso problema enquanto
no acordavas. No podemos continuar assim. A Marie nunca
consentir no divrcio e Madame Markova nunca permitir
que abandones o ballet. Quero estar contigo, Danina, quero
que tenhamos uma vida juntos, longe de tudo isto e das pes
soas que nos querem separar.  Quero estar contigo sempre,
longe daqui,  num local onde possamos comear de novo.
No podemos casar,  mas ningum precisa de o saber. -
E depois acrescentou: - Num outro local at poderamos ter
os nossos prprios filhos.
Danina baixou os olhos quando o ouviu pronunciar aquelas palavras e Nikolai apertou-lhe a mo. Ambos sentiam a perda daquele filho.
No existe nenhum lugar onde possamos fazer isso.
Para onde iramos? Como nos sustentaramos? Se Madame
Markova decidir desacreditar-me, nenhuma outra companhia
de ballet me aceitar. - Danina pensava em Moscovo e nou
tras cidades da Rssia, ele no. O seu plano era bem mais au
dacioso.
Tenho  um primo na Amrica,  num local chamado
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Vermont. Fica no Nordeste da Amrica que ele afirma ser muito parecido com a Rssia. Tenho dinheiro guardado suficiente para as passagens at l. Poderamos viver 
com ele nos primeiros tempos. Eu encontrarei um emprego e tu podes ensinar ballet algures, a crianas.
Danina sabia que Nikolai falava ingls perfeitamente por causa da mulher, mas ela no. Para alm disso, no se imaginava a viver num mundo to distante do seu e 
s a mera ideia era assustadora.
Como haveramos  de fazer,  Nikolai? Podes praticar
medicina l? - perguntou,  estupefacta com a  ideia  dele.
A seu tempo, sim. Teria de voltar a estudar l. Claro
que levaria algum tempo, mas entretanto poderia fazer outras
coisas.
O qu, perguntava-se enquanto o escutava. Limpar estbulos? Tratar de cavalos? A situao parecia-lhe insolvel. No havia com certeza nenhuma escola de ballet em 
Vermont, onde quer que isso fosse. Quem ensinaria? Quem contrataria qualquer um dos dois? Como chegariam  Amrica?
-        Tens de deixar-me ir para a frente com isto. E a nossa
nica  esperana,   Danina.   No  podemos permanecer  aqui.
Todavia, partir implicava uma srie de traies e abandonos: os filhos e a mulher, o czar e a famlia que haviam sido to amveis com ele, Madame Markova e o ballet. 
Dera-lhes tudo, a sua vida, a sua alma, o seu corao, o seu corpo e em troca o ballet dera-lhe uma vida, a nica que conhecia, e um lar. O que faria nessa terra 
chamada Vermont? E se ele se fartasse e a abandonasse l? Era a primeira vez que pensava nisso; porm, a ideia assustava-a e Nikolai podia ver perfeitamente o medo 
nos seus olhos.
No sei...  to longe... E se o teu primo no nos qui
ser l?
Vai  querer  com  certeza.     um  homem  generoso.
 mais velho do que eu, vivo e sem filhos. J me convidou
repetidas vezes para o ir visitar. Se eu lhe disser que precisa
mos da ajuda dele, no hesitar em faz-lo. Tem uma casa
grande e algum dinheiro.  dono de um banco e vive sozi
nho. Vai receber-nos com prazer. Danina,  a nica esperan
a que temos de um futuro juntos. Temos de comear algures
e esquecer tudo o que conhecemos aqui.
114

Por muito que Danina quisesse estar com ele, no tinha a certeza de ser capaz de abandonar tudo e partir para o desconhecido.
No penses nisso agora. Primeiro tens de ficar boa e
depois logo falaremos outra vez.  Entretanto,  escreverei ao
meu primo e verei o que me diz - rematou Nikolai.
Ningum nos perdoaria - lembrou, aterrorizada.
E se ficarmos aqui... o que teremos? Alguns minutos
juntos, alguma semanas por ano quando a czarina te convidar
para Tsarskoie Selo ou para Livadia?  Quero ter uma vida
contigo. Quero acordar ao teu lado todas as manhs, cuidar
de ti quando estiveres doente.... No quero que uma coisa
destas volte a acontecer-te.... Danina, quero ter filhos contigo
- declarou do fundo do corao. Tambm desejava a vida
que ele acabara de descrever, mas teriam de magoar toda a
gente que amavam para poderem ser livres.
E o meu pai e os meus irmos? - argumentou. A sua
famlia, a sua vida estavam aqui, na Rssia. No podia voltar
as costas a tudo isso por amor a ele, e, no entanto, Nikolai es
tava disposto a faz-lo, e tinha tanto a perder quanto ela. Te
ria de abandonar os filhos, a mulher e a carreira para poder
concretizar esse sonho.
Tu prpria me disseste que nunca vs a tua famlia -
recordou-lhe e, na verdade, h dois anos que os irmos e o
pai estavam na frente. - De certeza que ficariam felizes por
ti - declarou Nikolai, esforando-se ao mximo para a con
vencer. - No poders danar para sempre, Danina.
Quando ouviu isto, lembrou-se de tudo o que Madame Markova sempre lhe dissera.
Depois posso dedicar-me ao ensino,  como Madame
Markova.
Tambm podes ensinar em Vermont. Talvez at possas
abrir uma escola de ballet. Eu ajudar-te-ei - afirmou Nikolai.
Parecia to seguro de que tudo correria bem.
Tenho de pensar nisso - disse ela, exausta s com a
perspectiva de ter de tomar uma deciso de tal monta e acar
retar com as consequncias para o resto da vida.
-        Descansa agora. Falaremos melhor mais tarde.
Danina acenou que sim com a cabea e deixou-se nova-
115

mente dormir. Todavia, teve pesadelos horrveis, com lugares desconhecidos e assustadores. No parava de sonhar que se desencontrava de Nikolai e que percorria ruas 
e ruas  sua procura, sem nunca o encontrar. Acordou a chorar e assustada, mas Nikolai no estava ao seu lado. Deixara-lhe uma mensagem a dizer que fora ver como 
estava Alexei e que voltaria na manh seguinte.
Permaneceu no hospital durante duas semanas e, quando teve alta, o mdico ordenou-lhe que ficasse na cama outros quinze dias. Nikolai queria que ela fosse para Tsarskoie 
Selo, porm Madame Markova ops-se terminantemente. Queria Danina no ballet e contraps que a viagem seria muito extenuante. Desta vez, Danina nem sequer tinha foras 
para a contrariar. A sua mentora estava muito determinada e relutante em deix-la escapar-se das suas mos outra vez. No a queria mais quatro meses a "recuperar" 
em Tsarskoie Selo com o amante. Desta vez foi intransigente e, face  ferocidade das suas objeces, Danina voltou para o ballet.
Tal como acontecera quando adoecera com gripe, Nikolai vinha v-la todos os dias e fazia-lhe companhia at serem horas de ir tratar das suas obrigaes. Ficava sentado 
ao seu lado no quarto enquanto ela descansava ou davam pequenos passeios pelo jardim da escola de ballet. Nikolai aproveitava para lhe ir falando de Vermont e do 
seu primo. Estava convencido de que esta era a nica soluo e queria partir assim que pudessem. Sugeriu que embarcassem no princpio do Vero, ou seja, dali a poucos 
meses.
- Nessa altura, a temporada j ter acabado. Poders assim terminar o que ests a fazer, Danina. Tens de te decidir por uma data e depois fazer por cumpri-la. No 
haver nunca o momento ideal para partir, temos de aproveitar o momento enquanto podemos - explicou.
Nessa altura, Danina j teria vinte e dois anos e ele faria quarenta e um, uma boa altura para comearem uma vida nova na Amrica. Centenas de outros j o haviam 
feito, alguns por razes to ou mais complicadas que as suas.
Danina prometeu pensar nisso, e era o que fazia, a toda a hora. No parava de reflectir no que seria mudar-se para uma terra que desconhecia. Madame Markova percebeu 
facilmen-
116

l

te que algo se passava. A sua pupila continuava cansada e plida e, por vezes, quando o mdico partia, parecia muito infeliz. Nikolai pedia-lhe que o seguisse at 
ao fim do mundo, que confiasse cegamente nele; porm, apesar de todo o seu amor por ele, achava o pedido muito ambicioso.
-        Ests preocupada, Danina - disse-lhe cautelosamente
Madame Markova uma tarde quando veio visit-la. Nikolai
acabara de sair e, mais uma vez, tinham falado da mesma coi
sa, do futuro, de Vermont, do primo, de abandonar a Rssia
e o ballet. - Ele est a pedir-te que nos deixes, no ? -
perguntou, mas Danina no lhe respondeu. No queria men
tir ou dizer-lhe a verdade. -  sempre assim. Apaixonam-se
por quem somos e depois querem tirar-nos isso mesmo. Ga
ranto-te que se nos deixares isso acabar por te matar, Dani
na. No sers nada e, quando ele te abandonar por algum
mais fascinante ou mais jovem, lamentars toda a tua vida a
deciso que tomaste - concluiu.
As palavras de Madame Markova soavam como uma sentena de morte e, de certa forma, at o eram. Todavia, Danina estava a trocar a vida que conhecia ali por algo que 
tambm desejava ardentemente. Seria o fim da sua vida como bailarina, mas o incio de uma outra ao lado de Nikolai. No entanto, para a alcanar teria de sacrificar 
tudo o que conquistara at ento, tal como ele.
Se o Nikolai te amasse de verdade, Danina, no te pe
diria que nos deixasses - argumentou a sua mentora.
E quando for velha, o que terei se ficar aqui?
Uma vida que te orgulhars de recordar, em vez de
uma vida de desonra, que  tudo o que te poder dar.  um
homem casado e a sua mulher nunca o deixar. Sers sempre
a sua amante, a bailarina com quem ele dorme, nada mais.
Todavia, o que existia entre ambos era bem mais do que isso e Danina sabia-o.
A madame faz as coisas parecerem vulgares, mas no o
so - disse com um tom infeliz.
Mas  precisamente o que so sempre, no te enganes!
Muito romnticas ao princpio, um sonho que parece tornar-
-se realidade e um dia, quando se acorda, descobre-se que,
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afinal, era um pesadelo. Esta  a nica vida que alguma vez ters e que significar alguma coisa para ti. Foi para isto que trabalhaste e treinaste to arduamente. 
Vais deitar tudo a perder por um homem que nem sequer pode casar contigo? Olha bem para o que te aconteceu. Achas que foi muito bonito? Muito romntico?
Eram palavras muito cruis que desanimavam Danina e ainda lhe colocavam mais dvidas no corao. E se Madame Markova tivesse razo? E se Nikolai a abandonasse um 
dia? E se detestasse Vermont, se se arrependesse de ter abandonado o ballet e no fossem felizes juntos? Quem poderia saber a resposta a essas perguntas? No havia 
certezas nos planos de Nikolai, apenas promessas, esperanas, sonhos e anseios. No entanto, estava disposto a desistir da medicina por ela, da segurana que tinha, 
da vida que conhecera durante quinze anos com a famlia. Estava pronto a sacrificar tudo por ela. Porque no podia fazer o mesmo por ele?
- Tens de pensar nisso muito cuidadosamente e tomar a deciso certa - advertiu Madame Markova, para quem a resoluo correcta era, claro, ficar no ballet e esquecer 
Nikolai. Porm, Danina sabia que no podia fazer isso. Deixar o ballet agora poderia destruir a sua vida, mas perder Nikolai seria a sua morte. Enquanto pensava 
nisso, apercebeu-se do medalho por baixo da blusa e sentiu-se reconfortada. Amava-o profundamente, talvez at o suficiente para arriscar tudo e segui-lo. Agora, 
o que tinha a fazer era pensar e escutar o seu corao.
Madame Markova deixou-a ento entregue aos seus pensamentos. J espalhara as sementes que queria e esperava que germinassem e vingassem. Queria que Danina sentisse 
o horror de abandonar tudo por uma vida de arrependimento e infelicidade. Valia certamente a pena meditar sobre isso.
O bailado era tambm a nica vida que Madame Markova conhecia, a nica que alguma vez desejara. Esse era o legado que pretendia deixar a Danina, o elo sagrado passado 
de professora para aluna e assim sucessivamente. Era um voto quase divino.
Ficar significava desistir da esperana de um futuro com Nikolai. De certa forma, significava perder a esperana; po-
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rm, deixar a Rssia implicava desistir de quem era para sempre. Era uma escolha angustiante e, fosse qual fosse o caminho que decidisse tomar, exigiria sacrifcios 
quase insuportveis. Tudo o que Danina podia fazer era rezar para que tomasse a deciso correcta.

CAPITULO 8
Danina esteve um ms sem danar e s regressou s aulas no primeiro dia de Abril. Teve de novo de se esforar bastante para recuperar o que havia perdido, embora 
desta vez o tenha conseguido mais rapidamente. Estava mais forte e a sua sade bem melhor.
Dali a uma semana voltou aos ensaios e, nos princpios de Maio, estava de volta aos palcos. J se passara mais de um ano desde a sua longa convalescena na casa 
de hspedes do czar. Num ano, pouco mudara entre ambos. Ainda se amavam loucamente, Nikolai continuava casado e a viver com a mulher e os filhos e ela andava ainda 
no ballet; porm, no estavam mais prximos de encontrar uma soluo para o seu problema. Marie Obrajensky estava mais do que nunca convencida a no conceder o divrcio 
ao marido, e as poupanas dos dois amantes no chegavam para enfrentarem o futuro juntos. Tudo o que sabiam com certeza era que continuavam a querer uma vida a dois. 
Como consegui-la era o desafio que lutavam cons-tantemente por vencer.
Danina no se decidira ainda a partir com Nikolai para Vermont. Achava que era um risco muito grande, uma terra muito longnqua, desconhecida e demasiado estranha. 
Ele continuava a tentar convenc-la, da forma mais diplomtica que conseguia.
Uma das gr-duquesas adoeceu em Junho e ambos os mdicos ficaram bastante ocupados. Nikolai tinha muito pouco tempo livre para visitar Danina e, por mais que quisesse, 
no podia abandonar o palcio. No princpio de Julho deu-se mais uma tragdia: o irmo mais velho de Danina foi morto em Czernoivitz. Era o segundo que perdia e 
pela carta do pai percebeu que ficara devastado com a morte do filho. Estava junto dele quando haviam sido bombardeados e, por milagre, fora poupado, mas o seu filho 
primognito no e morrera instantaneamente. Danina no recebeu bem a notcia e durante semanas andou deprimida e sem reaco. A guerra afectava toda a gente, mesmo 
no ballet. Havia bailarinas que t-
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nham perdido irmos, amigos, pais, e uma das professoras perdera ambos os filhos em Abril. Mesmo no pequeno e isolado mundo do ballet, era impossvel ignorar a guerra.
Nesse ano Danina s ansiava por mais umas frias com Nikolai e com a famlia imperial em Livadia. Desta feita, Ma-dame Markova no fez qualquer tentativa de se opor. 
Desde a ltima doena de Danina, fizera umas espcies de pazes com Nikolai. Sabia que de bom grado lhe roubaria a sua bailarina, mas esta no dava sinais de querer 
sair dali ou abandonar o ballet por ele. Acreditava que Danina nunca teria a coragem suficiente para partir e, por isso, sentia-se segura. Afinal, a vida de ambas 
era o ballet.
O czar estava com as suas tropas em Mogilev e no poderia juntar-se  famlia nesse Vero; por isso, a czarina e os filhos tiveram apenas a companhia de ambos os 
mdicos e de Danina. Eram j todos velhos amigos e Danina e Nikolai sentiam-se mais felizes do que nunca. Era sempre uma poca perfeita para ambos, um perodo que 
parecia suspenso no tempo, protegido de um mundo hostil e aparentemente longnquo. Na segurana de Livadia, sentiam-se escudados dos problemas que habitualmente 
enfrentavam.
Faziam piqueniques todas as tardes, davam longos passeios a p e de barco e nadavam. Danina sentia-se de novo uma criana e no deixava de brincar com Alexei. A 
sua sade no estivera famosa naquele ano e o czarviche no tinha ainda muito bom aspecto; porm, rodeado pela famlia e pelas pessoas que amava, parecia feliz.
Nikolai tentou abordar de novo o assunto da partida para Vermont, mas as respostas de Danina eram sempre muito vagas. Tinham-lhe sido atribudos papis importantes 
em todos os bailados que iam fazer naquele ano. Madame Markova sabia exactamente como mante-la ern Sampetersburgo. Concordaram ento em no voltar a falar de Vermont 
at ao Natal, ou seja, at ao final da primeira parte da temporada. Era um acordo que angustiava Nikolai e que apenas fizera porque no a queria pressionar de mais.
O acordo acabou no entanto por se revelar uma bno, pois o seu filho mais novo adoeceu com febre tifide em Setembro e esteve s portas da morte. Foi necessria 
toda a pe-
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rcia de Nikolai e do Dr. Botkin para o salvar. Danina ficou aterrorizada e enviava diariamente cartas a Nikolai, preocupada com o rapaz e apoiando-o naquele momento 
de aflio, pois sabia o quanto amava os filhos. Teria sido desastroso, dizia para si mesma, se estivessem em Vermont e o rapaz acabasse por no resistir. Nikolai 
nunca se perdoaria por no ter podido fazer nada pelo filho. A situao s serviu para a convencer ainda mais de que seria um erro fugirem para a Amrica. Todas 
as pessoas que amavam estavam ali e tinham demasiadas obrigaes que no podiam ignorar ou abandonar.
Apesar da doena que a enfraquecera no ano anterior, a sua tcnica melhorara e Danina danava ainda melhor do que anteriormente. Cada vez que actuava, as pessoas 
falavam dela durante semanas e o seu nome era conhecido por toda a Rssia. Era de facto a maior jovem bailarina da sua poca. Nikolai orgulhava-se muito disso e 
estava cada vez mais apaixonado pela sua bailarina. Sempre que podia, ia assistir aos seus espectculos e, em Novembro, acabou por conhecer o pai e um dos irmos 
de Danina. J s tinha dois e o outro fora ferido h pouco tempo, mas estava em Moscovo a recuperar bem.
O pai e o irmo no faziam ideia do que Nikolai representava para Danina ou do quanto ela o amava, mas simpatizaram muito com ele. Nikolai desejou-lhes sorte quando 
partiram e felicitou o coronel pela sua talentosa e extraordinria filha, o que fez o velho senhor brilhar de orgulho. No era difcil perceber o quanto a amava. 
Sempre soubera que traz--la para o ballet em criana fora a deciso mais correcta. Acreditava que Danina ali permaneceria para o resto da vida, nunca lhe ocorrendo 
que considerava abandonar a dana um dia.
Por fim, quando o Natal chegou, Danina s queria partir para Tsarskoie Selo para estar junto de Nikolai na pequena casa de hspedes. Tudo seria to simples se viver 
ali fosse uma possvel soluo, mas no era. Apenas podiam estar verdadeiramente juntos quando Danina ia passar frias com a famlia imperial.
Nikolai foi o seu acompanhante ao baile de Natal. A famlia imperial j no dava os grandiosos bailes que costumava organizar antes da guerra, mas, ainda assim, 
reuniu mais de uma centena de amigos.
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Danina parecia uma princesa com o vestido que a c/arina lhe ofereceu. Era de veludo vermelho guarnecido a arminho branco. Estava to deslumbrante como a czarina 
num dos seus espectaculares vestidos. Os convidados no paravam de comentar a sua beleza, a sua elegncia, o seu talento, e Nikolai sentia-se um prncipe garboso 
ao seu lado.
-        Diverti-me muito esta noite! E tu, Nikolai? - per
guntou-lhe enquanto se dirigiam para casa depois da festa. Es
tavam tambm convidados para almoar no palcio no dia se
guinte.   Os  bailes  da  famlia  imperial  eram  sempre  muito
animados e, com Nikolai ao seu lado, sentira que formavam
um verdadeiro casal. Estavam juntos h quase dois anos.
A nica coisa que perturbara a festa tinham sido vins pequenos grupos aqui e ali a discutirem rumores recentemente surgidos sobre a eventualidade de uma revoluo. 
Parecera--Ihe absurdo, embora j se tivessem registado distrbios em vrias cidades e o czar se recusasse a control-los. Afirmava que as pessoas tinham o direito 
de se expressar e que assim sempre existia a oportunidade de demonstrarem o que pensavam. S qvie os tumultos j se haviam estendido a Moscovo e o exrcito estava 
cada vez mais preocupado. O pai e o irmo de Danina referiram esse facto na ltima visita que lhe tinham feito.
Danina e Nikolai falavam sobre isso quando chegaram  casa de hspedes e, desta vez, Nikolai admitiu que comeava a ficar inquieto com o estado do pas.
-        Acho que o problema  bem maior do que a maioria
pensa - disse com a testa franzida. - E o czar est a ser in
gnuo ao recusar-se a pr um fim  contestao.
Ou talvez no pudesse. Tinha tantas outras coisas com que se preocupar, como a guerra e o nmero gigantesco de baixas sofridas na Polnia e na Galcia, que a agitao 
em Moscovo lhe parecia insignificante quando comparada com a guerra e o que esta j custara a tantas famlias russas.
A ideia de uma revoluo parece to absurda - acres
centou Danina. - No consigo sequer imaginar que uma tal
coisa possa suceder aqui. O que aconteceria?
Quem sabe? Talvez no muita coisa. Provavelmente
nada.  um bando de descontentes a fazer barulho. Pode ser
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que incendeiem algumas casas, roubem uns tantos cavalos e jias, dem uma lio aos mais ricos, e voltem para as suas terras. Talvez no passe da. A Rssia  um 
pas demasiado grande e poderoso para alguma vez mudar, embora uma tal revoluo possa tornar a vida mais complicada e perigosa para o czar e a famlia. Felizmente, 
esto bem protegidos.
Se  acontecer alguma coisa - disse-lhe Danina en
quanto ele a ajudava a tirar o vestido -, quero que tenhas
muito cuidado. - Compreendia que as coisas tambm po
diam complicar-se muito para ele.
H um soluo simples para esse problema - decla
rou, abordando de novo o assunto de Vermont. Prometera
no falar mais sobre isso at ao Natal e cumprira a sua parte
no acordo. Para alm disso, pensara mais cuidadosamente na
questo desde que a haviam discutido pela ltima vez em Se
tembro e continuava esperanado em conseguir convenc-la
da sensatez do seu plano.
Que soluo? - perguntou inocentemente ao mesmo
tempo que tirava os brincos, um presente de Natal de Niko-
lai. Eram umas prolas com dois pequeninos rubis presos por
baixo. Danina adorava-os e ficavam-lhe muito bem.
Vermont - recordou-lhe ele. - No h revolues
na Amrica e tambm no tm uma guerra  porta. Podamos
ser felizes l e tu sabe-lo.
Danina j no tinha mais desculpas para adiar aquela conversa e queria muito ficar com ele; no entanto, parecia nunca haver um momento em que se sentisse pronta 
para deixar o ballet e fazer uma coisa to drstica como a que Nikolai lhe pedia. A situao entre ambos era agora mais ou menos confortvel e talvez um dia Mane 
concordasse com o divrcio.
Talvez um dia - disse melancolicamente. Queria ter a
coragem suficiente para o acompanhar, mas, ao mesmo tem
po, no conseguia imaginar-se a abandonar o mundo que to
bem conhecia. Havia um nmero igual de razes que a puxa
vam em ambas as direces. Madame Markova e o ballet de
um lado, e Nikolai e tudo o que lhe prometia do outro. Uma
vida feliz a dois numa nova terra e o ballet, a razo da sua vida.
Prometeste-me que falaramos sobre isto no Natal -
relembrou-lhe  um pouco  desanimado.  Comeava a temer
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que Danina jamais abandonasse o ballet e nunca pudessem ter mais do que tinham agora, a no ser que a sua mulher morresse ou mudasse de ideias, ou ele herdasse uma 
grande soma de dinheiro. Porm, nenhuma dessas hipteses parecia provvel. Ali, Danina apenas poderia ser sua amante e no poderiam viver juntos, a menos que deixasse 
o ballet. Ainda assim, Nikolai no poderia comprar-lhe uma casa e sustent-la e ambos sabiam disso. Vermont era a nica esperana que tinham de alguma vez poderem 
ficar juntos e comearem uma nova vida. Os sacrifcios que tal exigia de cada um ainda a fazia recuar perante uma deciso.
Comeo outra vez os ensaios depois do Dia de Reis...
- disse Danina, em jeito de desculpa.
Claro, e continuars a danar at ser Vero outra vez,
depois vir a temporada de Outono, danars O Lago dos Cis
nes de novo, e em seguida mais um Natal. Ficaremos velhos,
a continuar assim - queixou-se, olhando para ela com a tris
teza e a angstia que sentia espelhadas nos olhos. - Nunca
ficaremos juntos, se ficarmos aqui.
No posso simplesmente desaparecer, Nikolai - argu
mentou com carinho, pois compreendia bem o que ele lhe
pedia e o que isso implicava. - Tenho uma dvida para com
o ballet.
Tens  uma  dvida  ainda  maior para  contigo,   meu
amor. E para comigo. Eles no faro nada por ti quando fores
velha e j no puderes danar. Ningum te ajudar nessa altu
ra e j no poders contar com Madame Markova. Temos de
contar um com o outro.
Poders contar sempre comigo - prometeu Danina.
Ele pegou-lhe ento ao colo e levou-a at  cama onde ha
viam feito amor pela primeira vez. Tinham uma vida maravi
lhosa nos poucos momentos em que estavam juntos, to dife
rente da que ele conhecia com Marie ou da que ela alguma
vez sonhara vir a ter.
Talvez um dia te fartes de mim - disse j ensonada e
enroscada nos braos dele depois de terem feito amor.
No te preocupes com isso - assegurou ele, sorrindo
e beijando-lhe o ombro. - Nunca me fartarei de ti, Danina.
Vem comigo - sussurrou-lhe ao ouvido e ela acenou que
sim com a cabea antes de se deixar dormir.
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Irei uni dia - murmurou ainda.
No demores muito, meu amor - recomendou ele,
receoso. Queria abandonar a Rssia com Danina antes que
acontecesse alguma coisa. Parecia difcil de imaginar, mas era
possvel que os rumores de uma revoluo se tornassem reali
dade. Havia j pessoas em cargos elevados que o confirma
vam, embora o czar se recusasse a admiti-lo. As pessoas co
meavam a ficar preocupadas, mas Nikolai no queria alarmar
Danina, embora pretendesse lev-la para longe antes que fosse
tarde de mais ou acontecesse alguma tragdia.  No queria
contar-lhe muitos pormenores, pois os seus receios pareciam
ainda disparatados e tudo o que Danina conhecia era o ballet.
Pouco ou nada sabia sobre o mundo em seu redor, um mun
do que se tornava mais assustador a cada dia que passava.
Tal como planeado, no dia seguinte almoaram com a famlia imperial, e Danina ensinou a Alexei um truque de magia que aprendera com um bailarino parisiense que viera 
a Sampetersburgo. Alexei mostrou-se maravilhado com o truque. Foi uma tarde muito agradvel. Desta vez, Danina ficou durante mais de duas semanas e s regressou 
ao ballet no dia anterior aos ensaios. No esquecera os seus exerccios dirios, mas antes do incio da temporada havia sempre longos dias de ensaios.
-        Tenho mesmo de regressar aos ensaios e aos treinos -
explicou enquanto fazia as malas no ltimo dia. Detestava ter
de se ir embora e j alargara a sua estada at ao limite do ra
zovel, pois estava a danar to bem que decidira ampliar as
frias de Natal, encurtando assim um pouco o perodo de en
saios. - Odeio ter de te deixar - admitiu.
Passaram o resto da tarde na cama a fazer amor, a proferir promessas e a partilhar segredos. Nunca fora to feliz com ele e nunca se tinham amado tanto como naquele 
momento.
Quando Danina partiu no dia seguinte, Nikolai prometeu ir assistir ao seu prximo espectculo.
Primeiro temos de ensaiar - lembrou-lhe antes de se
despedirem na estao.
Irei ver-te daqui a alguns dias.
Fico  tua espera - advertiu ela.
Fora um dos perodos mais felizes que jamais haviam tido
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e Danina estava decidida a pedir a Madame Markova que lhe concedesse outra semana de frias na Primavera. Tinha a certeza de que a sua mentora ficaria furiosa com 
a ideia; porm, se danasse bem nos prximos trs meses, talvez concordasse. At ento, mostrava-se muito satisfeita por Danina no ter feito nada de insensato ou 
drstico e estava quase convencida de que nunca o faria. A altura para tal parecia j ter passado e Madame Markova esperava s que se fartassem um do outro. Permitir 
que Danina o visse ocasionalmente parecia satisfaz--los e, a seu tempo, sem dvida que se cansariam de uma relao que no teria futuro. Madame Markova sabia que 
no corao de Danina o ballet acabaria por sair vencedor. Tinha a certeza.
Danina comeou a exercitar-se nessa mesma tarde assim que chegou. s quatro da manh do dia seguinte estava novamente a trabalhar e s sete tiveram incio os ensaios. 
Estava em boa forma e j conhecia to bem o papel que iria desempenhar que parecia at um pouco desatenta. Brincou com algumas das outras bailarinas nas costas da 
professora e executou uns passos novos. Fez ento um salto que deslumbrou toda a gente e um bonito ps de deux com um dos bailarinos.
Era j quase noite quando pararam para comer alguma coisa. Estavam a danar h quase dez horas, o que no era invulgar, e Danina sentia-se cansada, embora no excessivamente. 
Executou ainda um salto antes de parar, mas algum se sobressaltou ao v-la desequilibrar-se na chegada ao cho e escorregar ao longo do estdio com um dos ps num 
ngulo pouco natural. Um profundo silncio abateu-se sobre a sala enquanto esperavam que se levantasse. Danina estava muito branca e agarrada ao tornozelo em silncio. 
Toda a gente correu ento para ela e a professora atravessou o estdio para ver o que acontecera. Estava  espera de encontrar uma distenso grave ou uma bailarina 
que estaria muito dorida na manh seguinte; todavia, contrariamente ao que esperava, o que viu foi o p de Danina num ngulo quase impossvel com a perna. Estava, 
como  bvio, em choque e quase inconsciente.
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Levem-na para a cama j - gritou ento a professora.
Os dentes de Danina estavam cerrados, a sua face branca co
mo a cal. Ningum tinha dvidas do que acontecera. Tinha
partido,  e  no  distendido,  o  tornozelo.  Uma sentena  de
morte, caso se confirmasse, para uma prima ballerina ou para
qualquer bailarina. No se ouvia um nico som, uma s pala
vra, apenas o ocasional arquejar de Danina enquanto a trans
portavam para o quarto. Um momento depois encontrava-se
estendida na sua cama. Sem uma palavra, a professora cortou-
-Ihe os collants, usando um pequeno canivete afiado que trazia
sempre consigo para situaes como aquela. O tornozelo in
chara j muito e o p continuava no mesmo ngulo horrvel.
Danina olhou para ele horrorizada.
Chamem um mdico j! - gritou uma voz da entra
da. Era Madame Markova. Havia um mdico que costuma
vam chamar nessas situaes. Era muito bom a tratar de dis
tenses,  entorses e ligamentos e j os ajudara em ocasies
anteriores. No entanto, o que Madame Markova viu quando
entrou no quarto quase lhe partiu o corao. Num nico ins
tante, com um nico salto, tudo terminara para Danina.
O mdico no tardou a confirmar os piores receios. O tornozelo estava, de facto, gravemente partido e Danina teria de ser levada para o hospital para ser operada, 
de modo a que o osso fosse recolocado 110 seu lugar. No havia mais nada a fazer. Uma dezena de mos apertaram a de Danina enquanto a transportavam para a ambulncia. 
Toda a gente chorava, embora ningum de forma to desesperada como Danina. J vira aquilo acontecer outras vezes e sabia exactamente quais as consequncias. Depois 
de quinze rduos anos dentro daquelas quatro paredes, a sua promissora carreira terminava aos vinte e dois anos.
Foi operada naquela noite e a perna foi imobilizada e engessada. Para qualquer pessoa, a operao teria sido um sucesso. A perna manter-se-ia direita e, mesmo que 
ficasse a coxear um pouco, seria quase imperceptvel. No caso de Danina, era uma tragdia. O tornozelo ficara danificado e no seria capaz de suportar o seu peso 
de modo a que pudesse voltar a danar. No havia maneira de recuperar a flexibilidade e fora necessrias e no existiam palavras para a consolar.
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A sua carreira chegara ao fim com um pequeno e disparatado salto. Para alm do tornozelo, tambm a sua vida ficara destruda naquele instante.
Chorou toda a noite, quase to desesperadamente como quando perdera o filho de Nikolai. A vida que perdera desta vez era a sua. Era o fim de um sonho, um final trgico 
que se contrapunha a um comeo brilhante. Madame Markova estava ao seu lado, lutando para conter as lgrimas. Danina fizera os sacrifcios necessrios, empenhara-se 
de alma e corao, mas o destino no lhe sorrira. A sua vida como bailarina, a nica que conhecera e pela qual estivera disposta a morrer durante quinze anos, chegara 
ao fim.
No dia seguinte foi enviada de volta  escola de ballet. As restantes bailarinas vinham visit-la ao quarto, sozinhas ou aos pares, com flores, com palavras carinhosas, 
com pena, como se a viessem chorar. Na verdade, sentia-se como se estivesse morta e, de certa forma, estava. J sentia que no pertencia ali e era apenas uma questo 
de tempo at que tivesse de reunir as suas coisas e partir. Era demasiado jovem para ensinar e, de qualquer maneira, no podia. Era o fim, a morte de um sonho.
S dois dias depois reuniu coragem para escrever a Nikolai que, assim que recebeu a carta, veio imediatamente, incapaz de acreditar no que acontecera, apesar de 
toda a gente lho ter explicado em pormenor logo que chegou. Todas as bailarinas o conheciam e simpatizavam muito com ele e contaram-lhe vezes sem conta como Danina 
cara e a sua expresso, tombada no cho agarrada ao tornozelo.
V-la ali deitada com a perna toda engessada e um olhar de desespero no rosto confirmou tudo o que as bailarinas lhe haviam dito. Todavia, por muito terrvel que 
a situao fosse para Danina, para ele representava um raio de esperana. Era a sua nica hiptese de uma nova vida. Sem isso ela nunca teria abandonado o ballet, 
mas Nikolai sabia que no poderia falar-lhe do assunto por agora.
Desta vez, quando sugeriu lev-la com ele, Madame Markova no discordou. Sabia que seria melhor para a sua protegida no estar ali, pelo menos por enquanto, a ouvir 
os sons, as vozes e as pessoas que lhe eram familiares a irem e virem
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das aulas e dos ensaios. J no pertencia ali. Podia um dia voltar, embora no para danar, mas, por agora, era menos doloroso que no estivesse ali. Para seu prprio 
bem, o passado tinha de ser enterrado o mais cedo possvel. Dois teros da sua vida, e a nica que conhecera at se apaixonar por Niko-lai, estavam irremediavelmente 
perdidos.

CAPITULO 9
Danina ficou muito aliviada por regressar  casa de hspedes, e toda a famlia ficou contente de a ver e a acarinhou. A recuperao foi lenta e dolorosa e quando 
finalmente pde tirar o gesso, mais de um ms depois de ter cado, o tornozelo parecia fraco e encolhido. Mal conseguia firmar-se na perna esquerda e chorou da primeira 
vez que caminhou. Coxeava tanto que o seu corpo parecia deformado. Era uma mera sombra da ave graciosa que fora.
-        Vais melhorar, Danina, prometo - garantiu Nikolai.
- Acredita em mim. Tens de ter coragem e esforar-te bas
tante.
Mediu-lhe ambas as pernas e verificou que tinham o mesmo tamanho, por isso, o coxear advinha meramente do facto de a sua perna estar ainda muito fraca. Nunca mais 
danaria, mas continuaria a andar de forma normal. A czarina e as crianas mostraram-se muito solcitas.
S vrias semanas depois  que Danina conseguiu atravessar o quarto sem bengala e ainda coxeava quando, no final de Fevereiro, recebeu uma carta que a informava 
que Madame Markova adoecera. Tinha pneumonia e, embora no fosse muito grave, j no era a primeira vez que adoecia e Danina sabia que podia ser perigoso. Apesar 
de no ter muita fora na perna e no se equilibrar muito bem, insistiu em ir tratar dela. Ainda usava a bengala para percorrer distncias maiores e o mdico recomendara-lhe 
que no se esforasse muito, porm achava que devia regressar ao ballet pelo menos at Madame Markova recuperar. A sua mentora estava mais debilitada do que aparentava 
e Danina temia pela sua vida.
 o mnimo que posso fazer - argumentou com Ni
kolai que,  embora  compartilhasse dos seus sentimentos,  se
opunha  sua ida. Tinham-se j registado tumultos em Sam-
petersburgo e em Moscovo e no gostava muito da ideia de
a ver partir sozinha. Alexei no estava bem, por isso ele no a
poderia acompanhar.
No sejas tonto, vai correr tudo bem - insistiu Dani-
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na e, depois de um dia a argumentar com ele, conseguiu que concordasse em deix-la ir sozinha. - Estou de volta daqui a uma semana ou duas, assim que ela melhorar. 
Madame Mar-kova fez o mesmo por mim.
Nikolai compreendia bem o poderoso lao que as unia e tambm sabia que Danina ficaria destroada se no pudesse ir.
Levou-a ao comboio no dia seguinte, aconselhou-a a ter cuidado e a no se cansar, entregou-lhe a bengala e despediu--se dela com um beijo e um abrao. Danina garantiu-lhe 
que ficaria bem. Detestava v-la afastar-se de si e tinha pena de no poder acompanh-la, mas compreendia a situao e f-la prometer que apanharia um txi directamente 
da estao para a escola de ballet.
Para sua surpresa, quando chegou a Sampetersburgo viu grupos de pessoas nas ruas a gritar e a manifestar-se contra o czar e soldados a tentar manter a ordem. No 
ouvira nada sobre aquilo em Tsarskoie Selo e ficou espantada por se lhe deparar aquele clima de tenso na cidade. Afastou rapidamente a preocupao da sua mente 
e dirigiu-se  escola de ballet. Pensava apenas em Madame Markova e a sua esperana era que a sua mentora e velha amiga no estivesse muito doente. Ficou desanimada 
ao verificar que estivera muito mal e que a doena a debilitara extraordinariamente.
Danina mantinha-se ao seu lado todos os dias, alimentava--a e tentava anim-la. Ficou mais aliviada quando, ao fim de uma semana, comeou a ver algumas melhoras, 
mas Madame Markova parecia ter envelhecido anos em poucas semanas e mostrava-se muito deprimida. O movimento constante para c e para l enquanto tratava de Madame 
Markova fez com que o tornozelo inchasse e lhe provocasse dores.  noite, ia deitar-se exausta e os dias pareciam passar num pice. Dormia numa cama improvisada 
no gabinete da sua mentora, pois a sua antiga cama tinha j sido confiada a outra bailarina.
Estava a dormir profundamente na manh do dia onze de Maro quando uma multido de pessoas se concentrou numa rua no muito longe da escola de ballet. Os gritos 
e os primeiros tiros acordaram-na e fizeram-na levantar-se para ver o que se passava. Muitas bailarinas tinham j abandonado as salas de aula e concentravam-se no 
grande salo de entrada. As mais
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corajosas espreitavam pelas janelas e diziam que apenas se viam alguns soldados a passar apressadamente a cavalo. Ningum fazia ideia do que estava a acontecer e 
s mais tarde se soube que o czar ordenara por fim ao exrcito que travasse a revoluo e que mais de duas centenas de pessoas tinham sido mortas. Os tribunais, 
o arsenal, o Ministrio do Interior e vrias esquadras de polcia tinham sido incendiadas. As prises haviam sido abertas  fora pelo povo.
Ao fim da tarde, os tiros deixaram de se ouvir e, apesar das alarmantes notcias daquele dia, a noite passou-se com relativa calma. No entanto, na manh seguinte, 
soube-se que os soldados se tinham recusado a acatar as ordens de disparar contra os manifestantes e haviam retirado para os quartis. Era o incio da Revoluo.
Alguns dos bailarinos aventuraram-se a sair da escola nessa tarde; porm, regressaram rapidamente e barricaram as portas do edifcio. Estavam em segurana ali, mas 
as notcias que recebiam eram cada vez mais assustadoras. A quinze de Maro souberam que o czar abdicara em seu nome e do czarviche em favor do seu irmo, o gro-duque 
Mikhail, e que regressava da frente para Tsarskoie Selo para ser preso. Era impossvel compreender, quanto mais assimilar, o que estava a acontecer em seu redor. 
Tal como os outros, Danina no conseguia entender tudo o que se passava. As informaes eram contraditrias e confusas.
S uma semana mais tarde, a vinte e dois de Maro,  que Danina recebeu finalmente um bilhete de Nikolai, trazido por um guarda que fora autorizado a abandonar Tsarskoie 
Selo.
"Estamos sob priso domiciliria. Posso entrar e sair, mas no sou capaz de abandonar a famlia. Todas as gr-duquesas apanharam sarampo e a czarina est muito preocupada 
com elas e com o Alexei. Fica onde ests, em segurana, meu amor. Irei ter contigo assim que puder. Rezo para que possamos estar novamente juntos em breve. No te 
esqueas que te amo, mais do que  prpria vida. No te aventures para o meio do perigo. Acima de tudo, mantm-te em segurana at eu chegar. Com todo o meu amor, 
N."
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Leu o bilhete vezes sem conta, segurando-o entre as mos trmulas. Era inacreditvel. O czar tinha abdicado e o resto da famlia estava sob priso domiciliria. 
Danina arrependeu-se de os ter deixado. Se estavam em perigo, preferia estar junto deles e morrer ao lado de Nikolai, caso fosse necessrio.
Nikolai veio ter com ela j quase no final de Maro. Viera a cavalo desde Tsarskoie Selo, pois essa era a nica forma de poder viajar, e tinha um ar exausto. Os 
soldados que guardavam a famlia imperial haviam-no deixado sair e prometeram-lhe que poderia regressar. Foi com um olhar de desespero que lhe disse, bem claramente, 
 porta do gabinete de Madame Markova, que teriam de abandonar a Rssia assim que tratasse de tudo.
Aproximam-se tempos terrveis. No h forma de pre
ver o que acontecer. J convenci a Marie a partir para Ingla
terra com os rapazes. Partem na prxima semana. Ela ainda 
inglesa, por isso no ter problemas em abandonar o pas, mas
podero no ser to simpticos connosco, se ficarmos aqui.
Quero s esperar at que as gr-duquesas melhorem e assegu
rar-me de que a famlia fica em segurana. Depois tratarei das
passagens para a Amrica e iremos para junto do meu primo
Viktor.
No acredito no que se est a passar - confessou Da
nina, horrorizada com o que ouvia. Parecia que, numa ques
to de semanas, o mundo que conheciam se transformara de
forma irreconhecvel. - Como esto eles? Muito assustados?
- perguntou, preocupada. Tinham j passado por tanto no
ltimo ms.
No, so todos extremamente corajosos - respondeu,
tambm apreensivo. - Assim que o czar regressou, toda a
gente ficou mais calma.  Os guardas so bastante razoveis,
mas a famlia no pode abandonar o palcio.
O que lhes iro fazer? - inquiriu, temendo pelos seus
amigos.
Nada, com certeza.  Foi todavia um grande choque.
Fala-se na ida deles para Inglaterra, para junto dos primos,
mas ter ainda de haver negociaes. Talvez fiquem em Liva-
dia enquanto esperam. Se isso acontecer, acompanh-los-ei e
depois voltarei para aqui.  Tens de te preparar,  meu amor.
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Desta vez Danina no contraps argumentos ou ponderou a sua deciso. Sabia com certeza que iria com ele. Antes de partir naquela noite, Nikolai depositou nas suas 
mos um rolo de notas. Disse-lhe que comprasse as passagens para ambos, de forma a que pudessem partir nas prximas semanas. Tinha a certeza de que, por essa altura, 
a famlia imperial j estaria confortavelmente instalada e poderia deix-los para se juntar a ela.
Foi com uma sensao de medo que Danina o viu partir. E se lhe acontecesse alguma coisa? Depois de montar o cavalo, voltou-se e sorriu para ela, dizendo-lhe que 
no se preocupasse, pois junto da famlia imperial estava ainda mais seguro do que ela. Afastou-se ento a galope e Danina voltou para dentro agarrando firmemente 
o dinheiro que lhe deixara.
Foi um longo e angustiante ms  espera de notcias de Nikolai e tentando perceber o que se passava pelos rumores que se ouviam nas ruas. O destino do czar parecia 
ainda incerto e dizia-se que ficariam em Tsarskoie Selo, que iriam para Livadia ou para Inglaterra. No havia notcias certas, apenas rumores, e as duas cartas que 
recebera de Nikolai tambm no adiantavam mais nada ao que j sabia. Mesmo em Tsarskoie Selo, nada era definitivo ou certo, ningum sabia onde ou como tudo terminaria.
Danina poupou o mximo que pde enquanto esperava por notcias mais concretas de Nikolai e foi com grande pesar que vendeu o pequeno sapo de Faberg que Alexei lhe 
dera, pois sabia que assim que estivessem em Vermont precisariam de todo o dinheiro que pudessem juntar.
Conseguiu contactar o pai atravs do seu regimento e, numa breve carta, contou-lhe o que planeava fazer. Porm, mais uma vez, a carta que recebeu dele era portadora 
de ms notcias. O terceiro dos seus quatro irmos fora morto e o pai exortava-a a fazer o que Nikolai sugeria. Lembrava-se de o ter conhecido, embora ainda no 
fizesse ideia de que ele era casado. Encorajava-a portanto a ir com ele para Vermont e disse-lhe que a contactaria l. Poderiam regressar assim que a guerra terminasse. 
Pedia-lhe entretanto que rezasse pela Rssia, desejava-lhe boa viagem e declarava que a amava.
Danina ficou em choque quando leu a carta, incapaz de
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acreditar que perdera mais um dos seus irmos. De repente foi invadida pela ideia de que nunca mais voltaria a ver o pai ou o irmo que lhe restava. Os dias eram 
uma constante agonia, sempre preocupada com a famlia imperial e com Niko-lai. Comprou por fim as passagens para um navio que partiria no final de Maio, mas s no 
dia um desse ms teve novas de Nikolai. A sua carta era mais uma vez curta, pois quisera envi-la o mais rpido possvel.
"Por aqui est tudo bem e continuamos a aguardar notcias. Todos os dias nos dizem uma coisa diferente e ainda no h nada definido quanto  ida para Inglaterra. 
 uma situao um pouco constrangedora para eles, mas toda a gente se mantm bem-disposta. Parece que partiro para Livadia em Junho. Tenho de ficar com eles at 
l. No posso abandon-los agora, como compreenders. A Mare e os rapazes partiram a semana passada. Irei juntar-me a ti em Sampetersburgo no final de Junho, prometo. 
At l, meu amor, mantm-te em segurana e pensa apenas em Vermont e no nosso futuro l. Se puder, irei ver-te por algumas horas."
As mos tremiam-lhe enquanto lia a carta e no conseguiu conter as lgrimas ao pensar nele, nos irmos que perdera, em todos os homens que haviam morrido e nos sonhos 
que ficavam por cumprir. Acontecera tanta coisa em to pouco tempo. Era impossvel ficar indiferente.
No dia seguinte, Danina foi trocar os bilhetes para um navio que largava para Nova Iorque no final de Junho.
Madame Markova tinha entretanto recuperado da pneumonia e, tal como toda a gente, estava muito preocupada com o futuro. Danina contou-lhe tudo o que planeava fazer 
com Nikolai e a sua mentora no se ops a que partisse com o amante. J no podia danar e o perigo em Sampetersburgo e por toda a Rssia era considervel. Madame 
Markova ficou at aliviada por saber que Danina ficaria em segurana e admitiu finalmente que acreditava que Nikolai seria bom para ela, quer casassem ou no, embora 
tivesse esperana de que um dia isso acontecese.
Contudo, mesmo sabendo que partiria para um lugar se-
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guro com ele dentro de um ms, Danina no deixava de se sentir constantemente perseguida por tudo o que deixaria para trs: a famlia, os amigos, a sua terra natal 
e o nico mundo que conhecera, o ballet.
Nikolai j lhe revelara que o primo lhe oferecera emprego no seu banco e que viveriam com ele o tempo que quisessem at terem dinheiro suficiente para comprar uma 
casa. Para alm disso, Nikolai planeava frequentar as aulas que fossem necessrias para que um dia pudesse exercer medicina na Amrica. As perspectivas eram animadoras. 
Tudo parecia cuidadosamente planeado, embora Danina soubesse que demoraria muito tempo at que conseguissem atingir os seus objectivos. Por agora, o nico pensamento 
que lhe ocupava o esprito era sair da Rssia, mas Vermont parecia-lhe to distante, que bem poderia ser num outro planeta.
Uma semana antes de partirem, Nikolai veio v-la de novo e mais uma vez com notcias pouco animadoras. A czarina adoecera h alguns dias. Estava exausta e sob uma 
enorme presso e, embora o Dr. Botkin estivesse ainda com a famlia imperial, Nikolai no tinha coragem de os abandonar. A viagem para Livadia fora adiada mais uma 
vez, estando agora marcada para Julho. Continuavam tambm  espera que os primos ingleses concordassem com a sua transferncia para Inglaterra, mas, at agora, no 
tinham chegado a nenhum acordo.
S quero v-los bem instalados - explicou, e Danina
acenou afirmativamente com a cabea, pois tambm se preo
cupava com os seus amigos. Estiveram uma hora a conversar,
a abraar-se, a beijar-se e a aproveitar o pouco tempo que es
tavam juntos. Madame Markova foi preparar qualquer coisa
para Nikolai comer. Fora uma longa e poeirenta cavalgada
desde Tsarskoe Selo.
Eu  compreendo,  meu  amor - assegurou  Danina,
apertando-lhe a mo. S desejava poder voltar com ele para
Tsarskoie Selo e ver de novo a famlia imperial. Escreveu
uma carta s gr-duquesas e a Alexei, expressando a sua com
preenso e prometendo que voltariam a ver-se. Nikolai do
brou-a e colocou-a no seu bolso.
Explicara a Danina toda a situao e o que a priso domi-
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ciliria implicava. Podiam passear pelos jardins e por todo o recinto do palcio, mas no podiam abandon-lo. Disse-lhe ainda que havia pessoas que se iam colocar 
junto aos portes em sinal de solidariedade ou para os criticar por coisas que no tinham feito. As palavras de Nikolai feriam-lhe o corao e, mais do que nunca, 
desejou estar junto deles para lhes poder dar o seu apoio e fazer tudo o que pudesse por eles.
Foi mais uma vez com o corao desfeito que viu Nikolai partir naquela noite, embora soubesse que tinha mesmo de regressar a Tsarskoie Selo. Desta vez, trocou os 
bilhetes para um navio que partiria no dia um de Agosto. Nikolai prometera que j estaria de volta a Sampetersburgo nessa altura. Era a terceira vez que adiavam 
a partida e tinham j passado trs meses desde o incio da revoluo. Uma eternidade, pensava Danina, que continuava  espera de Nikolai.
Por essa altura, alguns dos bailarinos e bailarinas tinham j partido para as suas terras e os seus pases, embora a maioria tivesse decidido ficar. Todos os espectculos 
haviam sido cancelados h meses, mas Madame Markova prometera que, assim que se sentisse com mais fora, as aulas seriam retomadas ao ritmo normal e convidou Danina 
a assistir s aulas. Era a nica coisa que poderia agora fazer no ballet, mas j nem se importava. Tudo em que pensava agora,  medida que os dias se arrastavam, 
era em Nikolai e nos seus amigos. O fim do ms aproximou-se e ele regressou para a visitar. Desta vez, o futuro da famlia imperial estava decidido. A viagem para 
Li-vadia fora vetada pelo governo provisrio por se considerar demasiado perigosa, visto que teriam de atravessar algumas cidades consideradas hostis. Assim sendo, 
partiriam para To-bolsk, na Sibria, no dia catorze de Agosto. Nikolai olhou ento cautelosamente para Danina, pois havia mais qualquer coisa que lhe queria dizer 
e no sabia bem como reagiria  sua deciso.
Irei com eles - comunicou de forma to natural que
a princpio Danina pensou que no tinha compreendido bem.
Para a Sibria? - perguntou, chocada. O que queria
ele dizer com isso?
Consegui permisso para os acompanhar na viagem e
regressar imediatamente a seguir. Danina, no os posso aban-
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donar agora. Tenho de ir at ao fim e assegurar-me de que ficam em segurana. At haver notcias dos seus primos ingleses, ficaro exilados em Tobolsk. Livadia seria 
um local mais agradvel, mas o governo pretende que fiquem o mais isolados possvel, para sua prpria segurana. A famlia est muito angustiada com a situao e 
no tenho coragem de os abandonar assim. Tm sido como uma famlia para mim.
Eu compreendo - disse com os olhos a encherem-se
de lgrimas. - Tenho tanta pena deles. Os guardas so com
preensivos?
Bastante. Muitos dos empregados j se foram embora,
mas, para alm disso, pouco mudou dentro do palcio.
Ambos sabiam que a vida na Sibria seria bem diferente e, tal  como  Nikolai,  Danina  estava preocupada  com  Alexei.
-        E por isso que pretendo ir - asseverou. - O doutor
Botkin tambm vai e ficar com eles. A deciso foi dele e, de
certa forma, isso permite-me deix-los para me vir juntar a ti.
Danina ia acenando com a cabea  medida que o escutava, mas havia ainda algo mais a dizer.
-        Danina... - comeou, e ela pressentiu de imediato
que havia algo de ameaador na sua voz. Podia quase adivi
nhar o que estava prestes a dizer-lhe. - No quero que vs
trocar as passagens de novo. Quero que embarques sem mim.
A cidade est cada vez mais perigosa. Pode acontecer-te algu
ma coisa e eu no posso vir ter contigo ou proteger-te, espe
cialmente quando estiver a caminho da Sibria.
Mesmo naquele momento, ir e vir de Tsarskoie Selo para Sampetersburgo tornara-se uma provao.
Quero que partas para a Amrica no dia um de Agosto
como planeado. Eu irei para a Sibria com a famlia imperial
daqui a umas semanas e apanharei um barco para me juntar a
ti assim que regressar a Sampetersburgo. Sentir-me-ei muito
melhor se souber que ests l e o Viktor olhar por ti. No
me contraries, e faz o que te peo - disse Nikolai severa
mente, antecipando a resistncia que ela iria oferecer, mas,
para sua surpresa, e com as lgrimas a correrem-lhe pelas fa
ces, Danina concordou.
Eu compreendo. Ficar aqui  perigoso. Irei... E tu irs
ter comigo assim que possvel. - Sabia que no valia a pena
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argumentar com ele, pois Nikolai tinha razo. O que a atormentava era a ideia de partir sem ele, mas, visto que Nikolai ia para a Sibria com o czar, era melhor 
partir antes dele. - Quando achas que poders embarcar para te juntares a mim?
-        No final de Setembro, tenho a certeza. Ficarei muito
mais descansado se souber que ests em segurana longe daqui
- confessou. Abraou-a ento enquanto ela chorava, ansian
do pelo momento em que ficariam finalmente juntos. Nikolai
j sabia que Marie e os rapazes estavam bem e felizes por vol
tar a Inglaterra. Agora, queria ver tambm Danina em segu
rana. Sabia que o primo cuidaria bem dela. Viktor tinha j
prometido fazer tudo o que pudesse por eles e Nikolai con
fiava nele. Podia assim viajar para a Sibria com a famlia im
perial, livre de preocupaes. Partiria depois para a Amrica
onde recomearia uma nova vida.
Contara a Marie os seus planos antes de ela partir e, surpreendentemente, esta mostrara-se bastante compreensiva e prometera que o deixaria ver os filhos sempre 
que quisesse, embora Nikolai soubesse, tal como ela, que se passariam vrios anos at que pudesse regressar  Europa. A farsa em que o seu casamento se tornara tinha 
j ido longe de mais e, no seu corao, Nikolai sentia-se mais casado com Danina do que com Marie. As formalidades e as burocracias j no significavam nada para 
si.
Marie desejara-lhe sorte antes de partir, e ele e os rapazes choraram na despedida. Marie no. Estava aliviada por deixar a Rssia e h muito que no sentia mais 
nada pelo marido. Nikolai sentia-se agora livre para continuar a sua vida, assim que cumprisse as suas obrigaes para com a famlia imperial.
-        Regressarei daqui a um dia ou dois - prometeu antes
de voltar para Tsarskoie Selo. - Poderemos ficar num hotel
at tu partires. - Queria estar com ela de novo, t-la nos
seus braos e v-la partir para um local seguro. Dali a cerca
de um ms estariam de novo juntos, mas antes precisava de
estar com ela. Tinham-se passado cinco meses desde que che
gara a Sampetersburgo para vir tratar de Madame Markova, e
esse tempo parecia a ambos uma eternidade.
O mundo que os rodeava mudara completamente no espao desses cinco meses e mudaria de novo quando se reunis-
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sem em Vermont. Nada seria o mesmo para eles, talvez fosse melhor, rezava Nikolai. Preferia partir com Danina; porm, a sua conscincia nunca lho permitiria. Primeiro 
tinha de se assegurar de que a famlia imperial ficava em boas mos. Era o mnimo que podia fazer por eles, depois de toda a generosidade e compreenso que sempre 
haviam manifestado para com ele durante todos os anos em que estivera ao servio da famlia.
Como prometido, voltou para junto de Danina trs dias antes de ela embarcar. Danina estava a observar uma aula com Madame Markova quando ele chegou. Olhou instintivamente 
para a porta e viu-o ali a olhar para ela. Chegara o momento da partida e das despedidas, o momento que Danina sempre temera. Madame Markova apercebeu-se do mesmo 
e ficou paralisada no banco em que ambas estavam sentadas. Danina olhou para ela durante um bocado e depois levantou-se e caminhou na direco de Nikolai. Tinha 
j as malas feitas e estava pronta para partir. Enquanto guardava o resto das suas coisas e Nikolai a esperava na entrada, Madame Markova veio ter com ela ao quarto 
e ficou a olhar para as suas malas. Tudo o que Danina possua coubera facilmente em duas malas velhas. Olharam ento uma para a outra, mas nenhuma pronunciou uma 
nica palavra durante algum tempo. Danina estava sem coragem para falar e a mulher que fora como uma me para ela durante quinze anos parecia devastada.
Nunca pensei que este dia chegasse - disse Madame
Markova com uma voz trmula. - E nunca pensei que te
deixaria ir quando o momento chegasse... Agora, estou con
tente por ti. Quero que sejas feliz, Danina, e, para isso, tens
de partir.
Vou sentir tanto a sua falta - balbuciou Danina, dan
do dois passos na sua direco e abraando-se a ela. - Volta
rei para a visitar - prometeu, mas, no fundo do seu corao,
Madame Markova sabia que a sua bailarina preferida no vol
taria. No podia acreditar que a criana que amava, agora
uma mulher, partiria para sempre. Era a ltima vez que se ve
riam.
Nunca esqueas tudo o que aqui aprendeste, o que
significou para ti, o que foste quando aqui estavas. Leva tudo
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contigo no teu corao. No poders deixar o ballet para trs, pois ele faz parte de ti.
No quero deix-la - lamentou-se Danina, angustiada.
Tem de ser. O Nikolai juntar-se- a ti na Amrica as
sim que puder e l ters uma vida boa com ele. Acredito nis
so e desejo-o para ti.
Quem me dera poder lev-la comigo - murmurou
Danina, abraando-se mais a ela, relutante em deix-la.
Estarei sempre contigo e uma parte de ti estar sempre
comigo. Aqui - disse, apontando para o corao. - Agora,
 melhor ires. - Agarrou ento uma das malas de Danina e
dirigiram-se para a sala onde Nikolai as esperava. Percebeu de
imediato que a despedida fora difcil e foi ajud-la com as
malas.
Ests pronta? - perguntou. Danina assentiu com a ca
bea e encaminhou-se para a porta da frente. Madame Mar-
kova seguiu-a lentamente, no tirando os olhos dela, aprovei
tando cada segundo da sua presena.
Assim que chegaram  porta, esta abriu-se de repente, deixando entrar uma criana. Tinha oito ou nove anos e trazia uma mala. A me colocou-se orgulhosamente ao 
seu lado. Era uma menina muito bonita com duas longas tranas loiras que olhava expectante para Danina.
s bailarina? - perguntou, sem embarao.
Fui, mas j no sou mais - respondeu. Madame Mar-
kova e Nikolai aperceberam-se do quanto lhe custou pro
nunciar aquelas palavras.
Eu vou ser bailarina e vou viver aqui para sempre -
adiantou a menina com um sorriso.
Danina sorriu tambm e recordou-se do dia em que o pai a trouxera para a escola de ballet. Estava bem mais assustada do que aquela menina, era bastante mais nova 
e no tinha me para a acompanhar.
-        Acho que sers muito feliz aqui - assegurou-lhe Da
nina, sorrindo entre as lgrimas. - Ters de trabalhar muito,
muito, muito todos os dias, a toda a hora. Ters de amar o
ballet mais do que qualquer coisa no mundo, ser capaz de re
nunciar a tudo o que mais gostas e acreditar que esta ser a
tua vida a partir de agora.
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Como se explica isto a uma criana de nove anos? Como se consegue que ame o ballet acima de tudo o resto? Como se ensina a sacrificar e a dar tudo o que se tem at 
quase  morte? Ser que se ensina ou j nasce connosco? Danina no tinha a resposta. Afagou apenas os cabelos da menina quando passou por ela e olhou para Madame 
Markova a chorar. Sabia ainda menos como dizer adeus aps tantos anos de sacrifcio, de trabalho, de amor. Para Danina era o final da histria. Para si o ballet 
terminara, para aquela criana ia comear.
- Olhe bem por ela - disse Madame Markova carinhosamente a Nikolai enquanto a me e a criana entravam no edifcio. Depois, apertando a mo de Danina pela ltima 
vez, voltou-se e afastou-se para que no a vissem chorar. Danina ficou ainda a olhar para ela durante um bocado e depois abandonou o edifcio pela ltima vez. J 
no pertencia ao ballet e jamais voltaria a pertencer. Aquele era o momento que receara toda a sua vida. J no fazia parte daquele mundo e ia abandon-lo para sempre. 
A porta do edifcio fechou-se ento silenciosamente atrs de si.


CAPITULO 10
Passaram o ltimo dia em Sampetersburgo a passear pelas ruas e a visitar locais de que ambos gostavam. Era uma litania de recordaes e angstias e, a certa altura, 
Danina j nem se lembrava do motivo por que tinha de partir. Se gostavam tanto daquela cidade, porqu partir? No entanto, no podiam iludir-se mais. Era altura de 
abandonar o seu pas natal, principalmente agora com a revoluo no seu auge. Sem ela, no entanto, Marie nunca teria partido para Inglaterra e nunca libertaria Nikolai, 
e Danina no teria para onde ir, agora que j no podia danar. No deixava de ser irnico. Tinham de percorrer milhares de quilmetros para um mundo novo para que 
pudessem ter uma vida a dois, mas sabiam que valia a pena. A partida era o que mais custava; porm, mais um dia e estaria no navio e dali a um ms Nikolai estaria 
com ela. De certa forma, parecia uma grande aventura.
De regresso ao hotel onde se haviam instalado sob o nome dele, compraram o jornal e leram as ltimas notcias da guerra. Eram angustiantes e impossveis de ignorar.
Nessa noite jantaram no quarto para aproveitar os ltimos momentos em que estavam juntos. Tinham tanto para dizer um ao outro, tantas promessas a formular, tantos 
sonhos para construir. Os trs dias e noites que passaram juntos haviam voado num pice. Mal tinham dormido nesse tempo para no perder um nico instante. As malas 
de Danina estavam feitas, os seus poucos tesouros e recordaes prontos a seguir consigo. Levava at os vestidos que a czarina lhe oferecera, embora soubesse que 
faziam agora parte do passado. Nikolai aproveitava para mandar tambm duas malas, como que para lhe provar que iria mais tarde ter com ela.
Por vezes, Danina questionava-se sobre a forma como iriam explicar aos seus filhos, se tivessem algum, como fora a sua vida. Iriam com certeza achar que se assemelhava 
a um conto de fadas. Talvez tudo o que houvesse a fazer era esquec-la, guardar as recordaes, os programas dos espectculos, as fotografias, os vestidos, as sapatilhas, 
e espanej-los de
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quando em vez s para olhar para eles. Ou talvez at isso fosse demasiado doloroso. Sabia que quando deixassem Sampe-tersburgo teria de fechar a porta ao passado, 
para sempre.
Nessa noite deitaram-se cedo e ficaram nos braos um do outro sem dormir, mas o Sol nasceu rapidamente e, para grande pesar de ambos, tiveram de se levantar para 
enfrentar a despedida. Danina antecipava j a dor que a ausncia de Ni-kolai lhe provocaria.
O carregador levara todas as malas para baixo e Danina sentia-se como uma criana prestes a abandonar o lar para sempre.
-        Prometo, Danina, irei ter contigo o mais rpido poss
vel, independentemente da situao do pas. Nada me impe
dir - garantiu a caminho do porto, lendo a inquietao nos
seus olhos. O corao de Danina despedaava-se de cada vez
que pensava que o ia deixar para trs, especialmente sabendo
que viajaria para a Sibria com a famlia imperial e que depois
teria de regressar a Sampetersburgo.
Nikolai ajudou-a a instalar-se no camarote. Danina ia partilh-lo com outra mulher, mas, como esta ainda no chegara, escolheu a cama que preferia. De repente, comeou 
a temer a viagem e confessou-o a Nikolai. Sem ele, sentir-se-ia muito sozinha e estaria sempre preocupada com o seu bem-estar.
-        Tambm terei muitas saudades tuas - disse, sorrindo.
- A cada instante. Tem muito cuidado contigo, minha que
rida. Vais ver, estarei junto de ti num piscar de olhos.
A sirena do navio fez-se ento ouvir, indicando aos visitantes que estava na altura de irem para terra. Nikolai abraou-a ainda durante um grande bocado. J no 
se importavam que fossem vistos abraados em pblico, pois aos olhos um do outro eram j marido e mulher.
Amo-te, nunca te esqueas disso. Irei assim que puder.
Cumprimentos ao meu primo. Ele  um pouco calado, mas
boa pessoa. Vais com certeza simpatizar com ele - garantiu
Nikolai.
Vou sentir tanto a tua falta - confessou, j a chorar.
A emoo era mais forte do que ela.
Eu sei - disse ele com carinho. - Tambm eu. -
E beijou-a longamente enquanto a sirena tocou pela ltima
vez e as pranchas de embarque comearam a ser retiradas.
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Deixa-me ficar contigo - disse, desesperada, tentando
convenc-lo. - No quero partir. Talvez me deixem ir con
tigo para a Sibria - continuou. Teria feito qualquer coisa
para ficar com ele.
Nunca o permitiriam, Danina, sabes bem - contra
ps. No queria dizer-lhe que era uma viagem perigosa, mas
isso no era segredo para ningum.
Lembra-te apenas do quanto te amo - recordou-lhe
ele. - Lembra-te disso at eu estar junto de ti. Amo-te mais
do que qualquer coisa na vida, Danina Petroskova... - Seria
a  ltima vez  que  a  trataria  assim.   Tinham j  concordado
que em Vermont ela usaria o seu nome, Obrajensky, para que
ningum desconfiasse de que no eram casados.
Amo-te tanto, Nikolai - declarou e, instintivamente,
levou a mo ao medalho. Estava ali, seguro em torno do seu
pescoo.
Ver-te-ei em breve - prometeu uma ltima vez; bei
jou-a e desceu a correr a ltima prancha de embarque. Dani
na chegou-se  amurada e ficou a v-lo no porto a olhar para
ela.
Amo-te! - gritou ela. - Tem cuidado!!! - Acenou-
-Ihe adeus e ele acenou-lhe de volta. Momentos depois o na
vio comeou a afastar-se do porto. Danina sentiu o corao
disparar e interrogou-se por que fora to estpida a ponto de
o deixar convenc-la a partir sozinha. Tinha a sensao de ter
tomado a deciso errada, mas sabia que agora devia de ser co
rajosa por ele. Haviam j passado por tanto, que bem podia
fazer mais aquele sacrifcio, deix-lo terminar a sua misso e
depois juntar-se a si em Vermont, para que pudessem por fim
comear uma nova vida como marido e mulher.
Ficou a dizer-lhe adeus at j quase no o distinguir, mas Nikolai continuava l a acenar-lhe, elegante e forte, o homem que conquistara o seu corao h dois anos 
atrs e que ela sabia que iria amar para sempre.
-        Amo-te, Nikolai - murmurou para o vento. Ficou
ainda na amurada durante bastante tempo com as lgrimas a
correrem-lhe pelo rosto e a pensar nele enquanto segurava o
medalho. Nem sequer sabia ao certo por que chorava. Ni
kolai tinha razo. Havia tanto por que ansiar, tanto pelo qual
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deviam estar agradecidos, tanta coisa  sua espera em Ver-mont. Estava tudo apenas a comear. No tinha razes para chorar, mas temia que esta fosse a ltima vez 
que o tivesse visto. Que disparate, pensou para si mesma, que motivos teria para pensar tal coisa? Olhou ento para o cu  medida que as ltimas gaivotas se despediam 
do navio. No podia perd-lo agora. Tal no podia acontecer, e, com um suspiro e um ltimo olhar para o seu pas natal, dirigiu-se para o camarote. No podia perder 
Nikolai, disse para si mesma. Independentemente do que acontecesse, am-lo-ia sempre e no haveria nada que os separasse.

EPLOGO
As respostas, como sempre acontece, estavam bem perto de mim. Mandei traduzir as cartas e todas elas eram cartas de amor que Nikolai Obrajensky escrevera  minha 
av. Contavam uma histria que me comoveu muito e explicavam muita coisa.
O resto soube atravs de duas das suas amigas com quem conversei quando voltei a Vermont no Vero seguinte para passar uma semana na casa da av com os meus filhos 
e o meu marido.
Encontrei os vestidos da czarina num ba no sto, o mesmo em que a av os trouxera. Estavam muito desbotados e o arminho j tinha amarelecido e, sessenta anos volvidos, 
mais pareciam trajes de teatro. Fiquei surpreendida por nunca os ter descoberto nas minhas incurses pelo sto quando era criana, mas o ba estava velho e gasto 
e escondido num canto. As malas dele tambm ainda l estavam, cuidadosamente etiquetadas: Dr. Nikolai Obrajensky. A av nunca tivera coragem de as desfazer depois 
de chegar a Vermont.
Os programas do ballet e as fotografias dela com as outras bailarinas tinham agora um novo significado para mim e as sapatilhas de pontas pareciam, de alguma forma, 
sagradas. Nunca me apercebera da importncia que tinham para ela. Sabia que fora bailarina, porm nunca compreendera o que tivera de sacrificar para o ser. Tentei 
explic-lo aos meus filhos e os olhos deles abriram-se de curiosidade enquanto lhes contava a histria. Quando mostrei as sapatilhas a Katie e lhe disse que tinham 
sido da av Dan, ela inclinou-se e beijou-as. O gesto teria feito a minha av sorrir.
Tal como temera quando o navio partiu em Setembro de 1917, nunca mais voltou a ver Nikolai. Foi para Tobolsk com a famlia imperial conforme combinado, mas as circunstncias 
fizeram com que acabasse por ficar tambm sob priso domiciliria. A sua devoo pela famlia imperial acabou por lhe custar a liberdade e, em Julho de 1918, foi 
executado juntamente com eles. Uma breve carta de algum que no reco-
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nheci informou a av da morte de Nikolai quatro meses depois. Posso apenas imaginar o que a leitura de tal carta lhe ter provocado, pois mesmo eu, passados todos 
estes anos, fiquei com os olhos cheios de lgrimas quando li a traduo. Deve ter sentido que o mundo terminava tambm para ela.
Porm, antes de morrer, avisara-a na sua ltima carta de que havia rumores de uma execuo. Por muito cruel que tal pudesse parecer, ele tentara prepar-la. Apesar 
de tudo, as palavras de Nikolai revelavam um tom surpreendentemente animador e corajoso. Dizia-lhe que no devia desistir de lutar, que tinha de encontrar felicidade 
na sua nova vida e lembrar--se dele e do seu amor com alegria e no tristeza. Confessava--Ihe ainda que, no seu corao, se sentira casado com ela desde o dia em 
que a conhecera, que lhe concedera os anos mais felizes da sua vida e que a nica coisa que lamentava era no ter embarcado naquele navio com ela. Nesse dia, a av 
deve ter percebido que nunca mais o veria. O destino no podia ser alterado. O destino dela era ter uma outra vida, com todos ns, num local bem distante e diferente 
de tudo o que conhecia. O destino dele no era ficar com ela.
O pai e o nico irmo que lhe restava foram mortos no final da guerra e Madame Markova morreu de pneumonia dois anos depois de a av partir.
Uma a uma, perdeu todas as pessoas que amara. Perdeu tudo, o seu pas, a carreira, a famlia, o ballet e o homem que amava.
No entanto, nunca houve nada de trgico ou triste na av. Deve ter sentido muito a falta deles, em especial de Nikolai. O seu corao devia doer de cada vez que 
pensava neles, mas nunca me disse nada. Era simplesmente a av Dan, com os seus chapus engraados, os patins, os olhos brilhantes e os biscoitos deliciosos. Como 
pudemos ser to cegos? Como pudemos pensar que aquilo era tudo o que a av era? Como pude acreditar que a velha senhora que usava aqueles vestidos negros j gastos 
era a mesma pessoa que sempre fora? Por que motivo achamos que as pessoas idosas foram sempre idosas? Porque no fui capaz de imagin-la no seu vestido de veludo 
vermelho guarnecido a arminho ou a danar O Lago dos Cisnes para o czar? Porque nunca me disse nada? Guardou todos os seus segredos para si mesma.
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Viveu com o primo de Nikolai durante onze meses enquanto esperava por ele e mais um ms at saber que fora executado. Tal como Nikolai lhe prometera, o primo foi 
muito amvel. Era um homem calado, com as suas prprias memrias, os seus desgostos, as suas perdas. A av deve ter sido como um raio de sol para ele, embora lhe 
parecesse uma criana. Era vinte e cinco anos mais velho. Tinha quarenta e sete quando ela chegou e ela vinte e dois. Deve ter sabido sempre o quanto Nikolai significava 
para ela. Cinco meses aps a morte de Nikolai, dezasseis depois de ter chegado a Vermont, casou com o primo dele, o meu av, Viktor Obra-jensky. At hoje, no sei 
ao certo se alguma vez o amou. Presumo que sim. Devem ter sido amigos. O av era sempre muito gentil com ela, embora muito calado, e a av falava dele sempre com 
carinho e admirao; porm, agora no consigo deixar de me perguntar se alguma vez amou o meu av como amou o seu primo. Duvido, embora acredite que, de alguma forma, 
o amasse. Nikolai fora a paixo da sua vida, o sonho da sua juventude.
Tanta coisa que nunca soube, tantos sonhos que nunca imaginei. A av era de facto um mistrio. Tenho agora as peas desse mistrio: o ba, as sapatilhas, o medalho 
e as cartas, mas a av manteve o resto com ela - as memrias, as conquistas, as pessoas que tanto amou. A nica coisa que lamento foi ter sabido to pouco sobre 
ela enquanto ainda estava connosco.
A av Dan, o que representou para mim, viver no meu corao para sempre. A mulher que foi antes disso pertenceu a outras pessoas e manteve-as junto a si no seu 
corao, nas suas memrias, nas cartas e no medalho. Ainda o deveria amar para levar as cartas consigo para a casa de repouso. Deveria continuar a l-las ainda, 
ou ento, de tanto as ler, j as sabia de cor.
Agora, quando fecho os olhos, a av no  velha, os seus vestidos no so pretos ou gastos e j no est a fazer biscoitos... Est a sorrir para mim, bela e jovem 
como outrora, a danar com as suas sapatilhas, e Nikolai Obrajensky sorri e observa-a. Acredito que, algures, esto finalmente juntos.
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